Amarás o teu próximo como a ti mesmo

 

<<Imagem encontrada no site: Chicago is the World>>

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Amarás o teu próximo como a ti mesmo

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Maria Ida Fontenelle

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       João Ubaldo Ribeiro em sua coluna do dia 29 de agosto no Globo, escreve um suposto diálogo entre amigos de botequim:

“- Desculpe-me, mas a maluquice é sua. Quando eu digo “todo mundo”, claro que estou generalizando, há sempre alguns, desculpe, um tanto fora do prumo como você, ou que estão com problemas e reclamam, mas ninguém está ligando, mete isso na sua cabeça…Se o problema toca no sujeito, aí é diferente, aí ele vira bicho, vai brigar, entra na justiça, faz carta pro jornal e promove até passeata…Mas se não incomoda ele, pode deixar tudo aí que está ótimo… Enfia isso na sua cabeça, de uma vez por todas: o lema de todo mundo é “ o único problema é o meu e o que interessa na vida é me arrumar”!”

 

         Em 29, no momento em que escreveu o Mal-estar na Cultura, Freud formulou sua grande pergunta:

“Que podemos esperar da humanidade nesse século XX?”

          

           No estudo do seu texto ele nos convida, o tempo todo, a refazer seu percurso e nos deparamos, na atualidade, com as mesmas perguntas, tropeçamos nos mesmos obstáculos e a questão continua colocada para nós: o que podemos esperar da humanidade nesse século XXI ?

           Como entender que, após um século, a humanidade se bate pelos mesmos motivos, que guerras e conflitos se sucedam? Estamos todos expostos hoje, como antes, à barbáries incontáveis, agora com uma capa de tecnologia e um uso maior dos conhecimentos de uma ciência que evoluiu.

           Entendemos que foi necessário à sociedade civilizada fazer uma inevitável restrição à vida sexual para que a libido, inibida em sua finalidade, pudesse fortalecer os vínculos de amizade, convivência e solidariedade entre os homens. A renuncia pulsional, a satisfação inibida pela lei, foram os movimentos que o homem civilizado aprendeu a fazer para conquistar seu mínimo de satisfação possível.

            Desde antes do cristianismo, mas com ele aparecendo como um de seus principais preceitos, a sociedade civilizada tentou se organizar com uma exigência: “Amarás a teu próximo como a ti mesmo”. Isto nos foi passado pelas nossas famílias, pela vivencia nas religiões principalmente a católica, por nossos educadores.

             Freud nos coloca corajosamente essa pergunta. Acha assustador e surpreendente que essa exigência seja feita, por ser tão estranha à humanidade. “Qual é o sentido de um preceito enunciado com tanta solenidade, se seu cumprimento não pode ser recomendado como razoável?

               Como isso seria possível “se meu amor, para mim, é algo de valioso que não devo jogar fora sem reflexão. Se amo uma pessoa, ela tem que merecer meu amor de alguma maneira. Ela merecerá meu amor se for de tal modo semelhante a mim em aspectos importantes, que eu me possa amar nela; merece-lo-á também se for de tal modo mais perfeita que eu, que nela eu possa amar meu ideal de meu próprio eu.”… “ Mas se esta pessoa for um estranho para mim e não conseguir atrair-me por um de seus próprios valores, ou por qualquer significação que já possa ter adquirido para minha vida emocional, me será muito difícil amá-la.”

               Esse preceito nos coloca várias questões:

              -Quem é meu próximo?

              -O que ele quer de mim?

              -Como eu me amo, se tenho que amá-lo como a mim mesmo?

              -Se o amor é narcísico, como amar quem não sei o que pode me devolver?

           Lacan aponta para o caráter capcioso desse pretendido altruísmo que se satisfaz de preservar o bem de quem? – daquele, precisamente, que nos é necessário.

        Freud se pergunta sobre esse outro, esse estranho, que se teria que amar. O mostra tendo duas faces: a primeira, -o outro elemento- é feita à nossa imagem e semelhança, de modo que compreendo esse elemento tal como suponho que ele me compreende. Então, essa primeira face é meu semelhante, um outro. O próximo propriamente dito, é o Outro inominável, fora do significado, estranho e estrangeiro a mim mesmo, aquilo que não posso compreender. Nessa segunda face o outro me aparece sob o signo do capricho, do arbítrio, do sem crença nem moral que possa me dar alguma garantia. “ O Estranho é indigno do meu amor. Aliás, tem mais direito à minha hostilidade e meu ódio. Nele não parece haver também, nenhum traço de amor nem consideração por mim. Não hesitará em tirar alguma vantagem ou me prejudicar. Me usará para satisfazer qualquer desejo e me mostrar a superioridade de seu poder. É bem provável que meu próximo aja comigo como eu ajo com ele. A presença da maldade profunda que habita no meu próximo, habita também em mim. O que é mais próximo de mim do que o meu próprio gozo, este gozo, exatamente, do qual eu não ouso me aproximar?

“O elemento de verdade por trás de tudo, elemento que as pessoas estão dispostas a repudiar, é que os homens não são criaturas gentis que desejam ser amadas e que, no máximo, podem defender-se quando atacadas; pelo contrário, são criaturas entre cujos dotes pulsionais deve-se levar em conta uma poderosa agressividade.” Mais adiante:”… “ela, ( a agressividade) também se manifesta espontaneamente e revela o homem como uma besta selvagem, a quem a consideração para com a sua própria espécie é algo estranho”. “Não é fácil aos homens abandonar a satisfação dessa inclinação para a agressão”.

Trechos de O mal-estar da civilização, de Sigmund Freud

        Lacan no seminário da Ètica nos diz:

”Talvez esteja aqui o sentido do amor ao próximo que poderia tornar a dar a verdadeira direção. Para isso seria preciso enfrentar que o gozo do meu próximo, seu gozo nocivo, seu gozo maligno, é ele que se propõe como verdadeiro problema para meu amor.”

        Aqui podemos trazer-nos para a atualidade e pensarmos que hoje, depois de tantos “progressos” na civilização, continuamos a matar e a maltratar nossos semelhantes em guerras, terrorismo, na criminalidade e em todas as atrocidades cometidas pelo homem. Conforme a história da humanidade nos mostra, o outro é o depositário de nossas pulsões agressivas. Ele é, antes de qualquer coisa, o inimigo, o rival, o “Homo homini lupus”, como disse Freud, repetindo Hobbes e fazendo menção à história da crueldade dos povos entre si.

“Em consequência dessa mútua hostilidade primária dos humanos, a sociedade civilizada se vê permanentemente ameaçada de desintegração… A civilização tem de utilizar esforços supremos a fim de estabelecer limites para as pulsões agressivas do homem e manter suas manifestações sob controle por formações psíquicas reativas. Daí, portanto, o emprego de métodos destinados a incitar as pessoas a identificações e relacionamentos amorosos inibidos em sua finalidade, daí a restrição à vida sexual e daí, também, o mandamento ideal de amar ao próximo com a si mesmo, mandamento justificado pelo fato de nada mais ir tão fortemente contra a natureza original do homem”.

 Trecho de O mal-estar da civilização, de Sigmund Freud

        Nas relações sociais o outro aparece como objeto de um gozo possível ( Eros) e como alvo da agressividade, o inimigo a ser explorado, combatido e evitado. A obediência ao preceito de Amar ao próximo como a si mesmo tenta operar nas duas pulsões colocadas por Freud: na pulsão sexual (Eros) limitando a vida sexual do individuo e na pulsão de morte, limitando a expressão de uma agressividade ao outro.

         Gostaria de pensar na atualidade, à luz desse artigo de Freud, como estaria a civilização atualmente em relação a essa renuncia pulsional que ele coloca como sendo necessária para fazer operar o mal-estar, para que reduzindo a satisfação de cada indivíduo se reduza também a ação contínua e indestrutível da pulsão de morte. O que pensar do imperativo de gozo cada vez mais presente nessa comunidade globalizada? Presenciamos exatamente o contrário. Valor, hoje, é não renunciar ao gozo, ele deve estar em tudo e ser rápido.

         Pensar em uma menor renuncia pulsional, teoricamente nos levaria a supor, então, em menos mal-estar? Ou, como estaria operando esse mal-estar? Parece-me que o que testemunhamos não é um mal-estar menos intenso, mas uma negação dele. O homem moderno está encontrando cada vez mais meios de não trabalhar o e com o mal-estar. Cada vez mais encontrando satisfações rápidas e fáceis, soluções que tamponam qualquer tipo de frustração e renuncia. Ninguém mais se dispõe a lidar com tristeza, depressão, rejeição ou qualquer tipo de desconforto. Aí os conhecimentos científicos estão também a serviço de dar, a quem procurar, soluções rápidas como os anti-depressivos, as ritalinas, os ansiolíticos e analgésicos até para as dores da alma, como se pudessem ter efeito de mudança subjetiva. Os bens de consumo são cada vez mais sofisticados e atraentes, as religiões cada vez mais entram com respostas onde deveriam existir perguntas. A política não consegue mais congregar os homens em torno de idéias e projetos mas dão testemunhos cada vez maiores de que, para se conseguir o que se quer, vale qualquer ação.

         Se o mal-estar não se instala, não é elaborado por uma sociedade então, o que poderíamos supor como futuro? Como pensar os efeitos desse desejo de que o mundo esteja liberado de uma incompletude irredutível?

         Freud se interroga: “Penso que a questão do destino da espécie humana deve ser colocada da seguinte maneira: o progresso da civilização saberá, e em que medida, dominar as perturbações transportadas à vida cotidiana pelas pulsões humanas de agressão e de auto-destruição?

          Foi esse o legado de Freud em 29, como nos diz Philipe Julien, um recuo argumentado, um ponto de resistência que o deteve e que ele nos apontou, uma interrogação que nos transmitiu, como que para nos dizer: se vocês tiverem ido tão longe na psicanálise a ponto de se chocarem com uma mesma rocha de escândalo, ter-se-ão detido nela ou não? Talvez possamos realmente dizer do nosso mal-estar em termos que pensar que o homem não tem conseguido, diante de suas oposições, discordâncias e diferenças, imprimir nenhuma marca em seus atos que não escancarem a colocação em ato de sua destruição.

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Por: Maria Ida Fontenelle

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Referências Bibliográficas.

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Freud, S. – O mal-estar na civilização. (1930) E.S.B, vol. XXI. R.de Janeiro. Imago 1974

– O futuro de uma ilusão. ( 1927) E.S.B, vol. XXI R.de Janeiro Imago 1974

Lacan, J. – Seminário 7. A ética da psicanálise.( 1950/1960) Rio de Janeiro. Zahar.l988

Julien, P – O estranho gozo do próximo; ética e psicanálise. R. de Janeiro. 1996

Poli,.C. – Perversão da cultura, neurose e laço social . Rev.Agora no 1, R.de Janeiro, jan-junhode 2004, pg 39 a 54

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Amarás a teu próximo como a ti mesmo
Notícia publicada em: Wednesday, May 31 @ 20:15:55 BRT
Tópico: Trabalhos

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