Édipo: o filme, a ópera, a peça, o mito e a psicanálise

Aeternus – ÉDIPO: O FILME, A ÓPERA, A PEÇA, O MITO E A PSICANÁLISE


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<<Ingres, “Oedipus and the Sphinx” 1808>>
 

 

ÉDIPO: O FILME, A ÓPERA, A PEÇA, O  MITO E A PSICANÁLISE

 

                                                                    Luiz Fernando Gallego[1]

 01selo

 

 

I –a)  A Ópera-oratório de Stravinski

 

 

            A denominação “ópera-oratório”  quer dizer que esta obra pode ser exibida como espetáculo teatral ou em forma de concerto,  como, aliás, foi estreada em 1927 sem causar maior impressão.  Já a versão que existe em VHS e em DVD (importados) utiliza amplos recursos cênicos, tendo sido premiada no Festival de Filmes de Arte de Montreal de ’93 e recebido o Grammy da TV americana por seu vestuário, esculturas e máscaras. Sua diretora, Julie Taymor, que começou no teatro experimental transformou-se neste meio tempo em um dos maiores nomes da Broadway com a versão para palco de “O Rei Leão” e lançou posteriormente o filme “Titus” (inédito no Brasil), versão com 2 horas e 40 minutos de uma das mais sangrentas tragédias de Shakespeare, “Titus Andronicus”, com Anthony Hopkins e Jessica Lange nos principais papéis. Já o filme sobre a pintora mexicana Frida Kahlo teve maior disttribuição, visibilidade e mesmo algum sucesso de público.

 

Igor Stravinsky[2] escreveu que desde 1920 sentia “necessidade de compor uma obra dramática de grande envergadura”.    Em 1925, formulou a idéia de que “o texto a ser musicado deveria ser transposto de uma língua cotidiana, secular, para uma língua arcaica que caracterizasse uma linguagem sagrada:  sagrada no sentido de produzir um efeito encantador que pudesse ser desenvolvido musicalmente.”  Decidiu então compor sobre um texto em latim. 

 

           Para esta opção também colaborou o fato de que, na época, se sentia um “desenraizado”: compor em russo – que ele chamava de  “a língua exilada do meu coração” – havia se tornado impraticável para ele, enquanto  ‘o francês, o alemão ou o italiano’  lhe ‘soavam estrangeiras’ ao seu ‘temperamento’: 

 

Dizia Stravinsky: “Quando trabalho com palavras em música, minha saliva musical é desencadeada pelos sons e pelos ritmos das sílabas. A expressão  ‘No Princípio Era o Verbo’  é, para mim, uma verdade literal.”

  

Para o tema “queria uma história universal, ou, pelo menos, tão conhecida que não se precisasse explicar muito os fatos,  mas apenas destilar a essência dramática,  permitindo um foco maior na dramatização puramente musical (…) ‘Édipo Rei’ era a peça que eu mais amara na minha juventude, e convidei Jean Cocteau  para escrever o texto, explicando que eu não queria uma peça de ação, mas uma espécie de ‘natureza morta‘ onde os atores se comportassem como estátuas vivas .   (grifos nossos)

 

Livros de música[3]apresentam-na como uma ópera curta, de menos de uma hora de duração, onde desde o coro de abertura a expressão é direta e emocionante. A linguagem musical do personagem Édipo se aproxima da linha vocal da primeira ópera da história, o  ‘Orfeu’  de Monteverdi, que data de 1607  (quando foi criada a ópera, nome pelo qual ficou conhecida a representação cantada, que era designada como “opera per musica” e que também se constituía numa tentativa de reeditar o teatro grego, que seria, ao menos parcialmente, cantado).   Já os coros, que têm percussão e ritmo bem marcados antecipam a cantata cênica “Carmina Burana” de Carl Orff, que data de 1936 e hoje em dia é bastante divulgada. 

 

 

Musicólogos destacam ainda o coro de “Gloria” que anuncia a entrada de Jocasta bem no meio da peça, sua ária e seu dueto com Édipo, além do impressionante clímax da obra na passagem em que o Mensageiro e o coro lamentam o suicídio da rainha.  Destacam ainda que o personagem de Édipo é construído de modo fascinante, passando do poder supremo e da auto-confiança à arrogância e à autocomiseração, até chegar à lucidez e ao horror sobre si mesmo.  (grifo nosso)

 

 

            Cocteau condensou a peça de Sófocles em seis cenas, cada uma delas precedida de um resumo do que vai se passar em seguida, anunciado por um ator-narrador que deve utilizar o idioma do local onde a ópera estiver sendo exibida, o que além de ser explicativo, favorece um certo distanciamento ao abandonar a ilusão de (falso) suspense para uma história tão conhecida, favorecendo a emoção musical. 

 

 

 

I –b)  Édipo Re na versão de Pasolini

 

.

         Ao lado da ópera Oedipus Rex de Igor Stravinsky e Jean Cocteau, o filme Edipo Re, de Pier Paolo Pasolini é uma das grandes variações artísticas produzidas no século XX a partir do mito que inspirou Freud a formular o conceito “Complexo de Édipo”. Na verdade,  Freud tal como Stravinsky e, em parte, Pasolini tomam como base o magnífico texto de Sófocles que sedimentou a lenda para nossa Cultura ocidental.

 

 

No filme em pauta, inclusive, um de seus trechos é bastante próximo ao desenvolvimento da peça, sendo precedido dos eventos que antecedem o desfecho da tragédia.  Um prólogo e um epílogo anacrônicos também chamam a atenção no filme de Pasolini, sendo que o início do filme é autobiográfico.  É numa caserna que nasce o Édipo contemporâneo, sendo Laio o tenente de infantaria Carlo Alberto Pasolini, pai do poeta e cineasta.  Esta identificação sugere que Pier Paolo se via com traços de um personagem trágico.[4]

 

 

Em 1966 Pasolini havia estado doente por conta de uma hemorragia digestiva causada por uma úlcera, necessitando guardar repouso, durante o qual escreveu uma peça com tema da mitologia grega (“Pílades”), outra chamada “Orgia” e outra que deu origem ao filme de 1969, com o mesmo título: “Porcherie”.  Escreveu os roteiros de “Teorema” (realizado em ’68) e de “Edipo Re” que foi o que filmou em primeiro lugar, logo no ano seguinte, em Ouarzazate, no Marrocos e em Bologna.

 

 

Sobre este filme, Pasolini declarou em uma entrevista publicada na revista  Les Cahiers du Cinéma:  “Eu conto minha vida, mitificada é claro, tornada épica pela lenda de Édipo.  Mas como é o mais autobiográfico de meus filmes, é aquele que eu considero com mais objetividade e distanciamento, porque, se é verdade que eu narro uma experiência pessoal, também é verdade que é uma experiência acabada que praticamente não me interessa mais.  Eu gostaria que ficasse bem claro que todo o filme é uma alucinação.”  Segundo René de Ceccatty, Pasolini se utiliza de sua experiência pessoal, histórica, datada (durante o fascismo no prólogo) e situada (em Bologna onde ele fez seus estudos) para superá-la, sublimá-la, distanciar-se e representar, através do destino de Édipo, o distanciamento de si-mesmo.[5]  “Não se trata de disfarçar o passado de presente, mas sim de vestir o presente com máscaras do passado”  – já havia declarado o cineasta a partir de outros anacronismos com os quais pontuou  “O Evangelho Segundo São Mateus”.

 

 

Já se disse que para compor uma tragédia é necessário que o assunto seja “a um só tempo, estranho e análogo: o poeta deve estar próximo do tema onde está o elemento moderno da tragédia; compor uma tragédia implica numa relação com o tempo presente. O autor dramático deve tentar reconciliar as contradições de sua época, utilizando-se da mediação de uma fábula, de uma história que lhe seja estranha.” [6] Embora não chegue à qualidade de algo sobrenatural ou “sinistro”, esta proposta de unir o “estranho” ao “análogo” aproxima-se do conceito de “estranho-familiar” (Unheimlich) que foi estudado por Freud em seu famoso trabalho homônimo[7].

 

 

Outra peculiaridade da versão de Pasolini, é a de omitir o famoso enigma da Esfinge que Édipo consegue decifrar:  no filme, o que vemos é Édipo se recusando a ouvir novos enigmas, adivinhas ou profecias, precipitando a Esfinge no abismo.  É curioso que, embora tenha optado por relatar em ordem cronológica a trama que antecede o clímax da história, o cineasta tenha substituído o Édipo-decifrador por um Édipo que não quer decifrar nada.  A atitude arrogante do édipo pasoliniano, entretanto é coerente com aquilo que até musicólogos destacam na versão de Stravinsky: “o personagem de Édipo é construído de modo fascinante, passando do poder supremo e da auto-confiança à arrogância e à autocomiseração, até chegar à lucidez e ao horror sobre si mesmo”.  (grifo nosso)

 

 

 

II –  A “Falha” Trágica no pensamento grego.

 

 

        Vamos prosseguir enfocando o que até livros de música apontam, que é a arrogância de Édipo, aspecto destacado pelo psicanalista Wilfred Bion (1897-1979) na sua leitura da tragédia. 

 

 

       Ao meu ver, Bion revisitou[8] o tema da hybris  – expressão que costuma ser traduzida como desmesura, excesso, insolência, orgulho desmedido   e que é um conceito essencial na concepção do teatro, dos mitos, enfim, do pensamento grego. 

 

 

        Só para recordarmos:  todo homem tem seu métron – que é a medida de cada um –  e cuja ultrapassagem incorre na hybris, o descomedimento.  A hybris desperta o ciúme divino – a némesis, que causa  a   áte, que é uma cegueira da razão  pela qual se desencadeia a  móira,  destino do qual não se pode escapar.[9] 

 

 

        Não importa para o pensamento grego que Édipo não saiba que Jocasta é sua mãe e que o viajante que ele matou na encruzilhada fosse seu pai: ele deve aceitar a responsabilidade por seus atos orgulhosos e impetuosos, bem como suas conseqüências. 

 

 

          Nas peças de  Sófocles[10]  o homem tem livre escolha, embora dentro de um sistema de limitações que tecem uma rede de circunstâncias que não pode ser desfeita, seja esta rede chamada, em diferentes terminologias, de destino, de hereditariedade & ambiente,  de experiências & vivências infantis, ou mesmo, para os que assim preferirem,  de  ‘inescrutáveis desígnios da criação’.

 

 

        Para Aristóteles a tragédia é desencadeada pela harmatia, traduzido como  “falha trágica”, engano, erro de avaliação, falha de julgamento, que não deve ser confundida com a culpa moral tal como vivenciada na cultura judaico-cristã: segundo Mircea Elliade[11] “a hybris  provoca uma loucura temporária (a áte) que cega o homem e o leva à catástrofe.  A hybris e sua resultante áte  são os meios pelos quais se realiza a móira, porção de vida atribuída por ocasião do nascimento dos mortais iludidos pelo ideal de excelência.”

 

 

 

III – Os Mitos e as Psicanálises

 

 

         Posto que os mitos são polissêmicos e não redutíveis a um único significado, o Édipo mítico é naturalmente mais amplo do que o Édipo freudiano, já que  “o pensamento mítico é avesso àquilo que a ciência entende como ‘precisão’ (…)  Quando se trabalha com mitos não se pode pensar em termos de verdades absolutas, rígidas,  imutáveis como rochas sem vida; deve-se pensar em  ‘tendências à verdade’, [verdade esta que é uma] virtualidade e que necessita de um suporte que a autorize para atingir os domínios do manifesto.” [12]  

 

         Freud trabalhou, no terreno da realidade psíquica, aspectos importantíssimos da peça de Sófocles, elaborando através do que denominou  “Complexo de Édipo”  o que a própria Jocasta já sabia:  “muitos, em sonhos, já deitaram com suas mães”, diz a personagem, embora tentando exatamente banalizar e desqualificar o que Freud iria valorizar, apontando que, se sonharam em deitar com suas mães, forçosamente rivalizaram com seus pais.

 

 

         A Psicanálise,  à semelhança dos mitos,  lida com a dinâmica dos seres humanos  e,  portanto,  também não é –  nem muito menos deve ser, guardiã de verdades absolutas como uma rocha sem vida, rígida e imutável.  Foi coerente, portanto, que logo em seguida a Freud encontrasse em Melanie Klein(1882-1960)[13] uma antecipação cronológica do superego infantil para ser pertinente com as observações desta psicanalista sobre crianças, além de priorizar o predomínio do amor sobre o ódio para a dissolução do complexo de Édipo – muito mais do que o temor à castração proposto originalmente por Freud como chave para a dissolução do complexo.  

 

 

          Com Jacques Lacan(1901-1981)[14], o “Édipo” passa a ser entendido como uma estrutura onde o pai intervém sob a forma da Lei para evitar a fusão da criança com a mãe, advindo a interdição através do significante “nome-do-pai”.

 

 

         Bion, como já foi assinalado,  reapresentou a questão da arrogância capaz de levar à tragédia e à catástrofe,  enquanto Heinz Kohut(1913-1981)[15] vai  reler o Édipo freudiano como expressão daquilo que ele chamou de  “o homem culpado” ,  voltando seu interesse para o que conceituou como  homem trágico“,  aquele que não cumpre o seu projeto original de ser, ou, na  terminologia de Kohut, aquele que não realiza o projeto nuclear do self,  que é um conceito bastante próximo do  self verdadeiro  de Winnicott[16].

 

 

          Homem trágico seria, por exemplo, o pequeno Édipo abandonado para morrer – em oposição, por exemplo, a Telêmaco, filho de Ulisses que o pai evita matar, sob o preço de ter que ir lutar numa guerra que o afastará do lar por 20 anos.  Passado este tempo, este filho lutará – não contra – mas ao lado do pai quando este retorna,  para afastar os pretendentes à mão da rainha Penélope, sua mãe:  este filho ajuda a reunir o casal, conforme mencionou Kohut em seu último trabalho que fala do “Semi-Círculo da Saúde Mental”[17],  onde o semi-círculo se refere ao desvio que Ulisses fez no caminho de seu arado para não matar o bebê Telêmaco, colocado à sua frente como teste para saber se Ulisses estava realmente louco a ponto de não poder participar da Guerra de Tróia, ou se estava simulando – e estava, mas não ao ponto de matar seu próprio filho que era o motivo pelo qual não queria ir para a Guerra.

 

 

         Mas em vez de confrontar a lenda de Édipo em relação à de Telêmaco, como fez Kohut, pode-se também estudá-la através de sua similitude com outras que são reunidas pelos estudiosos no chamado Mito da Investidura Real.  

 

 

IV – O Mito da Investidura Real

 

 

        Trata-se de narrativas onde um Rei (Rei-1) teme que um homem mais jovem ou por nascer tome o seu lugar conforme previsto por um oráculo.  Ele tenta se preservar do intruso ou do nascimento da criança, mas o futuro herói escapa dos propósitos assassinos deste Rei-1.

 

 

         Isto se dá não só com Édipo,  mas também com Perseu (cujo avô fôra advertido contra um futuro neto) e com Jasão (sobre quem um oráculo prevenira seu tio, usurpador do trono, contra um homem com uma só sandália calçada – que é exatamente como Perseu irá se apresentar). 

 

 

         Édipo será adotado por Pólibo e Mérope, reis de Corinto,  Perseu e sua mãe serão salvos por Dictis  e  Jasão educado pelo centauro Quíron.

 

 

         Neste mitologema, o comum é que um outro rei (Rei-2) ameace de morte o herói ao desafiá-lo para que cumpra uma tarefa impossível, geralmente a luta contra um monstro que o herói vence com a ajuda de um deus, de um sábio ou de uma futura noiva. 

 

 

          A Perseu é pedida a cabeça da Medusa,  a Jasão o Velocino de Ouro guardado pelo Dragão da Cólquida, a Belorofonte que destrua a Quimera que é uma daquelas figuras híbridas, composta de cabeça de leoa com tronco de cabra e é serpente da cintura para baixo. 

 

 

          A virginal deusa Atena orienta Perseu a usar seu escudo polido como um espelho para se proteger do olhar petrificante da Medusa, fazendo com que, se refletindo, ela mesma se transforme em pedra e ele possa decapitá-la.  Medéia auxilia seu futuro marido, Jasão, na conquista do Velo de Ouro.  Com o triunfo, o herói se casa com a filha de um terceiro rei:  Perseu com Andrômeda,   Belorofonte com Filonoe   e   Jasão com Medéia.

 

 

          A partir das semelhantes vitórias sobre um monstro-fêmea, vitórias que permitem aos heróis casar-se com uma noiva e tomar posse de um reino, há quem critique[18] a interpretação freudiana: o Mito da Investidura Real seria o do triunfo do herói sobre a grande mãe primitiva representada pelos monstros-fêmeas dos quais a mitologia grega está repleta:

 

 

Górgonas com cabelos de serpentes, como a Medusa;

 

– aves com cabeça de mulher: as harpias; 

 

Cila, com pernas feitas de cães devoradores; 

 

Équidna, serpente da cintura para baixo  e  mãe da Hidra de Lerna, do Dragão da Cólquida, da já descrita Quimera, e daquela que mais vai  interessar:

 

– a ESFINGE – ávida de sangue e de prazer sexual[19] com sua cabeça e seios de mulher, corpo de leoa  e  asas de ave de rapina. 

 

 

           Neste recorte, mais do que o parricídio (que expressaria a vingança da geração mais jovem[20] contra a anterior, na luta pela posse do trono) o monstricídio  realizado por Perseu, Jasão e Belorofonte é que importaria como equivalente ao  matricídio  de tais “mães-monstruosas”, geralmente residentes em cavernas ou grutas uterinas, prontas a engolfar os jovens.  Somente após tal rito de passagem  monstricida/matricida  é que eles podem se unir a uma jovem noiva e reinar.

 

 

         Paralelo e ao mesmo tempo divergente, no mito de Édipo, nosso herói sofre um desafio direto do Rei que quis matá-lo quando não passava de um bebê e mata neste Rei-2 (do desafio) o mesmo Rei-1 (do infanticídio). 

 

 

          Enfrenta a Esfinge sem que ninguém o tivesse desacatado para isso; não pede nem recebe nenhuma ajuda externa – divina ou feminina ou de sábio; não mobiliza força física viril e não entra em luta corporal sangrenta; vence a Esfinge pela palavra – pela decifração do enigma (“Enigma” em grego antigo era graphoi, palavra que também designa um tipo de rede de pescar)[21]

 

 

           Todos lembram que o enigma da Esfinge era a conhecida charada sobre o animal que para caminhar ao longo do dia – ou da vida –  precisa de quatro, dois ou três pés – e cuja resposta, mais específica do que “o homem” genérico, se refere ao próprio Édipo que, embora jovem, tinha os pés inchados segundo a etimologia de seu nome, estigma do modo como fôra exposto ao relento na infância;  pés que demandavam o auxílio de um cajado – um terceiro pé, com o qual já assassinara um viajante pouco antes. 

 

 

        Ao responder corretamente à charada da Esfinge, em vez de matá-la, no máximo propicia que a própria Esfinge, humilhada, se mate. E em vez de se unir à filha de um Rei,  Édipo se casa com a viúva de um Rei. 

 

 

            Sob esta ótica,  Édipo não passaria então, de um mito desviante onde o Rei-1 que quer matar o herói quando criança é o mesmo Rei-2 que o desafia na estrada e o mesmo Rei-3 que cede a noiva: sendo todos um só e o mesmo pai, Laio. 

 

 

            Ao não valorizarem que, psicologicamente, um dos motivos da excepcionalidade do mito edípico está nesta re-união dos três Reis, aspecto unificador das representações da imago paterna que os outros mitos citados não assumem ao fragmentarem a imago do Pai-Rei em três, há os que questionam que  Freud teria feito uma leitura falha por não atentar para os mitemas, elementos constitutivos do mitologema da investidura real.

 

 

          Nós, psicanalistas, entendemos no entanto, que a história de Édipo-Rei, diferentemente das outras, é a história de um fracasso[22] da elaboração do drama humano sugerido pelo mitologema, interpretado por Freud e rediscutido por muitos dos mais importantes psicanalistas que se lhe seguiram, como tentamos apresentar de forma muitíssimo resumida.

 

 

 

 

 

 

V – A História de Édipo é o relato de um fracasso:

 

 

– seja pela catástrofe que abre sua existência, enfatizada por Heinz Kohut: abandonado que foi pelos pais na solidão do deserto, para morrer, estigmatizado narcisicamente em seu self corporal pelos pés aguilhoados e assim deformados; 

 

 

-seja pela predominância do ódio (apontado por Melanie Klein) ao se defrontar com o outro viajante tão impetuoso e arrogante como ele na encruzilhada para Tebas;  

 

 

-seja pela inaceitação da Lei (destacada em Lacan): a lei de interdição do incesto e do parricídio (afinal, ele, que foi consultar o oráculo sobre sua filiação aos Reis de Corinto, a qual fôra colocada em dúvida, ao ouvir a maldição,  sentiu-se compelido a fugir de lá  para não matar Pólibo,  para não deitar-se com Mérope: tantas negativas fazem supor que o risco existiria em relação àqueles que tomou como sendo seus pais); 

 

 

-seja porque, após decifrar o enigma da Esfinge, em vez de sábio[23] tornou-se Rei, não por direito de consangüineidade, mas tirano – rei pelo poder do qual não queria abrir mão, garantindo pretensiosa e arrogantemente que livraria Tebas da peste tal como já fizera com a Esfinge, descobrindo a verdade a qualquer preço – como lembra Bion;

 

 

-seja até mesmo como querem críticos de Freud, porque Édipo não foi capaz de perpetrar o ato homicida que o livraria da mãe-devoradora-incestuosa-monstruosa representada pela Esfinge (imagem deslocada de uma mãe mais primitiva e arcaica)  e que, por isso mesmo vai atuar o incesto com Jocasta; 

 

 

-seja por todas estas abordagens em conjunto ou separadamente, a nossa conclusão é que o mito de Édipo  é   a  história  frustrada daquilo que para os outros heróis se constituiu em vitória sobre o matriarcado arcaico e que o personagem  falhou  no percurso do seu desenvolvimento e amadurecimnto psíquicos, seja qual for a escola psicanalítica utilizada.

 

 

 

VI- O Édipo na atualidade

 

 

        O Édipo contemporâneo talvez seja o homem, acima de tudo, pragmático[21], que evita Corinto para cair em Tebas; 

 

– analfabeto sobre seus afetos, tenta espanar a tristeza com remédios para depressão[21]; – foge da sensação de vazio interior através do consumismo22 ou/e das drogas; 

 

– tem a capacidade de introspecção banalizada pelo falso saber, não raro arrogante, do pseudoinsight [22]  

 

– e a criatividade, empobrecida pela racionalização de ideologias terapêuticas (e de pseudoterapias ideologizantes[23]);

 

– dissimula a ânsia pelo anelo, encobrindo-a sob uma pretensa autonomia que oculta o temor da dependência afetiva[22];

 

– apresenta o espírito lúdico, o senso de humor, a joie de vivre limitados porque equacionados ao fascínio com a celebridade – e pela celebridade[22],[23],

 

– enquanto a sabedoria e a aceitação da transitoriedade mostram-se amputadas por um intenso temor do envelhecimento e negação da morte[22],[23];

 

– neste quadro, a capacidade de empatia pela alteridade fica enormemente reduzida pelo egocentrismo solipsista…

 

 

          …nada mais pertinente de ser estudado e observado ao longo dos vários caminhos e encruzilhadas da Psicanálise, por mais que os Édipos de hoje – como o da lenda –, narcisicamente não consigam ver,  não consigam se identificar com sua própria imagem e perceber que sua subjetividade [21] estava incluída na resposta ao enigma sobre o caminhar do homem, marcado pela historicidade do andar sobre seus pés – nem sempre suficientes, mesmo que não tenham sido aguilhoados. Ainda mais se o foram, como os do infeliz Édipo, que só por isso pôde resolver o enigma (rede) ao dar a resposta “o homem” …para cair na rede de outro enigma cuja resposta era “sou eu”.

 

 

 Notas:


 

 

[1] Membro efetivo e analista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro.

 

[2] Condensação de trechos (em tradução livre) extraídos da apresentação feita pelo próprio compositor, incluída no livreto do vol.X   da coleção de CD’s  Igor Stravinsky Edition  lançada pela Sony Classical, 1991.

 

[3] As referências em itálicos nestes  parágrafos são extraídas do “KOBBÉ  – O Livro Completo da Ópera”,  tradução da décima edição inglesa de 1987, publicado pela  Jorge Zahar Ed., Rio de Janeiro, s/d, pp. 721-723.

 

[4] Ceccaty, R.de – “SUR PIER PAOLO PASOLINI” – Éditions du Scorff, 1998, Le Faouët, pp-58-62.

 

[5] Op.Cit.

 

[6] Françoise Dastur, sobre Hölderlin, conforme mencionado na obra citada anteriormente.

 

[7] Termo de polêmica tradução: em inglês, “The Uncanny”; no Brasil, “O Estranho” conforme a E.S.B., Vol.: XVII, Imago Ed., 1976, pp.271-318.

 

[8] Ver Meltzer,D.- “The Kleinian Development – Part III: The Clinical Significance of the Work of Bion“,  Clunie Press, Perthshire, 1978, pp.30-36.

 

[9] Adaptado de  Farjani, A.C. – “Édipo Claudicante: do Mito ao Complexo“,  Edicon, São Paulo, 1987, p.19.

 

[10] Parágrafo   adaptado   de  Milch, Robert J .     ‘KING OEDIPUS,   OEDIPUS AT COLONUS   &   ANTIGONE –  NOTES”,  Cliffs  Notes  Inc.,  Nebraska,  1999.

 

[11] Conforme mencionado  em  Farjani, op.cit.

 

[12] Farjani, op.cit,p.153.

 

[13] Bleichmar & Bleichmar – “A Psicanálise depois de Freud” Artes Médicas, Porto Alegre, 1992 pp.91-93.

 

[14] Roudinesco, E. & Plon, M. –”Dictionnaire de la Psychanalyse“, Fayard, 1997, p.746.

 

[15] Kohut, H. – “A Restauração do Self” (1977) – Tradução brasileira pela Imago Ed, 1988, Rio de Janeiro, pp.111,174-5,184,187.

 

[16] Oppenheimer, Agnès (1998) Collection Psychanalystes d’aujourd’hui Vol.18: “Heinz Kohut” – Presses Universitaires de France.

 

[17]   IJPA, 63: 395-407, 1982.

 

[18] Jean-Joseph Goux  em seu livro  Oedipus, Philosopher“,  tradução para o inglês  publicada pela Stanford University Press, California, 1993.  Deste material é que resumimos o mitologema descrito acima.

 

[19] Do grego Sphínks, do verbo sphínguein, envolver, apertar, comprimir, sufocar. (“Mitologia Grega, Vol. I” de Junito Brandão, Ed. Vozes, 3ª Ed.,Petrópolis, 1987, pp. 245-254).

 

[20] Farjani lembra que vingar significa tanto punir, tirar desforra como crescer, desenvolver-se,  op.cit., p.116.

 

[21] Goux,J-J, op.cit.

 

[22] Fernando Rocha, comunicação pessoal numa conversa enriquecedora , a quem agradeço.

 

[23] Constance Marcondes César lembra que Édipo só atinge a sabedoria em “Édipo em Colono”, cego e taumaturgo como Tirésias: Implicações Contemporâneas do Mito,  in: Morais, R. (org.)”As Razões do Mito”,  Ed.Papirus, Campinas, 1988.

 

[21] Ver a apaixonada e embasada defesa de Elisabeth Roudinesco em  “POR QUE A PSICANÁLISE ?”, Jorge Zahar Ed., Rio de Janeiro, 2000, pp. 9, 13-14, 23-25, 30-31, 42, 58, 69-70, 79, 103 e 128-149 (capítulos 2 e 3 da Terceira Parte: “O Homem Trágico” e “O Universal, a Diferença, a Exclusão”).

 

[22 ]  Christopher Lasch: “A CULTURA DO NARCISISMO”, Imago  Ed., 1983 .

 

[23]  Gallego Soares, L.F. – ‘CULTO AO CORPO NA CULTURA DO NARCISISMO” apresentado na Fundação Getúlio Vargas, mesa-redonda ‘Estética na Saúde’, parte do Seminário ‘Saúde e Previdência Social: Desafios Para o Próximo Milênio’, 03/09/1999, a ser publicado em livro pela FGV.

 

 

 

Por: Luiz Fernando G. Gallego Soares      luizgallego@gmail.com

 

 

 

 

 


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Notícia publicada em: Monday, July 27 @ 20:52:03 BRT
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