O Homem e o Símbolo

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<<Ilustração da Alavanca de Arquimedes, encontrada no site: Tri-102.5>>

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O HOMEM E O SÍMBOLO – Um ensaio em psico-política

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Davy Bogomoletz

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            Para discutir esse tema com algum proveito, temos que considerar como axioma, em primeiro lugar, que o bebê vem ao mundo sem cultura alguma. Sem palavras, sem imagens, sem memória representável, sem, quase, experiências, no sentido que damos a esse termo na vida posterior. Ele nasce, portanto, com a capacidade apenas de produzir fantasias. De que consistem essas fantasias é impossível saber – se de imagens visuais ou sonoras, se de meras sensações fabricadas pelo cérebro. Deve haver, contudo, atividade cerebral, por mais primitiva que seja.

            No momento em que o bebê sai do útero, começa uma nova etapa em sua vida. Surgem pela primeira vez alguns fenômenos inteiramente novos, entre os quais os da respiração, da sensação cutânea e da fome. Há também, lembra Winnicott, algo novo com que antes ele não precisava se preocupar: o efeito da gravidade. E há também, claro, novas sensações musculares, pois os músculos adquirem uma liberdade de ação que não tinham antes.

             As estimulações visuais ainda não são muito importantes nos primeiros dias, mas é possível imaginar que as estimulações auditivas adquirem uma importância que não tinham, pois sabe-se que, dentro do útero, o som chega ao bebê bastante enfraquecido.

             Mas se o cérebro já funciona, e isso é, certamente, um fato, haverá fantasias. Haverá a produção espontânea do que Winnicott chama a criatividade primária, que rapidamente passará a girar em torno de todos os novos estímulos com os quais ele passa a lidar. Postula-se, para essa época da vida, uma atividade “mental” de natureza onipotente, isto é, uma atividade que não leva em conta, em quase nenhum aspecto, a realidade externa à sua própria produção. Tudo isto é apenas conjectura, naturalmente, mas trata-se de uma conjectura bastante plausível.

              O modo como Winnicott descreve o “funcionamento” do bebê é conhecido: Algum tempo depois do nascimento, o bebê começa a juntar experiências e a classificar os seus componentes. (A voz ativa, aqui e em outros pontos, é ‘licença poética’, para encurtar a descrição.) Assim, as experiências da fome, do choro e do recebimento do alimento acabam formando um todo e passam a indicar que o primeiro elemento (sumamente desagradável) logo será eliminado, pois em seguida ao choro algo acontecerá (a mamada) que resolverá esse problema. Ele passa, depois de mais um tempo, a contar com essa “solução”, e depois se torna capaz de visualizar (“alucinar”) o objeto que a possibilita (e que nós chamamos “seio”). Demora muito, depois disso, para que ele se dê conta da existência de algo envolvente, que não só traz consigo o “seio”, mas que também acolhe e acalenta, a que chamamos “mãe”. Aos poucos, desse modo, o que antes era uma produção mental (“onírica”) inteiramente independente, transforma-se num contínuo que vai da fantasia ao encontro com algo externo (a “mãe”).

               Essas palavras descrevem um dos modos de ocorrência desse processo. Nesse primeiro modo, está implícito que a mãe (real) tem a capacidade de, ao mesmo tempo, atender a solicitação do bebê tão logo ela ocorra, e esperar que o bebê a faça. Ambas as coisas são vitais: tanto o saber esperar, quanto o não fazer esperar. O que decorre deste modo de funcionamento do processo é que o bebê, em primeiro lugar, se sente confirmado em sua ilusão de onipotência, e em segundo lugar, passa a perceber o mundo externo como uma extensão de seu ambiente interno: Eu quero, ele dá.

                 Em outras palavras: O bebê é posicionado, pela mãe, no lugar do detentor de um poder. A conseqüência: o que no início era “visto” pelo bebê como um nada do qual só a morte poderia surgir (e que Lacan chama, com uma trovejante maiúscula inicial, de “o Real”), passa com o tempo a ser visto (agora sem aspas) como um lugar de onde vêm soluções e coisas boas. O choro, como expressão de terror e desamparo radicais do início, torna-se um instrumento de comunicação, que depois será substituído por balbucios, murmúrios, e por fim, palavras: já há alguém, lá fora, a quem dirigir a produção sonora.

                E como denominador comum de todas essas experiências, vai surgindo um elemento novo – um (como o denomina Winnicott) self, que bem mais tarde será chamado de “eu”.

                    O outro modo de funcionamento desse processo envolve a existência de uma mãe que, por um lado, não suporta esperar, pois está ansiosa demais em relação às chances que o bebê tem de sobreviver, ou que não vê problema algum em fazer o bebê esperar, pois tem muita pressa em percebê-lo crescendo e se tornando “gente grande”, que reconhece a realidade externa e se adapta a ela.

                    Num caso ou outro desse segundo modo de funcionamento, a realidade externa impõe-se à fantasia do bebê, e não custa especular que é essa precisamente a intenção da mãe: apavorada ou fascinada por suas próprias fantasias, de terror ou de grandeza, ela tenta fazer com que o bebê alcance logo a realidade externa para não ficar preso, como ela, às fantasias do mundo interno, ou para crescer logo, grande e forte, exatamente como ela o imagina.

                     Ela, então, entrega a realidade externa ao bebê quase desde o início, alimentando-o com ela a fim de impedir que a fantasia aterrorizante (para ela!) tenha muito tempo para fazer seus inevitáveis (segundo ela) estragos. Obviamente, a plasticidade natural da mente do bebê irá submeter-se a esse estado de coisas. Embora a fantasia não seja jamais “cancelada”, como gostaria a mãe (segundo a nossa elucubração), o bebê submete-se à realidade externa a ele (na verdade, submete-se à vontade da mãe…), e cresce sempre à espera das indicações (que sempre vêm) do que deve ele fazer a cada momento. Tenderá a reprimir o funcionamento de sua criatividade primária, e a adaptar-se a esse mundo externo de onde vem a “salvação”.

                       No primeiro modo de funcionamento teremos, como conseqüência, um bebê que crescerá em condições de: 1 – confiar; 2 – esperar; 3 – compartilhar; 4 – compreender e usar a incerteza, a ambigüidade, o paradoxo.

                     No segundo modo, teremos um bebê que: 1 – precisa ter certezas; 2 – não pode esperar, pois o terror se instala; 3 – não pode confiar, a não ser que tenha certeza; 4 – não pode compartilhar, pois não tem o que compartilhar; pode apenas ceder, quando for inevitável, ou tomar, sempre que for preciso; 5 – não pode tolerar nada que não seja perfeitamente claro, preciso, enquadrado em marcos imediatamente compreensíveis e simples.

                     Winnicott chamou ao primeiro caso de ‘self verdadeiro’, e ao segundo de ‘self falso’. As diferenças entre ambos os tipos de self são gritantes. No entanto, não parece ter se tornado de domínio público essa distância tão grande entre os dois tipos humanos assim descritos.

                      No aspecto ligado à capacidade de simbolização, teremos que examinar de que modo funciona cada um dos dois tipos de self.

                   Antes de mais nada, porém, é preciso levar em conta que, no mínimo, há dois tipos de símbolo: O primeiro tipo indica, imediatamente, o objeto ao qual se refere, pois ele é mais um signo ou sinal que um símbolo. Por exemplo, os símbolos usados como indicadores (em geral gráficos) de certo agrupamento de indivíduos ou fenômeno social (as bandeiras, os símbolos religiosos, etc.). O segundo tipo de símbolo é mais complexo: Trata-se de um sinal que remete a outra coisa. Pode ser visual ou auditivo. Pode remeter a mais de um objeto ou fenômeno. Se, portanto, o primeiro tipo de símbolo é unívoco e de entendimento imediato, o segundo tipo é ambíguo, complexo, exigindo pré-requisitos para ser entendido (contexto, forma, etc.).

                   Assim sendo, podemos facilmente ver que o primeiro tipo de self será capaz de lidar com ambos os tipos de símbolo, enquanto o segundo tipo de self só conseguirá relacionar-se com os símbolos de natureza mais simples e direta, de significado imediatamente alcançável.

                  Quando nos voltamos para o panorama mundial atual, o que percebemos é que a crença iluminista no progresso e no desenvolvimento de modos de vida cada vez mais pautados pela liberdade individual, pela educação e pela facilidade cada vez maior de aquisição de bens culturais esbarra, de modo mais e mais intenso, em resistências que não foram previstas. As liberdades individuais, arduamente alcançadas ao longo da segunda metade do século 20, vêm sendo rejeitadas por grupos religiosos cada vez mais renitentes. A educação tem falhado lamentavelmente em sua missão de criar cidadãos mais conscientes de seus direitos e deveres sociais. E a facilidade para aquisição de bens culturais vem sendo deixada de lado pela crescente busca por produtos de consumo fácil e pela preferência por programas de lazer e entretenimento predominantemente simplórios.

                     E o mais importante: A esperança de que, depois da desmontagem do bloco soviético, com a conseqüente possibilidade de uma era de paz após o término da Guerra Fria, nos deparamos com um crescente clima de violência mundial, promovido insistentemente por certas sociedades ou grupos cada vez mais adeptas do fundamentalismo religioso e avessas às liberdades civis propostas pela democracia.

                  Surge, nos debates sobre este último tópico, a ideia de que os processos de simbolização nos indivíduos assim chamados fundamentalistas seriam deficientes, levando-os a buscar certezas em vez de liberdades.

                   Tentei mostrar, acima, como o processo de desenvolvimento emocional pode ser não apenas um promotor da capacidade de simbolização, mas também um obstáculo para ela.

                   Gostaria apenas de acrescentar que o desenvolvimento emocional não é um “dado da natureza”. Ele é uma potência, que se atualiza ou não conforme as condições o permitam, e é, por outro lado, um processo que pode regredir a um estágio anterior quando encontra ameaças suficientemente poderosas. Tais ameaças podem ocorrer em qualquer momento da vida do indivíduo. Sabe-se que pessoas expostas a grandes perigos por vezes regridem a estágios anteriores do desenvolvimento emocional.

             A atitude materna de facilitação do desenvolvimento emocional, justamente chamada por Winnicott de “ambiente facilitador”, não pode ser promovida por políticas governamentais, pois é inevitavelmente um assunto de foro íntimo. No entanto, para que a mãe forneça um ambiente facilitador para o seu bebê é preciso que ela própria esteja cercada de um “ambiente facilitador” na infância de seus filhos, e esse outro tipo de ambiente facilitador depende, basicamente, da situação concreta (ou seja, sócio-econômica) em que ela vive. Situações de miséria e violência não são de ordem a permitir à mãe criar filhos saudáveis. Basta uma palavra para deixar clara a correlação entre política e psicologia, neste ponto: a palavra reverie, usada por Bion para indicar toda essa atitude da mãe descrita com tantos detalhes por Winnicott. Para que haja reverie é preciso que a mãe esteja em condições mínimas de bem estar pessoal, livre de angústias excessivas e de preocupações demasiadas quanto às chances de sobrevivência do seu bebê, dos outros membros de sua família e dela mesma. Na presença desses fatores ameaçadores não se pode esperar que os bebês alcancem algo parecido com a capacidade de simbolização no sentido complexo da palavra. É mais provável que cheguem, no máximo, à capacidade de utilizar símbolos simples, que prometem remédios prontos e rápidos para os terrores das existências ameaçadas, e que, como bem sabemos, na maioria das vezes ajudam a limitar ainda mais as possibilidades do humano, em vez de ajudar a ampliá-las. Se levarmos em conta a idéia de que os fenômenos de ‘liberdade’ e ‘segurança’ formam uma série complementar (de valor total fixo), ficará claro que o crescimento de um dos termos implica a diminuição do outro. Assim sendo, quando o fator ‘segurança’ é sentido como insuficiente, inevitavelmente o fator ‘liberdade’ perderá um pedaço, e vice versa.

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Por: Davy Bogomoletz, Outubro de 2005

O HOMEM E O SÍMBOLO – Um ensaio em psico-política
Notícia publicada em: 2005, October @ 00:37:50 BRT
Tópico: Ensaios

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