Já há mais que Mil e.. três ensaios sobre sexualidade…

 

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“Já há mais que Mil e.. três ensaios sobre sexualidade…e  perversões… e homossexualidade”

                                                                    

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 Luiz Fernando Gallego

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       1. Relacionamentos sexuais em período mais recente do que na Grécia antiga ([3][3])

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Randolph Trumbach ([4][4]) diz que foi na metade do século XVIII que emergiu na Inglaterra e Noroeste da Europa a moderna concepção dos gêneros e dos relacionamentos sexuais: os papéis masculino e feminino, seu significado e a relação entre eles passaram por uma revolução que integrava o nascimento da cultura moderna ocidental – o Iluminismo.

            Surgiram novos ideais para o comportamento e condição das mulheres, expressos na concepção do casamento romântico, do companheirismo conjugal e do tratamento carinhoso das crianças.  Mas o que teria sido mais claramente transformado pelo novo padrão de relacionamento sexual foi o comportamento e condição dos homens. Porque antes do século XVIII, na Europa, o homem adulto mantinha relações sexuais tanto com mulheres como com adolescentes masculinos, sem que isto implicasse em estigma de efeminamento ou inadequação do homem.

Se, por um lado, apenas as relações matrimoniais eram aprovadas pela Igreja, os homens não deixavam de praticar adultério, estupro, ou se envolver com prostitutas. Embora isto fosse considerado ilegal e imoral, era também honroso enquanto revelação de poder.  Assim, os relacionamentos homossexuais, moralmente condenados, podiam ser honrosos quando afirmavam o poder do homem. “Efeminado” era o homossexual passivo. Da mesma forma, o homem submisso a um desejo sexual irresistível por uma mulher era “efeminado”, nada “viril”.

Depois de 1700, na Inglaterra, França e Países Baixos, o comportamento homossexual masculino foi substituído por um novo padrão que permaneceu na sociedade ocidental contemporânea: a maioria dos homens passou a admitir apenas o desejo sexual por mulheres, sendo este desejo que determinava a condição masculina; adolescentes não aceitavam mais serem passivos com homens mais velhos e em Londres, os garotos abordados entravam em pânico; instauravam-se processos penais, com humilhação e punição do “sodomita”, como eram designados. 

O termo “molly” que era utilizado para prostitutas passou a designar os homens que andavam, falavam, vestiam-se com – e ocupavam-se de – hábitos femininos.  As mulheres “de verdade” não eram prostitutas (nem os homens “de verdade” eram sodomitas). “Por natureza” as mulheres eram destinadas às alegrias domésticas da maternidade; por tal “lógica” não poderiam jamais ser prostitutas. Este novo ideal se diferenciava da concepção anterior da mulher como tendente a ser dissoluta por ser portadora de desejos sexuais mais fortes e menos refreados do que os homens. Herança de Eva? Ou de Lillith?

Mas em meados do século XVIII o novo ideal influenciava poderosamente as famílias: o casamento arranjado era substituído pelo casamento romântico e os pares não teriam mais existência social individual; as aristocratas abdicavam das amas-de-leite; e as expectativas mais altas do recém-casados contribuíram para o aumento no numero de divórcios na aristocracia depois de1750.

Os homens exerceriam seu poder sobre as mulheres e crianças dentro dos novos ideais de amor, companheirismo e afetividade – embora a prática de chicotadas nas nádegas dos pequeninos entre os três e cinco anos de idade permanecesse como “educativa”. Mas os trajes ambíguos infantis foram substituídos por calções masculinos, pretendendo-se uma socialização que evitasse a passividade sexual entre adolescentes e homens adultos: um homem não deveria saber o que era desejar outro homem sexualmente – apenas mulheres e sodomitas conheciam este desejo sexual por homens.

Mais do que a interdição do homossexualismo feminino, o que importava para determinar o caráter feminino era o relacionamento sexual com homens na condição de esposas, ou seja, mulheres não prostituídas. O tabu moderno do homossexualismo feminino aparece claramente no último quarto do século XVIII quando as então chamadas “safistas” foram estigmatizadas como “tommies”.

Aquilo que, no século XIX se denominou de homossexualismo e de heterossexualismo não era uma distinção presente na natureza humana universal, sendo concepções que foram surgindo no início do século XVIII, à medida que se desenvolviam novas formas de amizade marital e afeição paternal.

Um dos raros “mitos modernos” (ou seja, que não têm origem na antigüidade) ameaçava esta organização social que era centrada no pai e no marido: o mito do sedutor Don Juan, imortalizado em inúmeras peças, contos, livros e óperas, com destaque para a versão de Mozart e Lorenzo da Ponte, “Don Giovanni”, onde o criado do libertino canta suas façanhas sexuais com as mulheres, enumerando uma estatística de conquistas: “só na Espanha, são já mil e três” (mille e tre).

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2. Quando Don Juan ainda não era homossexual ([5][5])

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            Segundo Michel Foucault, as regras de alianças infringidas por Don Juan é que teriam mantido o prestígio deste mito do sedutor de virgens, vergonha das famílias, insulto aos pais e maridos. Mais do que um homem transpassado pela folia do sexo, sob o libertino surge o perverso que derruba os dois grandes sistemas de regras que o Ocidente concebeu para reger o sexo: a lei da aliança e a ordenação dos desejos. Nesta época, Don Juan anda não é suspeito de homossexualismo, narcisismo ou impotência.

           O homossexual do século XIX se torna um personagem: teria um passado, uma história, uma infância, um caráter, uma forma de vida: é uma morfologia com uma fisiologia misteriosa.  Nada do que ele é escapa à sua sexualidade que se faz presente nele todo, sendo subjacente a todas as suas condutas, já que sua sexualidade seria o princípio insidioso e infinitamente ativo dos comportamentos. Sua sexualidade lhe é consubstancial, nem tanto como pecado, mas como natureza singular.

            Foucault remonta ao século XVIII o nascimento das grandes proibições, a valorização exclusiva da sexualidade adulta e matrimonial, os imperativos de decência, a esquiva do corpo, a contenção e os pudores imperativos da linguagem.  Para ele, o discurso ocidental analítico sobre o sexo expressa uma “ciência sexual” em vez de uma “ars erótica” (a prática do erotismo como arte no oriente).

           Este discurso visaria efeitos múltiplos de deslocamento, intensificação, reorientação e modificação sobre o próprio desejo: são os controles pedagógicos, os tratamentos médicos e as condenações judiciais das menores perversões; a irregularidade sexual passou a se equalizada à doença mental, já que se estabeleceu uma norma de desenvolvimento sexual da infância à velhice e se caracterizou e classificou todo e qualquer desvio possível; a sexualidade foi centrada na genitalidade, abominando-se os prazeres que não resultassem no fruto da concepção de outro ser.

            Além do direito canônico, da pastoral cristã e da lei civil, a regulação era feita pelas pressões de opinião e costumes: houve pedagogização do sexo da criança por adestramento contra a criança manipulando os genitais, a criança masturbadora; surgiram as penalidades para os adultos, contra o adultério por parte de membros de um casal; o corpo da mulher passou a ser visto como passível de “histerização”, um colorário da “mulher nervosa”, a histérica; e por fim, mas muito importante, a psiquiatrização do prazer perverso contra o adulto transgressor.

Tudo passou a ser tomado em consideração em nome da aliança familiar apoiada na medicina e da pedagogia, psicologizando-se as relações. Daí surgem as figuras da “mãe nervosa”, da “esposa frígida”, da “mãe ineficiente” (como daquela obcecada por temores homicidas); como estas, a “moça histérica”, os “neurastênicos”, o “marido impotente” (assim como “o marido sádico” e “o marido perverso”), “a criança precoce” e o “jovem homossexual” são figuras mistas da aliança que se vê ameaçada por um desvio e da sexualidade anormal – desvio e anormalidade que transferem perturbações da sexualidade para a ordenação da aliança familiar. Dão oportunidade para que o sistema da aliança faça valer seus direitos na ordenação da sexualidade.

A família passa a demandar ajuda para as interferências infelizes da sexualidade na aliança, recorrendo aos especialistas: médicos, pedagogos, psiquiatras, padres. Descobre-se o segredo temido, que a coluna fundamental da aliança era o próprio germe de todos os infortúnios do sexo: a família é o cristal que reflete, difrata e difunde uma sexualidade por sua penetrablidade; e por sua repercussão em relação ao exterior, se transforma em elemento tático para um dispositivo da sexualidade.

O que era moralmente “devassidão” ou “extravagância” morais se transforma em anomalia constitutiva, desvio adquirido, enfermidade ou processo patológico: masturbação é considerada uma “fraude contra a procriação”, o “pecado da juventude”, “doença dos nervos”; a perversão passou a ser ligada à hereditariedade e à degenerescência, e Freud (apesar do que Foucault identifica como sua vontade normalizadora) vai se opor a esta concepção. A psicanálise vai se inserir entre a lei e o desejo com sua teoria de mútua implicação essencial – e ao mesmo tempo, como uma técnica para eliminar os efeitos da interdição das leis quando o seu rigor a torna patogênica.

O incesto passa a ser perseguido como conduta no mesmo período em que a psicanálise se empenha em revelá-lo como desejo e eliminar, para os que sofrem, o rigor excessivo que recalca o desejo. Coincidentemente, é em 1898 que chega às leis a possibilidade perda do pátrio poder.

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3. Freud, lido pelo historiador e psicanalista Peter Gay ([6][6])

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De acordo com Peter Gay, os ideais entronizados enganosamente em termos como masculino e feminino vão se tornar, nas demonstrações de Freud, cheios de inesperada ambigüidade. Ele cita uma passagem em que Freud diz: “Do ponto de vista da psicanálise, o interesse exclusivo do homem pela mulher é uma questão que requer elucidação e não uma premissa”.

Relembra que Freud gostava de citar August Moebius, por este ter dito que somos todos, até certo ponto, histéricos.  Sua obra, na leitura de Peter Gay, não deixa dúvidas de que somos todos, até certo ponto pelo menos, homossexuais: o Don Juan, diz ele, que tanto precisa se gabar do catálogo das inúmeras seduções, assim como a bela mulher que precisa escravizar (como a cigana Carmen) todos os homens que encontra, teriam maior probabilidade de terem conflitos íntimos em torno de sua sexualidade.

Para Freud, prossegue ele, o sexo genital heterossexual não vinha por si mesmo, mas era uma conquista, o ápice de uma evolução longa, nunca desprovida de dor e nunca totalmente completa, sendo o homossexual um exemplo de suspensão localizada do desenvolvimento; suspensão porque fixado em estágios que os mais afortunados superam ou integram satisfatoriamente; localizada porque a psicanálise não tem nenhuma razão para acreditar que tal fixação represente, por s mesmai, uma desvantagem enquanto ser moral, intelectual, político ou artístico.

O fenômeno seria mais complexo do que se supunha: haveria homossexuais temporários, outros permanentes; haveria os exclusivos, mas outros, ocasionais – ou ainda, freqüentes; alguns, intolerantes para com o sexo oposto, outros, adoradores do sexo oposto; alguns, com aparência do outro sexo outros, com aparência do mesmo sexo; etc.

E a etiologia da homossexualidade não seria menos variada do que suas expressões: se Freud admitia predisposições biológicas, rejeitava a idéia de uma forma herdada de degeneração. Pensou-se em várias constelações familiares facilitadoras da circunstância, tais como:

mãe sedutora / pai fraco ou ausente;

pai amoroso / mãe fria;

sedução precoce;

investimento narcísico permanente no próprio corpo; etc.

Peter Gay considera que, quando o que estava em jogo eram os costumes sexuais, Freud não ignorava as implicações culturais de suas teorias, não tendo agradado nem aos homossexuais polemizadores nem aos heterossexuais moralistas.

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4. Freud, lido pela historiadora e psicanalista Elisabeth  Roudinesco

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Roudinesco & Michel Plon([7][7]) lembram que Freud não produziu nenhuma teoria específica sobre a inclinação sexual homoerótica e que tudo que ele considera deriva da teoria da bissexualidade psíquica, conceito que surgiu simultaneamente ao de homossexualidade por oposição ao conceito de heterossexualidade (1860-1880).

A idéia original de bissexualidade era derivada da embriologia; designava a existência de uma predisposição biológica dotada de dois componentes, um masculino e um feminino. Freud viria a abandonar esta teoria da bissexualidade natural (hoje em dia também rejeitada pela genética) pela tese da bissexualidade psíquica. Mas desde sempre, na psicanálise, bissexualidade é a disposição psíquica inconsciente própria da subjetividade humana no que diz respeito à necessidade do sujeito fazer uma escolha sexual:

seja através do recalque de um dos 2 componentes;

seja da aceitação dos 2 componentes;

seja pela renegação da realidade da diferença sexual.

Ele rompe com a ideologia psiquiátrica de “tara” e/ou “degeneração” que caracterizava uma “espécie” ou “raça” sempre maldita, maldição que não deixou de se manifestar em Proust, especialmente através do personagem do Barão Charlus de “Em Busca do Tempo Perdido”.

Freud usa o termo perversão para os comportamentos sexuais desviantes em relação a uma norma estrutural e não mais uma norma social. Na homossexualidade ocorreria uma perversão do objeto de escolha, caracterizada por uma fixação da sexualidade numa implicação bissexual, retirando a conotação não-igualitária, imbuindo uma idéia diferencialista pejorativa – ou, inversamente, valorizadora.

Freud incluiu a homossexualidade no todo da sexualidade humana e a humanizou; não a concebendo como uma disposição “inata” ou “natural” – ou seja, biológica – nem a vendo como uma cultura de um grupo; mas, sim, como uma escolha psíquica inconsciente, denominando-a “inversão” e não necessariamente uma “perversão”.

Não pretendeu “curar” esta inversão e escreveu isto explicitamente em 1920: a psicanálise não deve ter este objetivo ([8][8]). Pela teoria edípica e do Inconsciente, a homossexualidade, derivada como conseqüência da bissexualidade, existe em estado latente, em todos os heterossexuais.

Roudinesco também chama a atenção para a formulação encontrada no texto “Psicologia das massas e análise do Eu” (1921), na qual Freud supõe a instalação da homossexualidade masculina depois da puberdade pela instauração de um intenso vínculo entre filho e mãe na infância: o filho, não renunciando a este vínculo, identifica-se com a mãe e procura objetos que ocupem o lugar do seu eu e que possa amar como foi amado por sua mãe.

Menciona ainda a famosa carta de 1935 a uma mãe cujo filho era homossexual: “A homossexualidade não é uma vantagem, evidentemente; mas nada há nela de que se deva ter vergonha: não é um vício nem um aviltamento, nem se pode qualifica-la de doença; nós a consideramos uma variação da função sexual provocada por uma suspensão do desenvolvimento sexual.” (grifo nosso)

            Roudinesco ainda denuncia a política do “Comitê Secreto” dos primórdios da História do Movimento Psicanalítico onde se deu a cisão entre Karl Abraham e Otto Rank – esse, apoiado por Freud – em 1921, sobre a possibilidade ou não de homossexuais serem psicanalistas. Posteriormente, Ernest Jones sobrepujou as opiniões de Ferenczi e Freud, considerando que homossexuais não deveriam ser psicanalistas.

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5. Freud, resumido por ele mesmo

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Poucos autores dentre os que consultei mencionam um texto([9][9]) de 1922 no qual Freud faz um resumo daquilo que considerava fatores predisponentes para este tipo de organização sexual:

a) Uma fixação na mãe que não pôde ser transferida para outra mulher, passando a buscar objetos amorosos em quem possa se redescobrir e amá-los como a mãe o amou. Fica, assim, identificado com a mãe, o que lhe permite permanecer fiel a ela que foi seu primeiro objeto de amor.

b) Escolha de um objeto homossexual, ou seja, de um objeto narcísico, para o qual é mais fácil se inclinar do que fazer um movimento na direção do outro sexo. Nesta escolha narcísica se inclui a supervalorização do pênis e a incapacidade de tolerar sua ausência num objeto de amor.  A depreciação das mulheres, aversão e até mesmo o horror a elas parece derivar da descoberta precoce por parte do menino de que elas não possuem um pênis.

 c) A renúncia às mulheres significa que toda a rivalidade com o pai – e com todos os homens que ocupam o seu lugar – é evitada: por consideração a ele ou por temor.

O apego à condição de existência de um pênis no objeto amoroso – assim como o afastamento das mulheres em favor do pai – podem ser atribuídos ao temor à castração – o que, associando-se ao narcisismo (item b, acima) e à fixação à mãe (item a, acima), aliados ao efeito de uma sedução por um adulto que tenha fixado prematuramente a libido, bem como à influência de algum fator orgânico, redundariam numa situação homossexual.

Considero este pequeno texto mais conclusivo do que as hipóteses levantadas nos famosos “Três ensaios sobre sexualidade”, objeto de muitas polêmicas. 

         O questionamento e problematização das teorias freudianas sobre homossexualismo podem ser resumidas a partir do trabalho o filósofo Jerome Neu ([10][10]). Ver adiante:

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         6. Jerome Neu ([10]) discute ensaios e categorias de Freud sobre sexualidade ([11][11])

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6.1 – Este autor parte da premissa de que sexualidade não é algo confinado ao intercurso genital heterossexual entre adultos: esta é uma constelação dentre outras variações de organizações; sendo o homossexualismo, uma outra.

Sendo a sexualidade mais complexa do que uniforme e o instinto sexual feito de componentes, Neu aprecia a compreensão freudiana do instinto sexual como complexa, tendo dimensões e componentes distintos: a fonte do instinto (sua origem, sua excitação); o objeto escolhido para atingir a satisfação; e a finalidade (que é a satisfação do instinto).

Este filósofo é mais um a destacar que, para Freud, as variações são menos uma questão de aberração biológica do que uma questão ligada à fantasia e ao pensamento.

Ele faz uma provocação: existiria uma “patologia do pensar sexual”? Existirá espaço para uma moralidade do desejo e da fantasia? Propósitos e funções e metas sexuais são múltiplas, não sendo apenas uma coisa corporal ou biológica. Existe sempre um elemento psíquico que emerge (e talvez mais claramente nas perversões – onde as condições psicológicas para a satisfação sexual são dramaticamente enfatizadas).

6.2 – Ele problematiza os conceitos de inversão e perversão em Freud.  A “inversão” (homossexualismo) corresponde ao deslocamento do objeto sexual, dos membros do outro sexo para membros do mesmo sexo. Argumenta, entretanto, que no bestialismo e na necrofilia também há mudança de escolha do objeto, enquanto o fetichismo pode corresponder tanto a um desvio objetal (sapatos, por exemplo) como a um desvio de finalidade.

6.3 – Diz que o aspecto patológico da perversão não reside no conteúdo da nova finalidade sexual, mas sim na sua relação com o “normal”; a idéia de inversão e/ou perversão implica em uma contrapartida: uma “versão”, geralmente de pretensão “naturalista” da sexualidade.

Contrapõe que a natureza humana não é apenas resultado de “nature” (o que seria “natural” em nós); inclui, de algum modo, condições de “nurture” (o que recebemos do ambiente que nos cuida) para sobrevivência e desenvolvimento.  E este “de algum modo” já implica em variações. E mesmo a “natureza” pode ser uma causa “externa” à constituição do indivíduo que não escolheu aquela natureza nem seus resultados: como exemplo, as doenças genéticas; diabetes; não há sentido em estigmatizar a natureza do diabético. Nem a possível natureza do homossexual. Nem em considerá-los na categoria “unnatural”. Afinal, a “natureza” inclui mais variáveis do que gostaríamos de admitir. E pensar a perversão baseado no que não é natural é inaplicável filosoficamente.

6.4 – Freud vai conceituar perversões como atividades sexuais que: tanto   a) se estendem anatomicamente além das regiões corporais destinadas à união sexual; como b) se detém em fases intermediárias ou preliminares da finalidade sexual.

Neu questiona: o que haveria de tão objetável em se estender ou em se deter? O que privilegia o intercurso heterossexual entre adultos? Existirá mesmo algum critério que transcenda pontos-de-vista sociais e individuais?

         6.5 – Freud tenta conceber a perversão a partir da universalidade da sexualidade infantil perversa polimorfa com diversas áreas de prazer (oral, anal, uretral, genital). Neu polemiza: o bebê pratica a sucção por prazer e isto é visto como parte do polimorfismo perverso porque no adulto o beijo é erótico? Ou as práticas sexuais orais são perversas porque reproduzem uma prática infantil?

          6.6 – O que é perverso é aquilo que corresponde a uma fixação e exclusividade. O patológico de uma prática dita perversa não estaria no conteúdo de uma nova finalidade sexual, mas, como já foi dito anteriormente, na sua relação com um “normal”. Daí os conceitos de “paradas no desenvolvimento” e de “regressão” a pontos anteriores de fixação face a frustrações posteriores como que explicando a instalação de uma prática sexual perversa.

        Ora, diz Neu, está implícita uma idéia de desenvolvimento e maturação normais. Teria que se questionar as fases oral-anal-genital como expressão puramente psicológica/biológica ou como resultante em parte biológica, em parte um processo social. Neu considera que há uma certa confusão entre o atingir uma capacidade orgânica com a valoração de uma forma de sexualidade tida como superior ou como a única aceitável. A subordinação da sexualidade à reprodução e a importância dada à atividade genital heterossexual acaba sendo uma norma social.

      Freud não alega que exista uma preferência biológica ou evolutiva para a reprodução: a preferência individual, se existe alguma, é atingir o prazer. Mesmo se há preferência pela finalidade do prazer, ou seja, pelo orgasmo se sobrepondo aos prazeres preliminares como algo determinado biologicamente, as condições para atingir tal prazer não são determinadas biologicamente.

          A finalidade em todos os casos seria uma descarga de energia ou de tensão. Na teoria do prazer (ou do desprazer da tensão) a finalidade é entendida em termos de prazer.

6.7 – Em Freud a perversão é compreendida como formas infantis não genitais de prazer. Um problema: a homossexualidade pode ser genital e “adulta”. Há períodos não-genitais na história do desenvolvimento e a emergência da função reprodutora vem só na puberdade; isso leva à consideração de que toda a sexualidade anterior seria necessariamente perversa? Nos casais estéreis, mantém-se a finalidade de prazer sem reprodução e isso não é considerado uma perversão.

 Também o conceito da sexualidade infantil como autoerótica, não envolvendo um objeto sexual é problemática: a homossexualidade envolve um objeto e não se adequa ao modelo infantil descrito. O fetichismo e o bestialismo envolvem objetos. Não são “infantis”. Não são “perversões”?

Mas o fato do homossexualismo envolver um objeto (uma outra pessoa) justificaria sua exclusão do grupo de perversões para ser considerado “inversão”.                            

6.8 – Enquanto a biologia é relativamente uniforme, objetos e finalidades do desejo sexual são tão variados como pode ser a imaginação e a fantasia. O aparelho reprodutor tem estrutura determinada e modos de funcionamento – enquanto o desejo sexual é multiforme e multifatorial.

A análise dos desejos sexuais começa com uma necessidade instintiva derivada de uma fonte somática. Mas a representação desta necessidade instintiva se desenvolve na história do indivíduo com variedades de objeto e de finalidades que são os modos de satisfação.

6.9 – Para Freud, se a homossexualidade é inata ou adquirida, é uma questão em aberto. Ele disse que as perversões não eram degeneradas nem animalescas, mas desenvolvimentos de possibilidades de tudo o que se encontra na disposição sexual indiferenciada da criança, e que esta disposição, por supressão ou desvio para finalidade maiores não sexuais (sublimação), é que provê energia para um grande número de conquistas culturais.

6.10 – Neu vai discutir os conceitos de uniformidade versus diversidade; a universalidade dos indivíduos e a diversidade das culturas: padrões sexuais são relativos culturalmente; diferentes sociedades aprovam e desaprovam diferentes práticas sexuais. O que não impediria que pensássemos algumas sociedades como perversas (com conotação pejorativa mesmo).

Pergunta: será que os critérios de perversão podem se fundar em algo além do relativismo cultural? – ou mesmo individual? (ou seja, o que é prazeroso para cada um). Haverá algo além de julgamentos de valor sobre a sexualidade? Esses julgamentos desaprovadores podem base estética, moral, religiosa, política, biológica, médica, etc.

6.11 – Outra indagação: Perversões são necessariamente raras? Mas se uma prática se torna popular, deixa de ser perversa?

Ele conclui que a discussão de Freud sobre perversão não deixa de refletir o predomínio de normas sociais, enfatizando que sempre vai pesar o conceito de desvio de uma norma. E a norma varia segundo a sociedade, a época e o lugar. Portanto, não se pode deixar de lado a questão do relativismo cultural. Nem que uma sociedade possa ser, ela mesma desviante, preconceituosa, equivocada ou errada em seus postulados. (Às vezes é necessário que os indivíduos resistam à própria sociedade e suas exigências – ou a abandonem!)

6.12 – Os mecanismos de escolha homossexual são entendidos e caracterizados de forma variados: identificação com a mãe; evitação da rivalidade com o pai; inibição ou parada de desenvolvimento; fixação; exclusividade; não ser reprodutivo; não ser anatômico (biológico); questões culturais. Será uma perversão de acordo com o(s) critério(s) escolhido(s)

6.13- Neu cita outro autor, Nagel, para quem a essência da sexualidade implica vários níveis de interação interpessoal. E a perversão seria expressão de uma incompletude de interação. Nesse sentido, uma relação homossexual não seria necessariamente perversa, mas o fetichismo, sim. E relações heterossexuais podem, muitas vezes, ser perversas.

Os critérios de perversão serão múltiplos e nenhum é totalmente satisfatório se se procura UMA natureza humana comum.  Não é que não haja ideais de sexualidade e seus correspondentes critérios para perversão, mas eles são múltiplos também e devem ser vistos como ideais mais amplos de interação humana. Por todas essas questões, padrões terapêuticos não podem ser simples adaptações às normas prevalentes de uma época ou de um local.

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7. Não concluindo…

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… e deixando de lado outras tantas leituras de Freud e de outros autores consultados ([12][12]), chegamos à clínica psicanalítica, questionando-nos sobre o atendimento a homossexuais. Depois de tudo que foi estudado, ainda cabe pensar numa clínica específica para homossexuais? Apresentam dificuldades mais específicas do que outros analisandos na contemporaneidade? Durante muito tempo foram considerados como apresentando maior tendência a atuações; e todos os percalços surgidos na tarefa analítica eram atribuído à condição homossexual([13][13]), como se outros analisandos, heterossexuais, não apresentassem situações semelhantes – que não podiam ser atribuídas a esta organização sexual. Como foi dito antes por Foucault: a homossexualidade permearia toda a conduta do homossexual. E tudo “explicava”.

Como se a promiscuidade sexual fosse exclusiva dos homossexuais, assim como se a falta de vinculação afetiva em geral e com o analista não ocorresse com pacientes de organização heterossexual.

É interessante observar que a própria classificação do donjuanismo como atitude encobridora de um suposto homossexualismo latente pode atender mais a preconceitos compensatórios do que à estrutura do mito de Don Juan, estudado desde os primórdios da psicanálise sem maior ênfase na questão homossexual ([14][14]).

            Jean Rousset ([15][15]) caracteriza o mito por suas unidades constitutivas invariantes que se fundam principalmente na polaridade entre o herói (que comete um ultraje ao convidar um morto para cear alimentos terrestres – quando o defunto já estaria alimentado pelas graças celestiais) e a estátua do falecido, o convidado de pedra que aceita o convite – para castigá-lo por sua transgressão blasfema. Sem este elemento, o mito não seria o que é, primitivamente uma versão folclórica onde o mediador do além, agente do vínculo com o sagrado, era um espectro ou uma óbvia caveira.  A evolução para a estátua, representação pétrea do morto, acrescentou um amálgama inquietante entre um material imóvel como a pedra (e o morto) e algo tão fluido e móvel como o pensamento, a fantasia de retaliação, o ideário católico punitivo de quando o mito se cristaliza em obras de arte tais como peças teatrais e óperas. Se quiserem, o supereu.

            A sofisticação dos enredos vai encontrar sua forma máxima no libreto de Lorenzo da Ponte para a obra-prima de Mozart, Don Giovanni. Aqui, a estátua é a representação do pai de uma das mulheres seduzidas traiçoeiramente pelo Don Juan, estabelecendo-se um triângulo onde o sedutor vai transgredir as leis de aliança e de ordenação dos desejos, mencionadas por Foucault em citação anterior (ver item 2). O Burlador de Sevilla desrespeita uma mulher que está noiva, prometida a um cavalheiro respeitador, e que ainda se encontra sob a guarda paterna. E em duelo, mata este pai, que retornará do além sob a forma de estátua para impor a lei que o transgressor desrespeitou de forma desmedida.

            Em tempos menos religiosos, o aspecto mais difundido do mito está na terceira invariante que é um grupo feminino, uma série de n vítimas (só na Espanha, eram Mille e tre) que servem como testemunhas da inconstância do sedutor, de sua poligamia indiferenciada, de sua mania de repetir e recomeçar sempre. ([16][16])

            Rousset chama a atenção que no donjuanismo posterior à cristalização do mito arrefecem os aspectos do herói janota e mulherengo, libertino e pecador, bem como suas confrontações com poderes celestiais. E, paralelamente, surgem as especulações quanto à virilidade indecisa do conquistador, seu suposto medo da mulher – convertida em perseguidora, sua paralisia narcísica e seu homossexualismo latente. Além da figura do “duplo”, estudada por Rank no que diz respeito ao amo e seu criado, Leporello na ópera de Mozart, Sganarelle na peça de Molière.

            Esta última questão me parece que pode ser mais bem compreendida por meio da peça de Jean Genet, “As Criadas” – que odeiam Madame, amam Madame, querem ser Madame, tal como o Leporello da ópera pode se encantar de vestir as roupas de Don Giovanni e passar por ele, ao mesmo tempo em que quer deixar este patrão cuja posição, entretanto, o fascina tanto, a ponto de ser o criado quem alardeia a lista de incontáveis mulheres seduzidas pelo amo. Amo?

            Lembrando que Rousset caracteriza o herói como um modelo viril de fantasias e idealizações masculinas, ora positivas, ora negativas, talvez caiba especular, sim, que, tal como novos “Leporellos” invejosos da performance sexual de seu patrão, os homens mais comedidos na sua vida sexual prefiram minimizar o triunfante D. Juan como um homossexual latente.  E que a imagem do homossexual promíscuo tenha herdado aspectos da figura demonizada do D. Juan, já que apresentariam a mesma tendência à repetição e poligamiainvertida em poliandria inconstante.

            Já atendi homens com vida sexual exclusivamente homoerótica mas que não eram promíscuos, um deles com desconforto pela posição passiva na prática homossexual  e na sua vida, em geral, marcada por um estigma físico de doença congênita, quase imperceptível para os outros, mas definidora de uma auto-imagem insatisfatória e uma auto-estima precária, seus pontos de urgência na busca de terapia. Mas, a conquista de relações homossexuais em papel ativo não implicava em qualquer desejo de práticas heterossexuais, que já mantivera no passado, sem satisfação.

            Por outro lado, uma mulher com mais de vinte anos de vida exclusivamente homossexual (após experiências de frigidez e/ou dor na cópula heterossexual), desenvolveu transferência erótica com o analista homem, voltou a estabelecer um relacionamento heterossexual, agora plenamente prazeroso e enfrentou uma gravidez de alto risco, dedicando-se com desvelo a esta criança, nascida em condições muito adversas.

            Outra mulher, mais jovem, porém de aparência igualmente feminina, jamais deixou de privilegiar o relacionamento estável com sua namorada de aparência muito masculinizada. Sua procura de terapia envolvia o sofrimento real com uma irmã gravemente esquizofrênica e com um péssimo relacionamento com seu pai, já falecido.

            Um homem de vida sexual promíscua procura análise por estar envolvido com um namorado de quem gosta muito e teme perdê-lo. Nesta fase, está com este parceiro exclusivo e o afeto é que o disturba, tal como o personagem criado por Laclos em “Ligações Perigosas”, o visconde Valmont, sedutor que se deixa seduzir pelo que seria originalmente apenas objeto sexual para demonstração de seu poder.

          Neste sentido, vejo qualidades maiores do que as que foram aventadas na época do lançamento do filme de Milos Forman, com roteiro de Jean-Claude Carrière a partir deste mesmo romance que originou o filme homônimo de Stephen Frears. No filme “Valmont”, apenas ele morre. Diferentemente do que está no enredo do livro, a Madame de Merteuil não é punida ao ficar com a cara bexiguenta nem, como no filme de Frears, é vaiada em um teatro; nem a Presidenta de Tourvel, morre. Mas no prefácio (irônico) do livro, Laclos, visando apaziguar a censura, diz que nada daquilo deve corresponder a uma realidade pois “hoje em dia ninguém morre de amor” como a Madame Trouvel. Mas Valmont, como qualquer um de nós, ganha a mortalidade ao abandonar o isolamento e a eternidade narcísica desvinculada quando se envolve amorosamente, criando um vínculo com o qual não tinha a menor convivência.

         A desconsideração pelo objeto (as mulheres que seduz, por exemplo) é o que condena Don Juan e que importa como característica doentia nas relações afetivas e sexuais, hetero ou homoeróticas.

 

        Rio de Janeiro, 2002/2003.

 


 


NOTAS:

[1][1] Apresentado no simpósio “Sodoma e Gomorra – ensaios sobre a sexualidade”, SBPRJ, 2002.

 

[2][2] Membro efetivo e analista didata da SBPRJ.

 

[3][3] Resumido de TRUMBACH, R. – “Fantasia erótica e libertinagem masculina no Iluminismo inglês” in: HUNT, L. (org.) (1993) – A Invenção da pornografia: obscenidade e origens da modernidade. SP: Ed. Hidra, 1999.

 

[4][4] Professor de História da New York University, com pesquisas sobre a prostituição e homossexualismo na vida sexual londrina e européia no século XVIII.

 

[5][5] Extraído de FOUCAULT, M. (1984) – A história da sexualidade. Rio de Janeiro: Edições Graal , 1985.

 

[6][6] Extraído de GAY, P. (1986) – A Experiência Burguesa: da Rainha Vitória a Freud, Vol.2:  A Paixão Terna    São Paulo: Ed. Companhia das Letras, 1990.

 

[7][7] Extraído de ROUDINESCO, E. & PLON (1997) – Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998.

 

[8][8] Ver Psicogênese de um caso de homossexualismo numa mulher, vol.XVIII da ESB.

 

[9][9] FREUD, S. (1922) – Alguns mecanismos neuróticos no ciúme, na paranóia e no homossexualismo. ESB, vol. XVIII, pp.269-285.

 

[10][10] Professor da Universidade da Califórnia, estudante convidado do Instituto Psicanalítico de Boston e organizador do volume dedicado a Freud numa série sobre grandes pensadores da Editora da Universidade de Cambridge.

 

[11][11] Extraído de NEU, J. (1987) – “Freud and perversion” in: NEU, J. (org.) The Cambridge Companion to Freud. Cambridge: Cambridge University Press, 1991, pp.175-208.

 

[12][12] Por exemplo, podem interessar bastante, dentre muitos outros:

 

          Costa, J. (1992) – A Inocência e o vício – estudos sobre o homoerotismo. Rio de Janeiro: Relume Dumará;

 

          Spencer, C. (1995) Histoire de l’homosexualité de l’Atiquité à nos jours. Paris: Lê Pré aux Clercs, 1998.

 

[13][13] Ver CORREA, C. (2003) Sodoma e Gomorra:  mille e tre ensaios sobre a sexualidade apresentado no mesmo simpósio mencionado na nota 1 e no XIX Congresso Brasileiro de Psicanálise, Recife, 2003.

 

[14][14] RANK, O. (1914, 1922) – Don Juan et Le Double, études psychanalytiques. Paris: Petite Bibliothéque Payoy, s/d.

 

[15][15] ROUSSET, J. (1978) – Le Myhte de Don Juan. Paris: Librairie Armand Colin.

 

[16][16] Na ópera de Mozart é dito que ele não se importa se a mulher é rica ou campesina ou camareira ou baronesa, marquesa ou princesa; nem se é loura, morena ou grisalha; nem se é gorda ou magra, alta ou baixa, velha ou jovem, admitindo uma preferência pela donzela (giovin  principiante); mas se usa saia…Voi sapete quel che fá. A preferência pela virgem é o que dá a ilusão de recomeçar sempre.

 


Por: Luiz Fernando Gallego

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Já há mais que Mil e.. três ensaios sobre sexualidade…e perversões… e homos

Notícia publicada em: Monday, September 06 @ 09:25:55 BRT
Tópico: Trabalho

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