A Fortaleza da Solidão na nova Casa de Matacavalos

A Fortaleza da Solidão na nova Casa de Matacavalos: Simulacro e ‘Falso Self’ em “Dom Casmurro”

 

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<<Capas dos livros: “Dom Casmurro, de Machado de Assis”, imagem encontrada no site: Webdebee & livro: “Reparação, de Ian McEwan”, imagem encontrada no site: Pirate Bones>>

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01selo

Luiz Fernando Gallego,

Encontro Machado de Assis: e a Psicanálise no Século XXI.

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“A verossimilhança é, muita vez, toda a verdade.”
Bento Santiago

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“Uma pessoa é, acima de tudo, uma coisa material, fácil de danificar, difícil de consertar”
Briony Tallis
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          1. Briony e Bento Santiago

          Começo mencionando a reviravolta no finalzinho do romance “Reparação”, de Ian McEwan, tal como no filme “Desejo e Reparação”, extraído do livro:
         “Subitamente, o leitor descobre que quem teria escrito o texto era uma das personagens, Briony.” O lugar do autor McEwan e seu papel tradicional de “narrador onisciente” é desapropriado pela personagem de modo algo pirandelliano. E ela nos diz que o final relativamente feliz que acabamos de ler foi uma invenção sua, uma “reparação” da realidade diegética.
            Uma agora idosa ‘Briony Talis’, através de catarse e ‘exorcismo’ literários, tenta expiar o que ela mesma diz ter sido “um crime”, recriando, já na velhice, uma ficção que narrava acontecimentos de sua adolescência, mas com o pseudo-desfecho menos infeliz – ainda que provisório – bem diferente do que teria “de fato” acontecido na realidade diegética… por fim desvendada no epílogo.
             Briony interessa como exemplo radical e assumido do que se chama de “narradora inconfiável” – e que ainda desfaz nas últimas páginas o falseamento intencional anterior.Tais falseamentos são chamados de “traição da memória” quando há ficcionalização da História com H maiúsculo – ou mesmo de uma história (com minúsculo), como neste caso.A personagem confessa ao leitor que procedeu a mais um falseamento: já teria havido um falseamento original, o seu antigo “crime”; que foi ter afirmado, no passado, algo sobre o que não podia ter certeza e que prejudicou gravemente a vida de outros personagens.
              Ela mentiria de novo quando escreveu um falso final, menos infeliz, para as pessoas com quem conviveu no passado e que transformou em personagens de seu romance. Este desvelamento surpreendente sobre a narrativa anterior ter sido falseada por uma personagem que seria tanto participante do drama como narradora é um verdadeiro “coup de théâtre”. Mas o novo e derradeiro final cai como uma “virada” feita por um ‘deus’ ex machina às avessas, já que desfaz a resolução anterior – digamos – mais feliz.

               O leitor experimenta esta reviravolta como tendo sido feita, não por McEwan, mas por ‘Briony’, que se apresenta como uma anciã prestes a perder a memória por doença cérebro-vascular: o desfecho falso era uma tentativa de “reparação”; a correção pela verdade dos fatos se transforma em “expiação’, termo que traduz mais adequadamente a conotação do título original em inglês.
                Ao revelar o final “real” ela talvez esteja cometendo mais uma traição, agora ao próprio leitor que – durante algumas páginas – acreditou na evolução menos trágica para os eventos provocados no passado a partir da mentira inicial da então jovem Briony.
                O que McEwan problematiza, através de hábil enredo novelesco e tais reviravoltas, é a própria condição do romance, gênero de ficção que se inaugura com as fantasias quixotescas. Com o tempo, especialmente na modernidade e, mais ainda, na pós-modernidade, os romancistas passaram a questionar o papel mesmo deste formato, suas histórias e o modo de narrá-las, passando a desconstruir as convenções clássicas, românticas e realistas. Abandonaram o narrador confiável onisciente e o narrador na primeira pessoa que sugeria um depoente fidedigno dos fatos narrados por se apresentar como testemunha dos mesmos. Estes narradores tinham o papel de emprestar verossimilhança à ficção.
                 Pouco a pouco foram surgindo os personagens-eles-mesmos-narradores – mas não-confiáveis, ainda que nem sempre com tal característica explícita Esta técnica permite um jogo de ambigüidades capaz de enriquecer múltiplas leituras, possíveis e plausíveis em relação aos episódios apresentados – e talvez, mais ainda, em relação ao que teria sido omitido: o dito e o não-dito. Afinal, “nem tudo é claro na vida ou nos livros”, diz Bento Santiago, o narrador de “Dom Casmurro” no capítulo LXXVII.
                   Já é bem conhecido o enquadramento deste personagem-narrador, também denominado de ‘Bentinho’ e, claro, de ‘Dom Casmurro’ (e cabe a dúvida: com que nome ele se identifica para si próprio?) na categoria “inconfiável”: tudo o que sabemos – do enredo apresentado e sobre os demais personagens – é conhecido apenas pelo que ele diz e afirma. Ou duvida – mas afirma – como faz a já mencionada Briony.
McEwan explicita o jogo de ilusão e falseamento inerentes à ficção – tal como nossos relatos cotidianos são passíveis de estarem contaminados por deformações induzidas por nossos desejos.Sem alarde e sutilmente Machado fez o mesmo jogo – que é óbvio em “Reparação” – em obras como “Memórias Póstumas” (atribuídas a um ‘defunto-escritor’), “Esaú e Jacó” (uma narrativa na terceira pessoa atribuída ao “memorial” de um personagem-testemunha) e em “Dom Casmurro”.

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          2.Realidade na ficção:

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           Mas por que discutir o que seria “realidade” e o que é falseamento em um romance, considerando que tudo o que se passa na ficção é… ficção? Por que pensar o simulacro na arte se arte é simulacro? Talvez porque romances são construídos em palco semelhante àquele em que encenamos nossos sonhos, devaneios, e mesmo as narrativas feitas no divã para os psicanalistas – ou para nós mesmos, imersos em auto-enganos nos quais acreditamos como verdades absolutas, resistentes à confrontação eventualmente trazida por outrem, já que nossa concepção e registro dos fatos é sempre instruída pelo desejo que recria a realidade percebida como representação mental subjetivada. O jogo mais divertido de decifração no terreno da narrativa ficcional pode se dar a partir do olhar de um leitor desconfiado, menos ingênuo e pouco disponível a “acreditar” em tudo o que lê. 

              Esta desconfiança ainda se passa dentro da atitude de “suspensão da descrença” imprescindível para a fruição da obra de ficção, ou seja, algo da ordem do que se passa em um espaço transicional análogo ao descrito por Winnicott, espaço que se cria nos jogos de fantasias compartilhadas entre o artista e seu público. O cineasta Alain Resnais já disse que seu filme “Ano Passado em Marienbad” não se passava na tela, mas entre a tela e o olhar do espectador.
                 Um olhar que lance suspeitas sobre o que afirma o advogado Bento Santiago é o que permite enquadrar o relato como um possível caso de ciúme doentio que leva o personagem-narrador a acusar sua esposa e seu maior amigo de adultério. Sem que necessariamente o adultério tenha se concretizado. Ou mesmo que, Machado, ao criar um personagem que escreve sobre sua vida passada, é o demiurgo daquele pequeno mundo prosaico do Rio de Janeiro no Brasil–Império. E oferece pistas e elipses que trazem ambigüidade à narrativa, como ‘voltas no parafuso’, de modo a não se poder afirmar o que teria acontecido ou deixado de acontecer entre ‘Capitu’ e ‘Escobar’ – tema inesgotável para leitores fascinados com a diabólica habilidade machadiana.
                   A realidade diegética que Machado criou vai incluir uma característica que surge em Bento Santiago quando ainda está se apresentando nas primeiras páginas de “Dom Casmurro”. O capítulo II é chamado “Do Livro”, mas o que mais impressiona neste segmento é a abertura na qual é descrita a casa onde Bento reside no tempo presente em que escreve – no finalzinho do século XIX.
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               3. A casa reconstruída
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             A casa mimetiza outra, a de sua infância na Rua de Matacavalos, reconstruída caprichosamente em um subúrbio distante do Centro do Rio, no Engenho Novo. Janelas, varandas, alcovas, salas, pinturas, decoração, chácara, jardim, poço, etc., tudo é “análogo e parecido”, diz ele. Cento e quarenta e dois capítulos depois, já próximo ao final do romance, Santiago retoma a descrição das duas casas análogas, questionando o porquê de construir uma cópia.
                 Diz que a original havia passado a lhe parecer “estranha e adversa”. Talvez se possa pensar em uma vivência de estranhamento do familiar que ele optou por demolir. Ora, se a original antiga se lhe afigurou “estranha”, a nova, que é cópia da outra, a “reproduz” mimeticamente – mas com ressalvas: “apenas lembra aquela e mais por efeito de comparação e de reflexão que de sentimento”.
                 Ou seja: é – e não é – a mesma. Ou melhor: é – mas não é – a mesma.
              A categoria em que se inscreve o que o personagem produziu (ou reproduziu) é, portanto, a do “simulacro”.

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           4. Simulacros

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           O que se entende por simulacro extrapola as definições dos dicionários, a saber: representação de pessoa ou divindade, efígie; representação, imitação; falsificação; disfarce, fingimento; falso aspecto, aparência enganosa; cópia mal-feita, grosseira, arremedo; semelhança, parecença; espectro, sombra, fantasma. Seu antônimo: “realidade”.

            Não deixa de ser curioso observar que “semelhança” e “parecença” não têm a mesma conotação negativa de “falsificação” ou “arremedo”, por exemplo.
             O uso (antigo) do termo como “efígie” pode remeter à prática da “morte in effigie”, quando o réu condenado à morte à revelia, ausente, era “executado” através de uma representação sua. Há uma impressionante descrição desta prática no romance de Autran Dourado, “Os Sinos da Agonia”, no qual um personagem vê a sua própria “execução” do alto dos morros de Vila Rica, no século XVIII; e daí em diante, passa a ser considerado legalmente morto: se alguém o matasse não cometeria crime, pois já tinha lavrada sua certidão de óbito e estava morto do ponto de vista legal, tendo seus bens arrestados, sua esposa, considerada viúva, etc.
                No livro (e no filme) “Fantasmas de Goya”, de Jean-Claude Carrière e Milos Forman, há uma tela com o retrato de um padre que é queimada pela Inquisição como forma de “matar” o religioso que caíra em desgraça, mas se encontrava foragido em local desconhecido quando de sua condenação e “execução”. Já no século XX, pensadores como Baudrillard, Umberto Eco, Delleuze e Barthes trabalharam sobre a questão do simulacro que constitui uma realidade em si mesma, uma realidade diferente daquela que simula; e que não necessariamente será referido a seu avesso (ou antônimo), a realidade propriamente dita. É bem conhecido o exemplo de Eco a partir da ‘Fortaleza da Solidão’ do ‘Super-Homem’, onde o personagem se refugia quando sente necessidade de se isolar, mas não quer deixar de estar em vários lugares ao mesmo tempo: a ubiqüidade, a não-escolha, o não querer “abrir mão”, a falta de tolerância à frustração, a inaceitação de ter que deixar uma possibilidade de lado em favor de um exercício da vontade maior do que o desejo onívoro. Eco problematiza a falta de inserção do suceder histórico, tendo desenvolvido tais idéias a partir do conceito de “simulacro da História”, História que passou a ser facilmente reproduzida, recriada e destinada ao consumo. Ele está comentando a obsessão ilusória pelo realismo, dizendo que neste processo, “para que uma reevocação seja crível, deve ser cópia absolutamente semelhante, ilusoriamente verdadeira, uma realidade representada”. Surge então, “a necessidade de produzir cópias e mostrar que estas são melhores que o autêntico, desenvolvendo algo capaz de suprir a falta e – ao mesmo tempo – permitir não sentir saudades do original”. Isto nos lembra a negação da falta e da incompletude constituinte do humano segundo diversas teorias psicanalíticas.
                 Tal “irrealidade absoluta acaba por oferecer um signo que aspira a ser a coisa: não uma simples imagem, mas seu duplo. Confunde-se realidade e ilusão, não separando o real da fantasia: o sonho de superação, mas trazendo de volta coisas do passado, ao qual a humanidade, no bojo de sua sede de evolução, continua ligada”

             – como na sentença final de Fitzgerald em “O Grande Gatsby”: E assim vamos nós, barcos contra a corrente, impelidos incessantemente para o passado.

             – como Freud apontou na manutenção ou revivência das fantasias infantis; e até mesmo propôs como técnica interpretativa de reconstrução de vivências pretéritas.
                 Para ter uma história, os homens sentem a necessidade de cultivar e até de cultuar o passado, muitas vezes, criando personagens e fantasiando acontecimentos. Ou seja, aqui surge o simulacro que constitui uma realidade: como a vida recriada por ‘Jay Gatsby’, o palácio Xanadu construído pelo “Cidadão Kane’, as disneylândias e seus sucedâneos…
                  Interessa destacar uma das características que em 1979, no livro, “A Cultura do Narcisismo”, Christopher Lasch, propôs para o aparecimento das desordens narcísicas, como as mais proeminentes formas de disfunção psíquica dos anos 1950 em diante: dentre outras, derivadas de mudanças específicas em nossa sociedade e cultura: a sensação de vazio interno, a racionalização da vida interior, o pseudo-insight, a proliferação de imagens, a dependência dos outros associada a medo da dependência, a deterioração nos relacionamentos afetivos,sendo uma peça-chave no quebra-cabeça que é tentar entender nossos tempos “narcisistas”, a perda da noção de posteridade, ou como Lasch enuncia, o “enfraquecimento do sentido do tempo histórico” cujo corolário seria o viver para o momento, para si e não para os outros contemporâneos ou que virão a seguir (outra forma de simulacro da História?).
                    Estes aspectos também foram levantados por John Gledson em seu estudo sobre “Esaú e Jacó” quando diz que Machado mostra neste livro “uma sociedade que perdeu seu senso histórico, e assim, é incapaz de compreender o presente ou de distinguir a superfície da substância.
                     Para Baudrillard, “a modernidade e aperfeiçoamento tecnológico com aceleração do econômico, do político, da notícia sobre os fatos e até mesmo das exigências sexuais, nos leva a uma tamanha velocidade de libertação que chegamos a escapar tanto da referência do real como da História. Reduzida a um acúmulo de resíduos, tudo leva a um desvanecimento da História onde os acontecimentos se neutralizam na indiferença.
Os fatos continuam se sucedendo, mas ninguém se importa, e tais efeitos se aceleram. Os meios de comunicação utilizam recursos que passam a ser instrumentos de simulação de uma hiper-realidade que tem poder de abafar ou mesmo de apagar a realidade. O simulacro aqui é um signo que só se refere a si mesmo”.
                    Deleuze fala de simulacros-fantasmas que constituem a cópia da cópia, “construídos a partir de uma falsa semelhança, que abriria caminho à dessemelhança, à perversão e ao desvio em relação à essência”.Ele diz não ser o afastamento da realidade que perverte a semelhança do simulacro com a idéia e sua fidelidade ao modelo, mas sua natureza, sua essência por assim dizer, dado que o simulacro não é cópia de absolutamente nada, é cópia do não-ser.                     O triunfo do simulacro, que “nega tanto o original quanto a cópia, cria um jogo, no qual os signos descobrem-se máscaras”.
                     Na categoria do simulacro pode-se pensar ainda em “cópia”, “reflexo”, “sombra”, retomando a questão do duplo, tão atual (clonagem) quanto eterna (o homem feito à imagem e semelhança de seu Criador): algo que sempre consideramos como imaginário, hoje nos surge como factível.
                     O duplo, que representa e simboliza, apropria-se das totais competências e funções do “eu” – de que é representação ou símbolo, tal como em “William Wilson” de Poe. Analogamente, devemos entender o duplo como uma entidade que evolui e se renova, atualizando o seu conteúdo; podendo ser dito que a história do duplo também se reduplica como traço do ser humano, em busca de si no outro, espelho da identidade talvez fugaz, quem sabe inapreensível e certamente misteriosa, um álibi contra a insignificância, um truque contra a morte.

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5. A Fortaleza da Solidão na nova Casa de Matacavalos : Simulacro e ‘Falso Self’ em “Dom Casmurro”
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            A partir de tais citações e associações, proponho ver o simulacro da casa de Matacavalos como mais do que um sintoma do personagem-título de “Dom Casmurro”: emblema e avatar de sua estrutura psíquica deformada e deformante sob a aparência de um “verdadeiro falso self”, tão falso que chega àquela situação apontada por Winnicott na qual o verdadeiro fica inteiramente escondido, parecendo que o falso é autêntico – e se apresenta freqüentemente coroado de algum tipo de sucesso: uma forma de pensar o simulacro na contemporaneidade através da psicanálise e da construção machadiana.
              Ao imaginar um personagem que:
a) aceita demolir a casa de sua infância (e com ela uma ilusória infância idílica);
b) para posteriormente (quanto tempo depois?) comandar sua reconstrução em outro espaço (atopia);
c) reconhecendo que a segunda “apenas lembra” a primeira “por efeito de comparação”, mas não“de sentimento”,
                Machado aponta para uma tentativa de denegar um passado real que será reconstruído, mas desviado de sua essência, e com outras conotações, além do evidente risco ou intenção de buscar efeitos com modificação do sentimento– sentimento que expressaria a verdade, pois até nas modificações, deslocamentos e substituições pelas quais passa o sonho, os afetos permaneceriam inalterados, segundo Freud. Mas não na casa-simulacro.
                  Esta mudança do afeto já havia sido apontada por Lygia Fagundes Telles no prefácio do roteiro para o filme “Capitu”, escrito por ela e Paulo Emilio Salles Gomes: “como, após a leitura da carta informando a morte de Ezequiel, o filho antes tão amado (ainda que talvez putativo), Bento diz ‘apesar de tudo, jantei bem e fui ao teatro’ ?!”
Bentinho nunca pôde levar adiante o que seria seu “projeto nuclear do Self” no dizer de Kohut (o projeto íntimo do ser) porque ficou submisso à promessa de sua mãe no sentido do seminário que só abandona por outra submissão: às manobras de Capitu através de José Dias, ficando quase sempre aprisionado ao jogo de um duplo idealizado que ele experimenta em Escobar. O Bentinho mais original e virtual que nunca se concretizou talvez se transformasse em alguém diverso do Bento Santiago construído como um simulacro – e novamente reconstruído como Dom Casmurro: cada um análogo, mas diferente; cada um, uma nova realidade em si mesma, tal como as casas gêmeas não-idênticas, já que o personagem proteiforme também desconstrói e reconstrói Capitolina e Escobar como o casal que o excluiu da cena primitiva jamais imaginada para sua mãe, em cujo túmulo ele coloca o adjetivo que desperta polêmica religiosa: “Uma Santa”.Capitu é até mesmo vilipendiada através da effigie reconstruída por ele, Pigmalião perverso que nos oferece o retrato de uma mulher des-ideal, queimando-a mais do que as cartas do suicida que ele jamais seria, morto que já estava seu verdadeiro self – e essência perdida. Como matar o que já está morto? Sua fúria narcísica volta-se contra Capitu e Ezequiel – a quem ele quase envenena de fato.
                   Só lhe resta não ter que escolher, viver com o desejo de que Capitu tivesse e não tivesse deitado nos braços fortes de Escobar. Sem escolher, sua casa-simulacro antecede a “Fortaleza da Solidão” (tal como vista por Eco), onde ele volta a um passado que nunca saberemos como terá sido: pois Bento não é Briony revelando as falácias da ficção que encobriria a verdade histórica diegética. Ele nos impinge seu simulacro e nos encerra em sua fortaleza onde está só e acompanhado de “inquietas sombras” faustianas, em um pré-Xanadu, o fantasmagórico palácio atípico e também atópico de Charles Foster Kane, incluindo até uma ‘Veneza’ fake em plena Califórnia como emblema de algo fora do lugar, atopia, bizarrice, estranhamento-e-familiaridade.A história que ele conta pode ser ou não ser a história “real” que Machado nunca nos dirá qual terá sido. Tal ambigüidade só pode desembocar no romance subseqüente onde o tema do “duplo” aparece de forma des-dramatizada numa aparentemente prosaica rivalidade entre gêmeos, o Pedro e o Paulo de “Esaú e Jacó”: um monarquista, outro republicano, tão diferentes entre si como não são diferentes gêmeos idênticos.
                  O ataque ao “tempo histórico” ou à história “real” é perpetrado a partir da morte de Escobar, seu selfobject idealizado e ‘duplo virtual’, morte que impede a fantasia de fusão homerótica que, então, volta-se contra a mulher, como se ela tivesse realizado seu desejo de fusão física – e concebido um filho que precisa ser rejeitado. Impossível mesmo (como sabia Machado) atar as duas pontas da vida que não são as mesmas. Mas ele tenta o simulacro de que poderiam ser atadas através de simulacros que se auto-anulam. Este fruto podre (Casmurro) não estava dentro da semente mais anterior até mesmo ao que construiu como estrutura falso-self do menino Bentinho ou do advogado Bento Santiago: nem “bento, nem “santo”, mas tal como um outro “Iago” – só que como inimigo interior.

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Por: Luiz Fernando Gallego 

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REFERÊNCIAS

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CALDWELL, Helen (1960) – O Otelo Brasileiro de Machado de Assis – Um Estudo Brasileiro de ‘Dom Casmurro’ – Rio de Janeiro: Ateliê Editorial, 2002, p. 41.

ECO, Umberto – Viagem pela Hiper-realidade. In: Viagem na Irrealidade
Cotidiana. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984, p. 9-60.

FREUD, S. (1900) – A Interpretação dos Sonhos, E.S.B., Vol.V, Rio de Janeiro, Imago Ed., pág. 492.

GLEDSON, John (1986) – Machado de Assis: ficção e história. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986.

KOHUT, Heinz (1966) – Formas e Transformações do Narcisismo. In: Self e
Narcisismo, Rio de janeiro, Zahar, 1984

(1979) – Four Basic Concepts in Self Psychology. In: The Search
for the Self – Selected Writings of Heinz Kohut, vol.4., ed. P. H. Ornstein, New
York, International Universities Press, Inc., 1990, p. 447-471.

LASCH, Christopher (1979) – A Cultura do Narcisismo. Rio de Janeiro, Imago, 1983.

LATUF, Isaías M. – In: E-dicionário de termos literários http://www.fcsh.unl.pt/edtl/index.htm, coord. de Carlos Ceia, ISBN: 989-20-0088-9, s.v. “Simulacro”, E-Dicionário de Termos Literários www.fcsh.unl.pt/edtl/verbetes/S/simulacro.htm
consultado em 19-02-08.

De LIMA, Teresinha Carletto – Uma Viagem pela Hiper-história através da Hiper-realidade de Umberto Eco.
www.unicentro.br/editora/revistas/guairaca/17/artigo%204%20uma%20viagem.pdf
consultado em 18-02-2008.

MACHADO DE ASSIS – Obra Completa, Rio de Janeiro, Aguilar, 1971, pág 819, capítulo X de Dom Casmurro.

McEWAN, Ian (1999) – Reparação, trad.:Paulo Henriques Britto, SP, Ed. Cia. da Letras, 2002.

TELLES, Ligia Fagundes & SALLES GOMES, Paulo Emílio (1993) – Capitu, Roteiro para Cinema do Livro ‘Dom Casmurro’ de Machado de Assis, São Paulo: Siciliano, 1993.

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A Fortaleza da Solidão na nova Casa de Matacavalos: Simulacro e ‘Falso Self’ em “Dom Casmurro”
Notícia publicada em: 2008, Monday, October 13 @ 10:44:21 BRT
Tópico: Trabalhos

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