Projeto Pessoal – Um idoso nonagenário

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<<Hourglass, foto por: Michael A. Cruz>>

      Aeternus hoje homenageia um antigo colaborador, Hermenegildo Bastos de Campos. Destacamos seus últimos textos, escritos pouco antes do seu falecimento: “As Idades do Ser Humano – 8 de abril de 2008” e “Meus 95 Anos de Idade – 2 de maio de 2008”.

       Como escreve sua filha, Hevane Campos: ““Vivendo e aprendendo”, já diz tudo. Foram anos de convivência com este saudoso pai e, a cada acontecimento, seja de alegria ou tristeza, vejo uma nova mensagem com a expressão de força de vida e a sua sabedoria do bem viver!”


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– Projeto Pessoal:   Um  Idoso Nonagenário  

– Tema:   AS  IDADES   DO  SER  HUMANO  

– Texto:   A  PESSOA  NONAGENÁRIA                                                                                                                     

 Cód.  2P / 02.        

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“A idade áurea do ser humano não se encontra atrás de nós,

mas à nossa frente, e consiste na perfeição da ordem social”.

(Saint-Simont, (1760-1825), Reorganização da Sociedade).

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“ Cada idade tem seus humores, seus gostos e seus prazeres,

como a nossa pele, embranquece os nossos desejos.”

( Mathurin Régnier, (1573-1613), Sátira V).

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               Na vida de cada pessoa sucedem-se fases distintas – as idades – que nos surpreendem, com singulares ganhos e perdas, tecendo a trama individual de eventos representativos da caminhada, pelo Tempo,  até o  nosso destino final.   É o ciclo vital, individual  e inexorável que fundamenta os aspectos bio-psico-sociais do indvíduo da espécie homo sapiens sapiens, configurando características que lhes são peculiares e  que o distinguem  dos  demais indivíduos  do reino animal.

            A última fase biológica da vida humana, a da natural e longeva velhice, conduz a pessoa a um estado que, embora natural, apresenta aspectos circunstanciais um tanto  diferentes dos que ocorrem em  outras  idades.   Esses aspectos peculiares constituem o objeto do  que desejo  abordar, neste e em outros textos do trabalho e dentro de minhas possibilidades.

            Estar simplesmente nonagenário é fácil. Postar-se passivamente e deixar que o Tempo siga o seu rítmo sereno e  indiferente ao que ocorra conosco, deixando que o calendário vença os dias e anos para atingir a década dos 90, é cômodo e de uma tranqüilidade egoísta não recomendável.

            Ser nonagenário exige bem mais da pessoa. Não só em consentânea  atividade como em comportamento mais participativo. Os acontecimentos comuns e imprevisíveis da vida podem continuar ocorrendo e a pessoa deverá ter  disposição, a despeito de dificuldades ocasionais, para enfrentá-los, pois na maioria das ocasiões, além dos seus esforços poderá  contar com a ajuda de alguém. Transpor momentos problemáticos e as agressões à sua atual condição de vida continuarão a ser desafios.

             Ultrapassar o marco dos 90, com a consciência de que se empenhou em cumprir as naturais obrigações pessoais,  para consigo e para com os seus, é um acontecimento mais do que significativo, e bem gratificante, pelo qual deve agradecer a Deus pela graça concedida.  Aos seus, deve também creditar a assistência que  teve  e está tendo. A si mesmo, inclusive, pelo esforço dispendido e deficuldades vencidas no longo percurso.  Continuar cumprindo  a missão importante de acompanhamento do desenvolvimento familiar será opção  ou necessidade particular,  conforme as condições de cada caso.

            Na modernidade, em que o planejamento sistêmico comanda as ações previstas para obtenção de objetivos há a necessidade de se adequar para o  seu preparo. Tem que haver  acompanhamento ativo e participativo da vida em curso e aos permanentes cuidados para não se expor, desnecessariamente, a fatores negativos e incompatíveis com as condições da pessoa nonagenária. Condição prioritária e imprescindível é adaptar-se ao  novo estado de vida, mais dependente da ajuda eventual de outrens. Tal não é raro e pode tornar-se um encargo, seja familiar ou não, requerendo  compreensão, paciência e bastante espírito de acomodação para ambas as partes. Vaidades e gestos de preponderância  têm de ser amenizados ou eliminados para que o relacionamento seja natural,  tranqüilo e  harmonioso.

            No decurso do Tempo, ao passar das gerações e no surgimento das comunidades mais populosas foram aparecendo necessidades que se tornaram indispensáveis para o estabelecimento de  normas e posturas no trato com  pessoas integrantes de diferentes segmentos etários. Segmentos esses, da sociedade comunitária, que merecem  atenções especiais, como os das crianças,   dos jovens, de determinados estados da fase adulta e o da velhice ou senescência. .Como em outras, nesta última fase, dado o seu crescimento, já existem políticas governamentais e numerosa legislação que serão objeto de texto apropriado..

            Nos estudos da velhice existem outros aspectos e considerações que levaram à assimilação do termo idoso. Jurídicamente passou-se a definir os maiores de 60 anos, independente da  década de anos de idade em que se achem situados, como idosos e não, propriamente, como velhos.  Deu-se-lhes, assim, como diríamos, um toque de carinho.  São os idosos sexagenários, septuagenários, octogenários, nonagenários e os  centenários, para aqueles que já tenham ou passem a ter  mais de 100 anos de idade.

            Em texto anterior, sucintamente, tratamos da evolução das fases da vida, sob o ângulo biológico, em seus sucessivos segmentos, desde a fecundação, estágio intra-uterino,  as fases da infância, juventude, idade adulta e a da velhice, atualmente denominada, em sentido genérico,  a da  terceira idade.

            Na fase do idoso ainda podemos fazer menção à quarta idade, cujos estudos já se vislumbram  admitindo-se-lhe a presença de  algumas condições diferentes      para as pessoas acima dos 80 anos, que passariam a integrar este grupo. No geral, é fácil notar-se a diferença do estado físico e, até mesmo orgânico, entre pessoas  sexagenárias  e octogenárias. Além das conseqüências dos tropeções da vida, há as da própria  individualidade e as peculiares a esta faixa de idosos. Tema que ainda gera alguma polêmica e há muito de negativismo, quando se considera apenas a maior dependência desses  idosos, sem se levar em conta outros aspectos dignos de maior atenção.

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Por: H.B.Campos, Brasília,08/04/20008

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– Projeto Pessoal:   Um  Idoso Nonagenário  

– Tema:   MEUS 95 ANOS DE IDADE  

– Texto:   UM TEMPO DE VIDA E HORA DE MUDAR  [1]  

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“Zele por este momento. Megulhe em suas particularidades.

Seja sensível a quem Você é, ao seu desafio, à sua realidade.

Pare de criar problemas desnecessários para si mesmo.

Este é o tempo de realmente viver, de se entregar por completo

à situação em que Você está agora”.

Epicteto (55/135 d.C.)

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                 Ao longo do Tempo, acontecimentos de nossa existência compõem a própria série de datas inesquecíveis. Cada marco tem sua importância e repercute um período ou fato significativo em ocasião que nossa sensibilidade está aguçada. Assim aconteceu a 02 de maio de 2008, dia de meu aniversário e data que identifica os 95 anos de minha longeva vida. O organismo, dando sinais da nova fase em instalação, advertia-me que ela irá permanecer. Período da vida que se caracteriza por particulares mudanças de conceitos e comportamentos e preconiza um conviver mais adequado às particularidades então presentes. Epicteto, como se expressou acima, nos primórdios da era cristã, já identificava momentos peculiares à natureza de sentimentos que permanecem como características do ser humano.

                A velhice ou senescência, natural e derradeira idade do homem, vem acompanhada de circunstâncias bem diferentes daquelas próprias das fases que lhe antecederam. A senescência ou senectude indica o natural estado de involução do nosso corpo envelhecido. A mente, por sua vez, particulariza aspectos sentimentais de comportamento e de reflexões. Esse estado de involução, natural nos mostra que existe certa semelhança de mudanças como na adolescência ou juventude. Além da peculiar sonoridade da voz evidencia o sentido oposto do seu significado: a senescência ou senectude biologicamente é um processo involutivo; na juventude ou adolescência é caracteristicamente evolutivo. Parece-nos que a Natureza nos quis ensinar que a vida gira na direção de seu início, aproximando ou mesclando as idades da criança e da pessoa centenária.

                 Ser nonagenário, palmilhando a metade da longa caminhada para a especial categoria dos centenários, exige mais da pessoa e dos seus anjos da guarda e, é claro, resulta da soberana bondade de Deus. Transpor momentos problemáticos, vencendo as dificuldades desta condição de vida, continuará a ser desafio cotidiano. Os acontecimentos continuarão a ocorrer e, para enfrentá-los, é imprescindível demonstrar ânimo forte.

                 Cada idade tem o seu perfil, com os próprios humores, costumes e prazeres. Camlnha pelo tempo, também como os nossos pêlos e a pele. De escuros aqueles e viçosa essa, perdendo o brilho da juventude e o poder da idade adulta, vão embranquecendo e enrugando em direção à diminuição de nossas aspirações e atividades maiores. É o ciclo vital e individual que fundamenta o conjunto bio-psico-social da pessoa. E desse conjunto não pude me livrar, como a ninguém é dado escapar.

                 Ao completar 95 anos de idade, como convicto nonagenário, veio à minha consciência reflexão “de que não era mais aquele e que muita água já havia corrido por baixo da ponte que me sustenta”. Já é hora de procurar uma cadeira e ir pescar, com sol suave e nutritiva merenda. Está adequado? Só Deus pode julgar o mérito desta grande dádiva.

                  Ultrapassar significativo marco, com saúde compatível, tendo a tranqüilidade de que me empenhei em cumprir minha razão de ser. Penso que pude satisfazer as naturais obrigações para com os meus, para comigo mesmo e para as comunidades onde fui levado a conviver. Tal compromisso não deixa de ser um longo e complexo acontecimento, porém, aquém do que o meu íntimo sempre tenha aspirado. Principalmente em relação aos descendentes e demais familiares. Não adianta lamentar. Nem sempre se pode realizar o que se deseja. A loteria só premia alguns poucos.

                   Sou grato a Deus e àqueles que me ajudaram e me proporcionaram realizações no meu tempo útil e de atividade produtiva. Nada de riquezas materiais, mas de incentivos maiores no campo profissional e espiritual. Pormenores independentes das opções de cada qual. Sempre fui efetivo e orgulhoso participante da chamada classe média, compartilhando suas vitais necessidades, virtudes e dificuldades. Firmar conduta de vida digna, como chefe de família, cidadão e profissional praticante sempre foi o meu propósito, trazido do melhor exemplo de herança que meus pais me deixaram. Devo-lhes o precioso tesouro que é a boa formação pessoal e espiritual e o satisfatório preparo para a luta de nossos dias. A meus pais devo a boa formação espiritual e o preparo para enfrentar a vida.

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  Por: H. B. Campos,  Brasília, 02 de maio de 2008

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Notas:


  [1] Texto especial de comemoração do meu 95° aniversário, de sentido coloquial, em que os sentimentos e as reflexões do idoso nonagenário vieram à tona trazendo do seu íntimo gratas recordações de períodos marcantes vividos até agora.    

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Hermenegildo Bastos de Campos

Notícia publicada em: Sunday, May 03 @ 01:04:18 BRT

Tópico: Literatura

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