A hipótese lacaniana

Aeternus – A hipótese lacaniana

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<<Imagem: Lacan passport, encontrado no site: Benjamin Phillips>>

A hipótese lacaniana

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Jairo Gerbase

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       A hipótese lacaniana é um título que não inventei. Ele aparece no seminário 20, no capítulo 11, “O rato no labirinto”, em um dos inter-títulos deste capítulo. É daí que vou partir para comentar neste seminário e em alguns outros lugares o que diz Lacan sobre o corpo. Na página 194 deste seminário ele diz: “Minha hipótese é a de que o indivíduo que é afetado pelo inconsciente é o mesmo que constitui o que chamo de sujeito de um significante.”

         Esta hipótese faz de imediato uma relação de equivalência entre indivíduo e sujeito que escrevemos na álgebra de Lacan o que pode parecer estranho porque posso dizer doravante o indivíduo é o sujeito o que sempre diferenciamos, sempre dissemos o sujeito não é o indivíduo, não é a pessoa, não é o corpo.

      Vamos esclarecer esta aparente contradição, vamos esclarecer doravante porque o indivíduoé o sujeito, vamos precisar voltar a Aristóteles para saber o que é o indivíduo. Na página seguinte, Lacan diz que não se sabe bem o que o guiou, mas Aristóteles deu como definição do indivíduo o corpo, o que se conta um a um, o corpo enquanto organismo e não o que se reproduz que é sujeito da biologia. Então, se aceitamos que, segundo Aristóteles, indivíduo é equivalente a corpo podemos deduzir a equivalência entre corpo e sujeito. Esta é uma primeira indicação: trabalhar o corpo em psicanálise, segundo Lacan, é o mesmo que trabalhar o sujeito. Isto é interessante porque o fato de que ouvimos dizer que o gozo é do corpo, nos faz ter uma idéia, talvez, supervalorizada do corpo biológico, que sempre foi uma questão para a psicanálise. O que, de fato, quero tratar é que lidamos com o sintoma; é a razão de nossa existência. É verdade que há atos falhos, sonhos, poesia, chistes, que são também formações do inconsciente, mas não seria por estas formações do significante que alguém nos demandaria uma análise, senão pelo sintoma. Este é o privilégio que tem o sintoma entre as formações do inconsciente. Na medida em que há um sintoma há uma demanda ao psicanalista. Esta demanda é tanto mais premente quanto o sintoma é dor. No nosso caso dor psíquica, angústia. É também assim na medicina: não levamos muito a sério o sintoma até que aparece a dor.

        Quero dizer que o sintoma, que é a razão da nossa existência, no campo que nos concerne, o do sintoma dito mental, há pelo menos três orientações bem definidas a respeito de sua formação: a da psicologia, a da psiquiatria e a da psicanálise.

          A orientação da psicologia supõe que a condição da formação do sintoma seja o ambiente: a família, a cultura, a sociedade, até o capitalismo; não se disse até aqui que o socialismo seja a condição do sintoma, mas, também não se fez até aqui amplamente, globalmente a experiência do socialismo.

         Por seu turno, a da psiquiatria supõe que a condição da formação do sintoma seja a genética: a hereditariedade, a neurotransmissão e a neuroregulação entre as células nervosas; são orientações bem definidas. E a psicanálise supõe que a condição da formação do sintoma seja o real. O desdobramento que queremos fazer desta hipótese de Lacan, ser afetado pelo inconsciente, é a do real. Praticamente, vou me deter nesta hipótese, apenas rapidamente posso passar pela hipótese da psicologia cognitiva e da psiquiatria biológica. Vou dedicar todo este trabalho a esta hipótese à qual quero acrescentar o real, o indivíduo que é afetado pelo inconsciente real é o mesmo que constitui o sujeito de um significante.

      Para trabalhar a hipótese lacaniana é preciso partir de sua nova definição do inconsciente que ele introduziu tardiamente, em 1977, no prefácio à edição inglesa do seminário 11, a do inconsciente real. Parece óbvia a hipótese da psicologia, o ambiente, parece compreensível a hipótese da psiquiatria, a genética, entretanto vamos trabalhar a hipótese da psicanálise: a condição da formação do sintoma é o real.

      Se eu fosse colocar isso em termos empíricos, descrevendo uma experiência, diria que quando um sintoma mental se desencadeia, e um psicólogo averígua as condições desse desencadeamento, e encontra uma informação com esta que vou descrever: um casal se separa e uma mãe deixa um filho aos cuidados de um pai; de acordo com sua hipótese, a psicologia tende a responsabilizar esta mãe, diz que se trata de uma má mãe, que o menino é não amado, não desejado e que isto justifica o desencadeamento de um sintoma.

      Diria que isto é, no sentido preciso desta palavra, uma opinião, considerada verdadeira e muito consagrada, sancionada. É, por assim dizer, uma ortodoxa. Quem quiser contestar esta explicação, ouvirá um “é óbvio que este sujeito é não amado, não desejado e que isto é a condição da formação de seu sintoma”. Se esta mesma experiência empírica for submetida ao exame do psiquiatra aparece outra hipótese explicativa: o sintoma foi desencadeado por uma condição genética, procure os antecedentes familiares e encontrar-se-á sintomas semelhantes, a prevalência da hereditariedade, tratando-se especialmente de um sintoma psicótico, que é o que estou descrevendo, uma elação, uma mania. Assim como em um sintoma somático, uma diabetes, uma hipertensão, o ambiente participa como fator de risco, no sintoma mental ser não desejado é um fator de risco, pois o que está em jogo, em primeiro lugar, é a transmissão e a regulação entre as células nervosas e isto depende de uma condição genética. São hipóteses muito bem definidas, como acabo de dizer, a da psicologia e a da psiquiatria, são, por assim dizer, evidências.

      Diante da mesma experiência, do mesmo fenômeno, do desencadeamento do mesmo sintoma a psicanálise diz outra coisa. Primeiro, diz esta coisa brutal, difícil de ser aceita mesmo pelos psicanalistas: não há nenhuma participação da realidade na formação do sintoma, posto que o sintoma é uma formação do inconsciente, donde o desencadeamento de um sintoma é da ordem de um encontro do real, isto é, o sujeito encontrou (não disse encontrou-se porque não é o sujeito que encontra o real, o que seria um encontro subjetivo, mas o real que se apresenta ao sujeito, o que se deveria chamar de encontro objetivo) algo impossível de ser dito, algo inefável. E a psicanálise subitamente indica a diz-solução: vai ser necessário tagarelar (tradução de bavarder, de Lacan, que é o que Freud chama de associação livre, ou seja, não vai ser necessário investigar cientificamente porque é impossível investigar cientificamente o encontro do real) para poder dizê-lo, para poder dissolvê-lo no real. Esta é a hipótese lacaniana que queremos examinar, de que o corpo que é afetado pelo inconsciente é o próprio sujeito de um significante e que se sustenta da ideia de que o inconsciente seja o real. Pode-se dizer que a condição do desencadeamento deste sintoma que estamos descrevendo é do inconsciente real, o que distingue a psicanálise imediatamente da psicologia que afirma ser do ambiente, da realidade e da psiquiatria que diz ser da neuroquímica, da célula nervosa.

       Esta ideia de colocar corpo e sujeito em uma relação de equivalência, se não de homologia, tem a vantagem de deixar de lado a divisão corpo e mente. Corpo é equivalente a sujeito,sujeito é homólogo de corpo. Isto exige esclarecer o que, do ponto de vista da psicanálise, doponto de vista de Lacan devemos entender por corpo. Para chegar aí seria necessário dizer oque significa ser afetado pelo inconsciente, dizer em que condições um corpo é afetado peloinconsciente. Isso parece óbvio, mas é sempre difícil de explicar.

       Um corpo é afetado pelo inconsciente no sentido em que um significante tem ressonância nele, em que um dizer faz eco nesse corpo, o que só é possível acontecer em um corposensível ao dizer, ao significante. Esse eco, essa ressonância de um dizer em um corpo é oque chamamos de pulsão. Apenas inverti a frase de Lacan de que a pulsão é um eco no corpo pelo fato de que há um dizer. Ao dizer que um corpo é afetado pelo inconsciente estamos falando da pulsão, de um corpo sensível ao dizer, e como disse acima, tal sujeito encontrou algo impossível de ser dito, o que chamamos de real ou de inconsciente real.  É por isso que o objeto voz, o objeto por intermédio do qual se pode dizer e afetar um corpo tem prevalência entre os objetos pulsionais, o objeto oral, o seio, o objeto anal, as fezes (o objeto fálico sendo a significação, o referente dos outros objetos), apenas um objeto, o olhar continua a fazer uma concorrência, disse Lacan, eminente ao objeto voz.

      Na verdade, a hipótese de que o desencadeamento de um sintoma é da ordem do encontro do real, isto é, que o sujeito encontrou algo impossível de dizer, é uma “patologia” dessa relação significante e corpo. Esta é a especificidade da psicanálise e é assim porque o corpo é constitucionalmente afetado pelo significante. Essa é a nossa genética, o que contraria essa ideia também sancionada de que há primeiramente o corpo vivo e só depois o corpo falante. O corpo é de saída, falante.

      Esta especificidade da psicanálise torna possível discernir os três campos. O da psiquiatria biológica, que encontrou, com certeza, o seu caminho, dado que se propõe ser especialidade da medicina, e como tal nada é mais correto do que se propor psiquiatria biológica, pois houve um tempo em que ela esteve mal discernida enquanto psiquiatria social e comunitária. Podemos contestar a hipótese da psiquiatria biológica, mas não podemos deixar de aceitar que ela é concernente ao campo que pretende cernir e é robusta. Por sua vez, o campo da psicologia explora com justa razão a importância do ambiente, especialmente da família,mesmo na psicologia assim chamada cognitiva.

         Quero com isso dizer que nosso caminho será abandonar estas duas orientações e seguir a hipótese lacaniana de que o corpo que interessa à psicanálise é este que denominamos de corpo falante, o corpo do ser falante. O que é uma exclusividade de determinado corpo. Só há um corpo falante, um corpo que está constitucionalmente programado para falar.

       De tal maneira que, chegado a um determinado momento, que Lacan descreveu em o estádio do espelho e que datou entre seis e dezoito meses, se este corpo não fala qualquer um reconhece que algo não funciona, que é preciso demandar um especialista com a pergunta:por que um corpo programado para falar ainda não falou? Há nisso “patologia”? Por que um corpo que recebeu tantos significantes durante os primeiros meses de vida não foi capaz de fazer uso desses significantes?

       O que interessa à psicanálise acerca do corpo humano é o fato de ser corpo falante. Pouco importa saber que o corpo humano é constituído de aparelhos, digestivo, respiratório, circulatório, etc. Pode-se objetar dizendo, mas existem as somatizações, como não é preciso conhecer os aparelhos do corpo? Respondo que nada do que pode acontecer em relação aoque chamamos de somatizaçoes estará na dependência dessa anatomia. Posso aqui lembrar oque Lacan disse em “Televisão”: uma estrutura significante recorta o corpo e isso não tem nada a ver com a anatomia como testemunha a histérica; essa cisalha chega ao pensamento com o qual o obsessivo se embaraça.

       O que Freud destacou no corpo foi isso que em sua língua se chama Quelle, a fonte da pulsão, que há pouco defini com eco do dizer em um corpo que lhe é sensível. Ele queria saber de onde partia o impulso que dava origem à pulsão e chamou estes lugares do corpo de zonas erógenas. Ele localizou os furos do corpo. Seus objetos correspondem aos furos do corpo: à boca o seio, ao ânus as fezes, ao genital a porra, ao olho a imagem, ao ouvido o som.

        O corpo interessa a Lacan como corpo furado, tórico, e assim como Freud tomou por referente dos objetos destes furos o falo e chamou esta relação entre estes significantes e seus referentes de significação fálica, Lacan tomou por referente destes mesmos objetos o objeto a, e por isso eu poderia chamar esta relação entre os significantes e os objetos a que eles se referem de significação de furo ou tórica.

      O que tem a vantagem conceitual de dizer que a relação do significante com o corpo é simultaneamente metafórica ou fálica e metonímica ou tórica ou não-todo fálica, ou não-toda.  Afora o fato de que interessa à Lacan o fato de o corpo ser falante, de ter nele ressonância o dizer, lhe interessa também o que Freud chamou de zonas erógenas, de ilhotas de gozo, o fato de que o corpo tem furos.

         Freud destacou os três furos, oral, anal e genital e Lacan os dois outros o olhar, que podemos fechar, não ver e o ouvido que não podemos fechar. A experiência crucial da psicose é ouvir mesmo na ausência do outro, ouvir a voz do próprio sujeito como se fosse do outro, do supereu se quiser, do Outro enfim. E ficar indignado com a voz, em geral, pérfida do Outro. Se me for objetado que há mais um furo, o do nariz, do objeto olfato, responderia que esse furo interessou demasiadamente a Fliess, porém de modo nenhum a Freud. O objeto olfativo não é valorizado na psicanálise. Mesmo na experiência psicótica da alucinação o objeto olfato não é destacado, não tem prevalência sobre os outros objetos.

       Então, o corpo vivo, com todos os seus órgãos não tem interesse para a psicanálise. A psicanálise se interessa pelo corpo falante, o corpo que é afetado pelo inconsciente, pelo significante. Os termos inconsciente, real e significante entram em uma relação de equivalência estreita neste enunciado: o indivíduo que é afetado pelo inconsciente é o mesmo que constitui o que chamo de sujeito de um significante.

       Há corpo sensível ao latido, ao miado, ao mugido, ao berro, ao gorjeio, etc., e há corpo sensível ao dizer. Esta especificidade do corpo humano, Lacan a destacou desde que escreveu a “Função da fala e campo da linguagem em psicanálise” (1953). Ele chama aatenção ali que já havia uma aversão a esta função e a este campo. Ele observou que foi esta aversão que promoveu o desvio do ensino de Freud, quer dizer, que pouco a pouco os teóricos foram supervalorizando a função do ego, foram se interessando cada vez mais pelo que se chama de pré-verbal, como se houvesse alguma coisa anterior ao significante, como se o pré-verbal não fosse do domínio do significante e decorre daí, ele diz, uma série de noções, recomendações, e prescrições impróprias do ponto de vista da descoberta fundamental da psicanálise.

       Deduz-se disso que a hipótese lacaniana é simples: há sintoma porque há um corpo falante. Hipótese esta que pode aparentemente ser objetada pelas pesquisas de comportamento animal, e é por isso que sua hipótese vai aparecer no capítulo chamado de “O rato no labirinto”. Pode-se colocar o rato no labirinto e ensiná-lo a aprender, mas este aprendizado é completamente distinto do aprendizado de um corpo que é sensível ao significante, à fala. Esta sensibilidade do corpo à fala é distinta da sensibilidade de outros corpos animais, é distinta da propriedade fonatória de outros corpos, é diferente de latir, miar, gorjear, silvar,coaxar, borbulhar, etc., é diferente no fato de que estes sons fonatórios não são rigorosamente significantes, au-au, miau, não são significantes porque lhes falta a oposição de um fonema ao outro, o que nos permite dizer corpo e porco. Essa oposição designificantes não se vai encontrar em outro corpo animal. O corpo que late não diz nada além do au-au e se limita a estes fonemas a comunicação entre os cães.  É, portanto, uma comunicação restrita. O que Lacan quer dizer com sua hipótese de que o corpo é afetado pelo significante é que há esta complexidade que decorre desta oposição de significantes. Isso faz o mal-estar da civilização, faz o sintoma da civilização, da Kultur.

       Mesmo o corpo que só faz zumbido, o da abelha, pode se comunicar, cada corpo se comunica com seu semelhante por intermédio de seus recursos, mas isso não é suficiente para se dizer que se trata de significantes.

          Por isso queria destacar a noção restrita do uso do conceito de significante em Lacan, o destaque a este oposição que tornou possível a um corpo ser falante. Sua hipótese quer nos levar a tirar esta conseqüência de que por uma função do significante, a função de oposição, fez existir um corpo que é falante e apenas isso é a condição da formação do sintoma, dado que este instrumento do corpo falante pode se tornar inacessível, o que, então, chamamos de encontro do real.

          É uma hipótese, sem dúvida, arrojada e a conseqüência que se deve tirar dela é que há neurose porque o homem fala, há sintoma porque há um corpo falante, ou, para dizer de um modo mais compreensível, há sintoma quando é impossível dizer, quando há o encontro do real, quando há epifania, quer dizer, quando se revela para o sujeito um sentido singular de um significante, ou quando se revela o significado essencial de uma coisa, de preferência, há encontro do real quando o sujeito está diante de uma experiência indizível.

         Tudo leva a crer que a realidade joga na formação do sintoma, mas a hipótese de Lacan quer que se vá buscar na realidade o que possa ser chamado de encontro do real, ou seja, o que da realidade resultou impossível de dizer, o inefável. Esta especificidade da psicanálise a diferencia da psicologia e da psiquiatria.

       A hipótese lacaniana é a hipótese freudiana. Talvez, possamos encontrar algumas especificidades, talvez possamos dizer que a realidade do inconsciente de Freud é sexual e a de Lacan real, talvez por isto se justifique dizer a hipótese de Lacan, no sentido em que Freud faz jogar no inconsciente um bisexo e Lacan um asexo, embora Freud tenha dito que só se escreve no inconsciente um tipo de gozo, os dois sexos tendo que se situar aí, o que Lacan chama de não há relação sexual, há um gozo que não se escreve. Portanto, a hipótese lacaniana continua sendo a hipótese freudiana embora tenha suas especificidades. Apesar de que a hipótese da Urverdrängung, do recalque originário, ser equivalente à hipótese do inconsciente real, porque o recalque primário não se deixa dizer, é impossível de dizer, Freud trabalhou todo tempo com o inconsciente simbólico, isto é, com a memória, com a experiência recalcada ou com o recalque secundário, embora estivesse implícita a ideia do inconsciente real, por exemplo, a ideia de que o sonho é composto a partir de restos diurnos, mas quer comunicar um desejo recalcado que é hipotético, mítico, inacessível, primário. Quer dizer, se deduz que há um desejo inconsciente, mas ele é intangível, não é possível dizê-lo, é hipotético.

        A distinção necessária entre a realidade e o real, enfim, é a mesma que fazemos entre traumatismo e troumatismo. Algo da realidade foi traumática, por exemplo, um abandono de uma mãe, mas, de fato, o que abandonou o sujeito não foi uma mãe, porém um significanteque não se deixou dizer.

       Então, é uma distinção que vale a pena fazer entre psicologia e psicanálise. Digamos assim: o sujeito foi não desejado por uma mãe, diz uma hipótese, ou foi não desejado por um significante, diz a outra. Podemos lançar mão de uma série de exemplos sempre no sentido de demonstrar que é a impossibilidade de dizer que joga na formação do sintoma. Em relação aos ditos do Outro é preciso valorizar a contingência do ouvir, que vou explorar mais adiante, ideia muito destacada por Freud, quando discute a etiologia do sintoma, da neurose,quando distingue o papel da realidade e da fantasia na formação do sintoma. Quando, por exemplo, ele introduz a fantasia de sedução, está interessado em demonstrar que o sujeito é autor do sintoma, no mesmo sentido em que se diz que alguém é autor de um poema, que o sujeito não é passivo diante do sintoma, tal como se diz do sintoma médico, somático. O sujeito é ator, autor do sintoma mental. Seja em que tipo de realidade for, mesmo no abuso sexual infantil (ASI), Freud quer que o sujeito seja autor do sintoma, quer que seja ativo, não seja passivo.

          É disto que se trata na contingência do ouvir, que o sujeito deve escolher nos ditos do Outro aquilo que lhe convém, é a hipótese do mal-entendido, da interpretação equivocada que o sujeito faz do dito do Outro. Esta é também a distinção entre verdadeiro e real. Por isso me pareceu feliz a distinção de que diante do fenômeno mental há três ordens de explicação, que a psiquiatria explica geneticamente, a psicologia ambientalmente e a psicanálise realmente.

       Quando se trata, por exemplo, de explicar uma escolha homossexual de objeto, a psiquiatria explica geneticamente, a psicologia ambientalmente e a psicanálise diz que isso é imponderável, que se trata de um encontro do real, que jogue aí este ou aquele fator se trata de uma escolha. No caso da jovem homossexual descrito por Freud, que acaba de ganhar uma biografia, esse imponderável é colocado nestes termos: é impossível transformar uma escolha homossexual em heterossexual e vice-versa, como se ele tivesse a noção do real, uma clara dimensão do que estava em jogo, do impossível.

         É o mistério do real, o mistério do corpo falante, o mistério do inconsciente.    Por: Jairo Gerbase


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A hipótese lacaniana

Notícia publicada em: Wednesday, September 09 @ 18:22:35 BRT

Tópico: Trabalhos

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