A história e o sentido do Sêder de Pêssah

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 <<Sahara desert at night, Imagem encontrada em: Pixshark>>

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Por que estamos aqui reunidos esta noite?
E o que tem esta noite de tão especial?

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selo

Davy Bogomoletz

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A história e o sentido do Sêder de Pêssah*
5769 – 2009

* – A letra h deve ser pronunciada como a letra j em castelhano.

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        Quando a Hagadáh de Pêssah foi escrita (ao longo de um longo tempo), os que a escreveram eram escravos. Mas não eram mais escravos do Faraó no Egito – isso já tinha acontecido mais de mil anos antes. Eram escravos de um rei muito pior, de um país muito mais poderoso e cruel: o Império Romano.  E na época em que era escrita a Hagadáh, o próprio Egito também era escravo do Império Romano. Então perguntamos: Por que passar o Sêder falando do Faraó e do Egito, se o inimigo na época era o Imperador de Roma?

         Ora, porque se a Hagadáh falasse de Roma, todos os que a escreveram e todos os que a lessem na noite do Sêder seriam assassinados! Quando Roma conquistava um país, se as pessoas não estivessem gostando era melhor que ficassem caladas, ou então morreriam. Muitos mestres judeus morreram nessa época, porque ousaram falar e agir contra a tirania romana. Como morreu, naquela mesma época, e pelo mesmo motivo, um judeu que amava muito o seu povo – e queria libertá-lo, não só do jugo romano, mas de toda e qualquer escravidão: Jesus de Nazaré.

        Dizem que foi numa noite de Sêder igual a esta que os romanos vieram buscar Jesus para matá-lo, pois no seu Sêder Jesus certamente não estava falando só do Egito, mas também de Roma, e os romanos sabiam disso muito bem.

         Os romanos, assim, mataram Jesus, mas não mataram suas idéias. E suas idéias eram judaicas.

         Os seguidores de Jesus levaram essas idéias com eles, modificaram-nas e as espalharam entre os muitos povos do Império Romano. Naquela época muitos eram os escravos no Império Romano – escravos mesmo, sem direito algum, que os donos compravam e vendiam como se fossem animais.

        Os escravos de Roma gostaram muito das idéias de Jesus, que falavam de um Deus para o qual todos os seres humanos tinham o mesmo valor, para o qual todos eram dignos de respeito e merecedores de plena dignidade humana, e para o qual não havia diferença alguma entre as pessoas, a não ser entre os bons e os maus, entre os justos e os injustos.

         Brancos ou pretos, ricos ou pobres, senhores ou escravos, cultos ou ignorantes, aos olhos desse novo Deus, que até então só os judeus conheciam, todos eram humanos – e mereciam o mesmo respeito. Os escravos de Roma converteram-se, então, em grande número a essa nova religião, e seu número cresceu, e cresceu, e cresceu, até que a população de Roma e o próprio Imperador converteram-se a ela.

         Não era mais possível, assim, continuar dizendo que os romanos haviam matado Jesus. E então a culpa toda pela morte de Jesus foi lançada sobre os judeus. Um grande ódio cresceu entre os cristãos e os judeus, um ódio que durou até os nossos dias, e pelo qual nosso povo sofreu terrivelmente nos últimos dois mil anos.

           Mas há cinqüenta anos atrás o Papa João XXIII finalmente permitiu que a justiça voltasse a reinar, e declarou os judeus completamente inocentes de todas as acusações que há tantos séculos pesavam sobre eles. Começou então um novo tempo, em termos religiosos. Hoje podemos dizer que o Pêssah comemora também esta outra libertação, a libertação das acusações que pesavam como chumbo muitas vezes sobre nosso corpo, e sempre sobre nossa alma. O motivo para o ódio entre cristãos e judeus acabou!

       E em nossa época o Sêder comemora também a existência desse novo país, Israel, onde os judeus são inteiramente livres de qualquer domínio estrangeiro.

           São livres para viverem da forma como quiserem, livres até para fazerem as besteiras que quiserem. São livres também para protestar uns contra as besteiras dos outros, e brigarem entre si, como fazem no mundo inteiro todos os povos livres. Até que perdem a liberdade.

          Por tudo isso, devemos pensar bastante hoje quando comemoramos o Sêder de Pêssah.

Pois não há mais a escravidão no Egito amém!
E não há mais o exílio na babilônia amém!
E não há mais a tirania helenística amém!
E não há mais a submissão a roma amém!
E não há mais expulsões medievais
de um lugar para outro amém!
E não há mais os terrores e as fogueiras
da inquisição amém!
E não há mais guetos judaicos amém!
E não há mais a estrela amarela no peito amém!
Nem chapéus pontudos ou roupas infamantes amém!
E não há mais pogroms e massacres selvagens
contra nós amém!
E não há mais o anti-semitismo nazista
dominando países e ameaçando conquistar
o mundo inteiro amém!
E não há mais campos de concentração para judeus amém!
E não há mais câmaras de gás amém!
E também não há mais as restrições, proibições,
prisões, humilhações e injustiças
dos países comunistas amém!

              Estava escrito até uns dez anos atrás: e não há mais sete países árabes e setecentos milhões de muçulmanos pensando o tempo todo em destruir o nosso único país e não somos mais perseguidos pelos povos entre os quais vivemos por nossa livre escolha, como fazem pessoas de todos esses povos, que vivem em meio a todos os outros povos

              Mas hoje é preciso dizer: e infelizmente, muitos países árabes que pensavam o tempo todo em nos aniquilar continuam a pensar do mesmo modo, e surgiu até mesmo um novo Hitler, desta vez iraniano, muito, mas muito ávido por ver o nosso sangue jorrar como jorra o petróleo na terra dele.

          E voltamos a ser perseguidos, humilhados, atacados em muitos países onde isto já não mais acontecia. Não são mais ameaças como antigamente, mas existem, e devemos nos preocupar com elas, e cada vez mais, porque elas, as ameaças, também têm surgido cada vez mais. E infelizmente os povos onde nos perseguem não sabem que aqueles que nos perseguem perseguirão a eles também, assim que se sentirem fortes o bastante. Porque se soubessem, não permitiriam que tais coisas acontecessem.

           Ainda assim, podemos dizer que hoje, apesar de tudo,
somos um povo livre amém, amém, amém!

           Mas agora surgem novas perguntas, que valem tanto para nós, o povo, quanto para nós, pessoas:
Somos livres para que ?

           O que fazer com essa liberdade que tanto demorou a chegar ? 

Acaso somos livres para exercer a crueldade ?
Somos livres para odiar ?
Somos livres para assassinar ? 
Somos livres para oprimir ? 
Somos livres para explorar ? 
Somos livres para discriminar ?
Somos livres para roubar a liberdade alheia ?
Somos livres para fazer a outros o que odiamos que façam conosco?

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          E a resposta é não, não –
          E mais uma vez, não!

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           É por isso que hoje comemoramos o Pêssah com nossa imortal esperança.

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Já fomos escravos de Faraós, de Imperadores, de Papas, de Reis, do Führer (que, graças a Deus, só houve um), de ditadores, de sultões, de Secretários Gerais comunistas,
já fomos escravos de egípcios, assírios, babilônios, gregos, romanos,
já fomos escravos de povos pagãos, cristãos e muçulmanos,
já fomos escravos na Ásia, Europa, África e na América –
quando neste continente funcionou a Inquisição.

            Hoje somos livres de toda opressão externa, e não há mais inimigos exercendo seu poder sobre nós – por mais que continuem tentando.

             Somos um povo livre – como tantos o são hoje em dia.

              No entanto, ainda somos escravos!

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Somos escravos do ódio que está em nós.
Somos escravos da maldade que há em nós.
Somos escravos da cobiça que há em nós.
Somos escravos da inveja que há em nós.
E somos escravos do desejo de termos escravos,

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               E também somos escravos do ressentimento que há em nós contra antigos inimigos. Somos judeus, e não cristãos, e por isso não somos obrigados a amar os nossos inimigos. Mas não podemos cometer o mesmo erro que os nossos inimigos antigos sempre cometeram, e odiar os seus descendentes como se seus descendentes também fossem, necessariamente, nossos inimigos.

           Então, somos livres de inimigos externos,
           Mas ainda somos escravos de alguns inimigos internos.

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Pois enquanto não soubermos perdoar, seremos escravos.
Enquanto não conseguirmos desculpar, seremos escravos.
Enquanto não pudermos libertar, seremos escravos.
Enquanto não deixarmos de odiar, seremos escravos.
E se deixarmos por um único dia de nos defender, seremos escravos, ou nem mesmo isso.
E enquanto esse nosso pequeno inimigo,
nossos primos palestinos, não nos deixarem livres,
e não forem livres também,
ainda seremos
escravos.

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              Mas nunca devemos confundir perdoar com esquecer.
               Porque nossa liberdade só será verdadeira

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Se jamais esquecermos.
Se jamais esquecermos o egito escravagista
e jamais esquecermos a assíria genocida
e jamais esquecermos a babilônia que exilou o nosso povo
e jamais esquecermos os helenistas que quase exilaram a nossa alma
e jamais esquecermos roma, que nos dispersou pelo mundo e arrasou a nossa terra,
e jamais esquecermos os senhores feudais que nos espezinharam
e os sultões que nos humilharam e nos oprimiram
e a inquisição, com suas fogueiras e suas delações
e os guetos, onde vivíamos como em currais
e os pogroms, a selvageria das multidões assassinas
e as calúnias de sangue, fazendo do Pêssah um terror
e as conversões forçadas para todas as religiões
e os anti-semitas e racistas de todos os tipos
e jamais, jamais, jamais esquecermos
os nazistas e todos os seus bárbaros crimes.
Porque todos eles foram inimigos
não só do nosso povo, mas de toda a humanidade.

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              Não podemos esquecer todos aqueles que nos dominaram, exilaram, roubaram, assassinaram, torturaram, expulsaram, aprisionaram, humilharam, perseguiram, queimaram, asfixiaram, discriminaram, degradaram e escravizaram de dez mil e uma formas diferentes.

              E não podemos esquecer que nós próprios fomos escravos,

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Porque se esquecermos, não mais seremos nós mesmos,
não teremos mais memória.
E não teremos mais história,
por isso não teremos mais identidade,
e o nosso povo morrerá.

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           Mas nosso povo está vivo:

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            Vivo para recordar, e recordando para continuar vivo.

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             No entanto, enquanto nosso povo estiver vivo,

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ainda assim jamais seremos livres
até que desapareça todo racismo,
até que desapareça todo o ódio entre os povos,
até que desapareça toda a exploração,
até que desapareça toda a miséria,
até que desapareça toda a fome,
até que desapareça toda a injustiça,
até que desapareça toda a opressão, inclusive a que nós cometemos.

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          Porque pessoas famintas, humilhadas, injustiçadas, discriminadas, oprimidas, dominadas,
são escravas;
          E enquanto houver um único escravo sobre a face da terra;
          Ninguém, ninguém será verdadeiramente livre.

 

          Por isso relembramos nossa própria escravidão – para sabermos odiá-la, e para odiarmos voltar a ela, e para nunca nos esquecermos de como é amargo o seu gosto, e para sabermos que o escravo é um irmão, e sabermos que quando há escravos, não há homens livres.

           Por isso conservamos a Hagadáh de Pêssah que fala do Faraó e do Egito, pois não há diferença alguma entre os escravos que fomos há mais de três mil anos, os escravos que fomos ao longo desses três mil anos, e os escravos que existem hoje, em qualquer lugar do mundo, mesmo que sejam de outro povo.

           Lemos hoje a antiga Hagadáh para sabermos da dor que eles sentem ao relembrarmos a dor que nós sentimos.

           E para sabermos a alegria que eles sentirão quando forem livres, relembrando a nossa alegria por havermos alcançado a liberdade.

           Por isso dizemos hoje, e devemos ensiná-lo às nossas crianças, e também o dizemos aos amigos que não são do nosso povo – (amigos entre os quais vivemos, e que vivem conosco no mesmo mundo – pois povos existem muitos, mas mundo há um só, e é de todos nós):

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            Maldita seja a escravidão, seja de quem for, exista onde existir, e tenha a forma que tiver, em todos os tempos e em todos os lugares, para todo o sempre, amém!

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Hag Samêah!

E agora podemos ler a Hagadáh.

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Por: Davy Bogomoletz

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A HISTÓRIA E O SENTIDO DO SÊDER DE PÊSSAH
Notícia publicada em: Sunday, April 12 @ 12:43:49 BRT
Tópico: Literatura

Esta notícia é proveniente do Portal Aeternus
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