Absolvição, de F. Scott Fitzgerald

F Scott Fitzgerald

<<Foto de F.Scott Fitzgerald – encontrada no site: Open Culture>>

ABSOLVIÇÃO 

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selo.

Luiz Fernando Gallego & Fitzgerald: fragmentos

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           Há um conto de Fitzgerald cujo título é “Absolvição” e é estimado como um possível episódio que poderia ter ocorrido na vida do jovem Gatz (futuro Gatsby), o que não deixa de ser uma especulação como outra qualquer. Ao mesmo tempo em que vários ensaístas escrevendo sobre Fitzgerald e seu melhor livro, admiram que não haja muitas informações sobre o personagem antes de se transformar no “Great Gatsby”, há hipóteses de que alguns contos trariam o personagem quando mais jovem. Acho que “Winter Dreams” é um destes e “Absolution”, o outro. Este último é bastante forte para quem já foi católico um dia: um dos personagens é um jovem pré-adolescente que mente ao severo pai que havia se confessado na véspera. Como poderia receber o sacramento da comunhão sem ter se confessado e – portanto – estando com pecados não absolvidos em sua alma? Se comungasse na Missa de Domingo estaria cometendo um grave sacrilégio, além de acumular mais um pecado mortal; se não comungasse, seu pai saberia que mentira sobre a confissão – e talvez, pior ainda, que estaria com vários pecados mortais pesando na alma…incluindo a mentira para o pai. Ele tenta a artimanha de ingerir água e perder o jejum exigido para ingerir o “corpo de Cristo”, para que a hóstia transformada em corpo de Deus não se misturasse a outros alimentos espúrios no estômago.

            (Quem nunca foi católico não pode imaginar a força de fantasias “concretizadas” nas cabeças das crianças através desses rituais e pensamentos obsessivos – como Freud descreveu a religião, uma neurose coletiva cheia de detalhes barrocos, do tipo quantos anjos cabem na cabeça de um alfinete – além das “explicações” fantásticas sobre a virgindade de Maria antes, durante e depois do parto ou sobre as “3 pessoas em UM só Deus”, entre outros exemplos).

              O conto é estranho porque também trata do padre, o mesmo que aquele com quem o jovem vai por fim se confessar, depois de uma outra confissão anterior na qual, deliberadamente, mentiu e omitiu coisas (ou seja, outro “sacrilégio”, contra um outro sacramento, o da “Confissão”).

                A abertura demonstra a transparência e riqueza do estilo de Fitzgerald, isto quando acertava. Em tradução de Portugal, segue o trecho que abre o conto:

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“Era uma vez um padre de olhos frios e lacrimosos que, no sossego da noite, chorava lágrimas frias”
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                 Que tal? Pois prossegue assim:
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         “Chorava porque as tardes eram quentes e longas e o deixavam incapaz de atingir uma união completa e mística com Deus Nosso Senhor. Por vezes, perto das quatro horas, havia um perpassar de raparigas suecas ao longo do caminho que dava para sua janela, e nos seus risos agudos ele encontrava uma terrível dissonância, o que fazia com que rezasse em voz alta para que o crepúsculo viesse logo.
            Ao crepúsculo, os risos e as vozes eram mais suaves, mas por diversas vezes ele ia ao ‘Romberg’s Drug Store’ quando já estava escuro, e as luzes amarelas brilhavam lá dentro e as torneiras niqueladas do bar reluziam, e ele descobria o cheiro de sabonete desesperadamente doce no ar. Passava por lá quando regressava de ouvir confissões nas noites de sábado, e tinha o cuidado de caminhar pelo outro lado da rua de modo que o cheiro a sabonete flutuasse no ar antes de lhe chegar às narinas à medida que pairava, como incenso, em direção à lua de verão.
          Mas não havia modo de fugir à quente loucura das quatro horas (…)Uma tarde, quando tinha atingido o ponto onde a mente deixa de funcionar, tal como um relógio velho, a governanta introduziu no gabinete um lindo rapazinho muto vivo, de onze anos, chamado Rudolph Miller. O rapazinho sentou-se numa réstia de sol, e o padre, em sua escrivaninha de nogueira, fingiu estar muito ocupado. Isto, para esconder o alívio por alguém haver entrado naquele compartimento lúgubre.”
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          O conto tem cinco capítulos, sendo que os três centrais narram as angústias do garoto em relação a seu pai, à religião, Deus, seus pecados mortais de rebeldia contra o pai (e contra “O Pai” celeste), sua fascinação por conversas “sujas” (pecado “sexual”) e assim por diante. No final, terminada sua longa o garoto se envolve no que já resumi antes: confessa, não confessa, comunga, não comunga, comunga, confessa, mente em outra confissão anterior… Finalmente ele decide confessar toda a verdade ao padre idoso que irá dizer coisas que o garoto não entende – ou, se entende, percebe que o padre não está bem.
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        “Os olhos frios e chorosos do padre Schwartz estavam fixos sobre o desenho do tapete onde o sol realçava as cruzes gamadas e as folhas de videira desguarnecidas e uniformes, e os pálidos ecos de flores. O relógio do vestíbulo fazia um tique-taque insistente, a caminho do pôr-do-sol, e da sala feia e da tarde fora da janela erguia-se uma monotonia densa, quebrada aqui e ali pela batida de um martelo distante no ar seco. Os nervos do padre estavam tensos e as contas do seu rosário enroscavam-se e rastejavam como cobras sobre o feltro verde da cobertura da mesa. Não era capaz de se lembrar do que devia dizer. Entre todas as coisas desta perdida cidade sueca, o que ele mais notava eram os olhos daquele rapazinho – lindos olhos com pestanas que saiam deles com relutância e se curvavam para trás, como que para os encontrarem de novo.
          Durante mais alguns momentos o silêncio persistiu enquanto Rudolph esperava e o padre lutava para se lembrar de qualquer coisa e o relógio fazia tique-taque na casa pobre. Então o padre olhou intensamente para o rapazinho e observou numa voz peculiar:
– Quando muita gente se reúne nos melhores lugares as coisas cintilam.”
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       Uma das frases que o padre diz ao rapaz tenta afastar o peso dos “pecados” cometidos pelo jovem:
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“Deixa de te preocupares com o domingo passado! A apostasia implica em condenação absoluta somente na pressuposição de uma fé anterior perfeita. Será que isto te resolve o problema?”
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          Claro que o garoto não entende essa teoria teológica mas faz com a cabeça que sim, percebendo a impaciência do padre que quer falar de outras coisas que perturbam a ele, ao próprio padre:
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“Ouves o martelo e o relógio a fazer tique-taque e as abelhas? Bem, na disso presta. O que é preciso é ter muita gente no centro do mundo, onde quer que ele esteja. Então – e os olhos chorosos abriram-se mais , com ar de quem sabe – as coisas cintilam”
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           O garoto fica assustado, cada vez mais inquieto e pensa:
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“Este homem é doido, estou com medo dele. Quer que eu o ajude de algum modo e eu não quero”
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           “Tens um ar como se tudo ainda cintilasse – exclamou o Padre Schwartz precipitadamente – Já foste alguma vez a uma festa? E reparaste que toda a gente estava bem vestida? É o que eu quero dizer. Quando tu entraste na festa, talvez estivessem à porta duas raparigas e alguns rapazes encostados ao corrimão e houvesse por toda a parte jarras com flores. A minha teoria é que quando muitas pessoas se reúnem nos melhores lugares as coisas cintilam o tempo todo.
(…) Olha – gritou – agora existem luzes tão fortes como estrelas. Podes imaginar isto? Ouvi falar de uma luz em Paris ou em outro lugar que é tão forte como uma estrela. Pertence a um monte de gente… gente alegre e que tem um monte de coisas com que tu nunca sonhaste. Olha lá – aproximou-se de Rudolph, mas o rapaz afastou-se e o Padre Schwartz recuou e sentou-se na sua cadeira com os olhos ardendo, esbugalhados – Já viste um parque de diversões? Olha: vai ver um parque de diversões – e o padre agitava vagamente a mão – É parecido com uma feira, mas muito mais cintilante. Vai à noite e fica um pouco retirado, num lugar escuro, debaixo de árvores escuras. Vais ver uma grande roda feita de luzes que giram no ar e um grande escorrega que lança barcos na água. Uma orquestra a tocar em algum lugar, e um cheiro de amendoins… e tudo a brilhar. Mas estás vendo que isto não te faz lembrar de nada… está só ali, tudo no ar da noite como uma grande lanterna amarela num poste.
O Padre Schwartz franziu as sobrancelhas ao pensar de repente em outra coisa.
– Mas não te aproximes muito – preveniu – porque se te aproximares só vais sentir o calor, e o suor, e a vida.” [ O rapazola] “por baixo do seu terror, pensou que suas próprias convicções íntimas se confirmavam. Havia algo de inefavelmente maravilhoso em algum lugar e que não tinha nada a ver com Deus, já não pensava que Deus estaria zangado por causa da sua mentira inicial de não ter se confessado. Até quanto as outras pois teria compreendido que ele fizera aquilo para tornar as coisas mais belas no confessionário ou para alegrar as cores carregadas das suas confissões dizendo algo radioso e arrogante. No momento em que afirmara um honra imaculada, uma bandeira de prata ondeou à brisa de algum lugar e houve o ruído de couro e o brilho de esporas prateadas e um bando de cavaleiros esperando a madrugada numa colina verde; o sol fizera estrelas de luz nos seus escudos como no quadro lá de casa.Mas agora o padre murmurava palavras confusas e tristes, e o rapaz ficou aterrorizado. O terror entrava pela janela e a atmosfera da sala havia mudado. O padre Schwartz caiu de joelhos e deixou o corpo encostar numa cadeira. “Oh, meu Deus!” – gritava ele com uma voz estranha, estendido no chão. Então, um desabafo humano elevou-se das roupas gastas do padre e misturou-se com um leve cheiro de comida velha pelos cantos. Rudolph deu um grito agudo e correu, em pânico para fora da casa enquanto o homem caído jazia imóvel, enchendo a sala de vozes e de rostos até ficar repleta de ecolalia fazendo soar uma nota aguda e firme de gargalhada.
Fora da janela, o siroco azul tremia por sobre o trigo e raparigas de cabelo amarelo passeavam sensuais ao longo das estradas que delimitavam os campos, gritando coisas inocentes e excitantes aos jovens que trabalhavam em filas entre a seara. As pernas moldavam-se por baixo dos vestidos sem goma e as orlas dos decotes estavam mornas e úmidas. Havia cinco horas que a vida, quente e fértil, ardia na tarde. Dentro de três horas seria noite e por todos os campos haveria raparigas louras do norte e homens altos e jovens das fazendas estendidos por entre o trigo e sob a lua.”
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B. Jansy Mello & Gallego – comentários e novos fragmentos:
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         Apresenta-se o contraste entre a vivência sugestiva de um êxtase místico – que se revela enquanto sintomática da loucura avançada do velho confessor, com o fundo de religiosidade e convite ao ascetismo não-freudiano – e o mundo cotidiano, de sensualidade alegre promovendo descompromissados acoplamentos humanos. A escolha do autor desta história dirige o leitor e quase o educa. Oferece-lhe a chance de posicionar-se como um céptico, caso se mantenha alidado a sua autoridade de escritor sofisticado, questionando a hipocrisia que cerca as intenções de alcançar alguma verdade quando se sofre pelo recalcamento. O controle religioso se o põe à liberdade dos trigais com raparigas à moda portuguesa . Tudo isto, se recebido sob impacto do talento blasé de Fitzgerald, ensina o caminho fácil do prazer natural que não discrepa dos valores iluministas, uma vez que se associa a verdade do corpo com a da razão.
 
             O estilo de Fitzgerald nos leva do impacto dúplice dos adjetivos da ordem das “lágrimas frias” ao calor de pernas moldadas sob o tecido sem goma dos vestidos, ironizando a ingenuidade do jovem candidato à hipócrita existencial, pela perplexidade ainda dócil ante seu confessor, que rescende à velhice e aos trapos sujos das intenções e de hábitos repetidos até ficarem aos farrapos.
               Um artista, em princípio, não é um formador de opiniões, nem sua meta se restringe aos Bildungromans do século passado cuja indiscutível qualidade disfarça a intenção ideológica. Fitzgerald é um artista pleno e, até certo ponto, isento porque até um rol de roupas pode servir para desvelar a realidade e lavar com a verdade alguma roupa suja da cultura. No entanto, a naturalidade pela qual ele deixa espraiarem-se os prazeres dos camponeses alegres entre a colheita e o luar, o ensolarado das suas palavras cedendo à prata da lua, forma um contraste deliberado com o mofo eclesiástico e com as questões neuróticas que se endereçam aos “padres-pais” para escapar à culpa pressentida pelos escamoteamentos da confissão. A seriedade literal, concreta, da fé como ensinada nas escolas e a seriedade profunda e natural do jovem que permanece capaz de ver mais além do que lhe oferecem com cálice e pratinhos de prata.
                  

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 Por: Luiz Fernando Gallego
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ABSOLVIÇÃO
Notícia publicada em: Thursday, June 19 @ 21:08:52 BRT
Tópico: Literatura

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