…De Labirintos e Véus

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<<Foto de: Teresa Queirós>>

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… DE LABIRINTOS E VÉUS

(romancinho)

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selo

Mércia Pinto

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Capítulo I

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             A representação do grandioso e do desconhecido espalhada naquela imensa folha de papel pendurada na parede deslumbrava as duas meninas. Pa-quis-tão, Ca-sa-quis-tão, A-fe-ga-nis-tão, I-rão, Us-be-quis-tão, Tur-qui-me-nis-tão. – E por que não Brasão? Assim tudo rimava, perguntava uma à outra.

              Quatro mãozinhas deslizavam naquela superfície lisa, tentando encontrar algum nexo nos nomes daquelas manchas coloridas: Po-li-né-sia, Me-la-né-sia, Mi-cro-nésia, In-do-né-sia, soletravam!

             – E Sunévia? Vamos ver onde fica, disse uma delas! Seus olhos inquietos pulavam aqui e ali à procura do lugar. A seguir, o desapontamento. – Por que não está aqui?

              E então vieram o silêncio e o desencanto. – Afinal, onde estou? Que mundo é esse em que vivo e que não existe?

               Tentando superar a tristeza, retomam as questões. E aquele mar que vejo à minha frente todos os dias? Que mar é aquele? Tão grande, tão disponível e desapegado quando traz conchas e búzios para brincarmos? Que é meu limite, meu-sim e meu-não? Será que é o mar Morto aqui do mapa, perguntavam-se.

                Esforçando-se para minimizar a angústia, respondiam-se: não, não deve ser! Ele engole tudo o que passa no horizonte. E perto da praia até brinca de me arrastar! Depois me joga de volta… na areia! Lá longe faz deslizar a jangada do meu pai! Então não deve estar morto! Em seguida, uma delas perguntava:

                – Mar Ne-gro! Será que é esse? Não, o mar lá de casa é verde e azul! Só é negro à noite, respondia a outra. As mãos continuavam percorrendo o mapa, que fomentava a imaginação. A viagem seguia mais rápida. Hi! Olha aqui! Mar Ver-me-lho! Como será esse mar? Será feito de sangue (?) interceptava uma a viagem da outra. Caminhando para as extremidades da superfície descobrem muitos reloginhos e números, ligados por linhas curvas que atravessam o mapa recortando-o em quadradinhos. – Para que servem os mapas, perguntaram instantaneamente à Dona Zula, que passava apressada para guardar uns cadernos no armário. Ora! Para orientar nas viagens, respondeu a professora, quase irritada. Já era hora de descanso, e ela não queria conversa.

                  A resposta ríspida deixou-as meio “encolhidas”, como as sensitivas. Mas logo, logo a brincadeira desabrochou novamente. Desta vez com uma pontinha de deboche! Olha aqui esse lugar pequeno chamado Bruxelas! Será que é lá que vivem as bruxas (?), interrogou uma, enquanto a outra, olhando lá embaixo no mapa, soletrava: Mal-vi-nas!!!

                  Trocaram-se olhares de cumplicidade, duplicaram-se em risadas e saíram da sala. Ainda restava um tempinho do recreio. No pátio, pular cordas envolvia mãos e pés. Passear de duas; uma vai e outra volta. No meio do percurso, o cumprimento do par com palmas ritmadas. Em sua batida estável a corda açoitava o chão e completava a volta no ar.

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Capítulo II

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                A construção que abrigava a única escola da região consistia de uma sala só. Além das três filas de carteiras duplas, uma velha mesa amparava a professora e seus afazeres: a chamada, a pilha de cadernos, as chaves na gaveta, o giz e o apagador.

                 A fila de alunos mais adiantados fazia o exercício de aritmética, enquanto a outra, intermediária, copiava do quadro-negro o dever de casa. No início da escolarização, os mais novos melhoravam a motricidade desenhando repetidamente os “Ms” e os “Ns” num caderno de caligrafia.

                  Ona tentava mostrar a Ane a diferença entre essas duas letras do alfabeto. O “M” tem duas barrigas e uma boca! E o “N”, só uma barriga e uma boca. (A ajuda entre as duas continuava).

                    As letras mais fáceis de fazer são o “I” e o “U”, mas você não pode levantar o lápis do papel. Tem que desenhar, uma emendada na outra! No recreio, a escolha dos personagens da brincadeira afastava da memória os esforços para desenvolver a escrita.

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(cavaleiro)

La Condessa, la condessa,

Língua de lança, lei de lanceta.

(La Condessa)

Que quereis com la condessa,

Que por ela perguntais?

(cavaleiro)

Mandou dizer rei, meu senhor,

que das filhas que ela tem,

lhe mandasse a mais moça

pra com ela se casar.

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               No mobiliário da sala, uma pequena estante guardava um dicionário, os livros de controle da matrícula e do aprendizado dos alunos. De resto, exemplares envelhecidos da “National Geographic Magazine”, com as folhas arrebitadas pelo uso, tinham sua utilidade; inspiravam os mais adiantados quando precisavam escrever algum texto ou pintar paisagens na hora da aula de desenho. Mesmo sem conseguir ler os textos, olhar as revistas era para Ane e Ona uma atividade fascinante. Apesar de ainda pequenas, brincavam com cada página que passava a seus olhos, imaginando lugares, pessoas, desenvolvendo comparações, borbotando desejos e reflexões. O entusiasmo pelo que descobriam com os estudos era muito. Combinar sílabas para formar palavras, invertê-las, desenhar letras, identificar os números em cédulas e moedas. Na verdade, elas rapidamente aprendiam o que era do seu nível e aproveitavam o tempo restante jogando olhos e ouvidos nas outras filas de carteiras. Aquilo que D. Zula ensinava aos mais adiantados significava muito para elas: modelo a ser seguido; e medo, caso não alcançassem um dia os mais velhos. Não sabiam o significado de muita coisa que era ensinado, mas sobretudo gostavam de ouvir o som das palavras, as explicações de como reconhecê-las pela acentuação. Você escarra e logo depois assovia, dizia Ona para Ane.

                    Vamos, tenta! Oxítona, paroxítona e proparoxítona, encorajava a amiga. Dando seguimento às regras sobre como pronunciar as palavras, Ane enriquecia o diálogo: helicóptero, epitélio, átomo, árvore e útero são palavras que a gente tem que fazer muita força para pronunciar. Desde a barriga até a garganta! È tanto T que de noite estou com a língua cansada!

                  Muitas vezes elas se entreolhavam e comentavam: é; essas daí a gente só vai pronunciar quando crescer, não é? A outra confirmava: É! Mesmo porque em Sunévia nós nunca vimos um helicóptero, um útero ou um átomo! E epitélio deve ser a tinta que cobre a hélice do helicóptero, não? Vira pra lá! Você quase me cospe com essas proparoxítonas! É mais fácil pronunciar caju, vestido, rio, corrente, mar, jangada, peixe, urubu, café, coco, cocô! E começavam a rir! E nos recreios, de algum modo ressoava nas brincadeiras o que estavam aprendendo.

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Lá vem o velho Félix,

com um fole velho nas costas.

Tanto fede o velho Félix,

como o fole do velho Félix fede.

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Capítulo III

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             Fora das quatro paredes da escola tinha-se a impressão de ter perdido o sentido do espaço e do tempo. Tudo era imensidão, céu e mar. Em terra, os únicos limites eram as dunas e um pequeno córrego, o “Corrente”. Deserto e desconhecido, não se tem notícia de que alguma missão importante tenha estado no local. Nenhum viajante em suas anotações ou desenhos documentou a região. Nenhum náufrago foi encontrado em suas praias. Enfim, nada que justifique um mito para sua fundação. Mesmo assim aquele seria um dia especial para os novos alunos da escola. A professora Zula ensaiara uma espécie de jogral, com o objetivo de orientá-los sobre a localidade. Distribuiu pequenos textos contendo informações históricas e geográficas sobre a região, que seriam decoradas e declamadas em duplas.

              Os primeiros a falar foram os irmãos Rósevel e Roselma: Sunévia localiza-se a algumas léguas à esquerda de um dos meridianos. A encenação continuou nas vozes de Jussiê e Jessuí. De barco, a terra é avistada quando se atinge o contravento norte. Embora ainda meio perdidas, as meninas escutavam com atenção a explanação dos colegas.

               Partindo daqui ou dali, são 20 dias de caminhada, se pretendermos chegar a Sunéviapela trilha das dunas, explicaram Laurenir e Iraldo. Logo depois Lucivaldo e Miraneide levantaram-se e orgulhosamente disseram seu pequeno texto. A região compreende a cidade e a vila dos pescadores que fica além das dunas, à beira da praia.

              Ah! Então o que eu sinto não é o nada! Esse lugar existe mesmo, pensou Ona! Parecia que em sua mente algo tinha se encaixado e ocupado um vazio que ela sentia, mas que não sabia o que era. Continuando as informações, Waldisney tinha motivos familiares para ser o escolhido a falar o próximo texto. O nome é homenagem a Sunévi Tedia, exemplo de mulher generosa, trabalhadora e dedicada a todos nós.

              Aos poucos as amigas iam calando as dúvidas, construindo uma idéia sobre o lugar onde viviam, entendendo que apesar de sua casa não estar no mapa da escola, o lugar existia. Enquanto isso, os gêmeos Assenauer e Adenauer interrompem suas divagações acrescentando outros dados relevantes sobre o lugar. Nossa escola localiza-se entre a vila e a cidade e abriga todas as crianças da região. Ela leva o nome de Escola Regional Félix de Satino, em homenagem ao esposo de Tedia. Ele é considerado o maior expoente regional de letras e artes. Além disso conhecia profundamente várias técnicas, principalmente a da construção de poços e chafarizes. Satino é exemplo de dignidade e trabalho a ser seguido por todos os sunevianos.

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Capítulo IV

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                  As crianças da escola descreviam a região como se seu centro histórico fosse o sobrado dos azulejos; palácio imperial, casa da moeda e campo de cristais dourados, e aos poucos se entendia a linguagem e os motivos de tanto ufanismo. O casal Satino/Tedia gozava de estranha dignidade. Tinha deixado de herança para os filhos a única casa com frente de azulejo da cidade. O restante da arquitetura de Sunévia era marcado por construções tímidas e modestas, reinterpretações do famoso sobradão. A grande maioria, pintada de branco, dava ao visitante a sensação de ser uma região de extrema luminosidade. Ali tudo era claro, esbranquiçado. Até os gatos e os cachorros nasciam com os pêlos clareados pela luz.

                    A igreja distinguia-se do resto das construções por um detalhe: em cima das portas alguns frisos beges não faziam grande diferença. Construída por interesse ao lado da casa deTedia, facilitava as práticas religiosas de sua família. Em frente ao templo, uma árvore centenária contrastava com a palidez da paisagem e espalhava o verde, o cheiro e a cor amarelada de seus frutos pelo chão. Na praça, bancos de ferro já não tinham uso. A ferrugem os comera. Nos canteiros, só areia. No meio, um sinal de modernidade; um anemômetro media os ventos e um pluviômetro media as chuvas que nunca vinham, o ano inteiro, por séculos e séculos. Uma placa reforçava a lembrança de Tedia. A tomar pelo sobrado e pela igreja, Sunévia dava a impressão de ter tido períodos de prosperidade. O barro que abundava no mangue, vegetação comum num de seus limites, fez prosperar a manufatura de cerâmica utilitária. Mas quando a indústria do plástico passou a fabricar utensílios em grande escala, essa atividade começou a desaparecer. Hoje, só se fabricam algumas peças para divertimento das crianças. O plantio do algodão trouxe também um período de progresso. Dizem os moradores que nessa época tinha até um coreto na praça. Mas com a indústria de malhas e de tecidos sintéticos, as plantações foram praticamente abandonadas. Hoje, a graça do lugar sumiu. Suas vozes estão perdidas. Ao visitante, que pensar? Inacabada ou demolida? Abandonada? Apagada? (Não, só em certas horas do dia!) Inerte seria o termo exato. Um dado concreto é que hoje a maioria dos seus habitantes vive como atravessadores do artesanato e da pesca dos habitantes da vila.

                        A fortuna de Tedia era homeopática. Herdara a fórmula de seu pai, e com o tempo, o cansaço na mão e no braço. De tudo o que acontecia na localidade, e isso ela sabia bem, ganhava uma gota. Mandara pendurar no teto do cartório um cabo de aço com um aro na ponta. Ali ela apoiava o braço para criar, assinar e assassinar documentos.

                          Muito mimada, ainda criança surpreendeu a todos defecando vermelho. Toda a redondeza se deslocou à cidade para ver a façanha. Nunca imaginaram que no meio de suas manias, ela havia passado três dias se alimentando só de beterraba, tubérculo totalmente desconhecido no lugar, que o pai trouxera de uma viagem que fizera à capital. De outra vez, o cocô saiu verde. Aí sua fama correu mundo. Viam nela poderes mágicos, porque defecava colorido. Nunca quiseram saber se ela tinha ou não comido tinta de rodapé ou esmalte cintilante. Filas e filas de gente aglomeravam-se todas as manhãs na porta de sua casa para ver a nova cor de suas fezes. A conversa diária era “enfezada”. Formas e texturas alimentavam a fantasia das pessoas, que criavam até cores que não existiam.

                       Assim começou a fama de Tedia, que cresceu como princesa e tirana, respeitada e temida pelas pessoas que acreditavam em seus poderes extraordinários. Às vezes ficava dias e dias calada, não saía de dentro do quarto. Passava o tempo chupando o dedo. Cabeça baixa, olhar meio de banda, elíptico. Atribuíam isso a uma fase de contato com seus talentos.

                         Se resolvia freqüentar a escola, aprendia tudo com facilidade. Relatos afirmam que com 11 anos arrebatava palmas e lágrimas, quando nas festas escolares recitava “Espumas Flutuantes”, de Castro Alves. Depois de moça, um de seus passatempos era criar sapos. Usava um cacimbão abandonado no quintal de casa como criatório de seus “pets”. Uma vez por ano soltava-os nas ruas da cidade, que ficavam atopetadas desses bichos, que apesar de enxotados, teimavam em entrar nas casas. Seus habitantes toleravam a praga como sinal de algo sobrenatural. Porque Tedia sabia tudo, podia tudo.

                           Contam que certa vez toda a população foi acometida de estranha doença: febre, enjôos, amarelidão. O mal só foi esclarecido quando a insônia de alguém descobriu que à noite ela visitava os quintais das casas e urinava nas cacimbas, infectando (fertilizando) a água potável da cidade. Mas Tedia não era má, era apenas dotada de poderes e talentos. Estando de veneta, sabe-se lá com que intento, espalhava os restos da comida de seu prato nas portas das casas.

                             Mas se por um lado demonstrava intenções nem sempre claras, ninguém resistia a seus encantos. Os sunevianos jamais se esqueceram dos acenos de seus braços, que pareciam multiplicar-se só para sentir o sorriso de alguém para ela.

                              A maturidade deixou-a muito gorda, e como sentia muito calor andava quase despida, sem que ninguém a censurasse. No máximo, se iam à sua casa, ela se apressava e dizia: – Espera aí, que vou vestir uma roupa. Você me pegou desprevenida!

                            Sua morte repentina comoveu a todos. Como a escassez de água não permitia aos sunevianos o cultivo de flores naturais, eles passaram dias e noites fazendo coroas de papel para enfeitar seu túmulo. Quando cumpriram o pesar de sua morte, eles dormiram. E tiveram todos o mesmo sonho: o de que ela voltava. Nua, escondendo suas “partes” com a mão que tanto a caracterizava. Vagava pelas ruas cavalgando um imenso búzio. A partir daí os habitantes de Sunévia esqueceram-se de si. Tentando recordar as faces de Tedia, esperavam que o sonho se repetisse.

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Capítulo V

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                 Uma rua só. Assim era a vila dos pescadores. Numa ponta gravitavam os sentimentos e as virtudes elevadas, e na outra as desprezíveis. Numa o curral, lugar onde moram as quengas; na outra uma pequena igreja soterrada pela areia, motivo de tristeza e desgosto dos moradores que rezavam e pediam aos santos para que os ventos movessem a duna e desterrasse a casa de Deus. Exatamente no meio do estirão de palhoças e casinhas simples, um aglomerado de coqueiros quase encobria uma modesta construção de palha que dava um pouco de contraste à atmosfera deserta do local. Na única parede de alvenaria, a pintura de uma praia de mares verdes com um céu azul rodeava a figura de uma sereia “ancuda”, coberta por escamas cintilantes. No chão, um balcão improvisado vendia, entre outros, ungüentos para ativar as alegrias ou amenizar seus efeitos; cachaça, zinebra, “Conhaque de Alcatrão de São João da Barra”, “Sal de Frutas ENO” e pílulas de “Benzetacil”. Do lado de fora, uma “radiadora”, do alto de um tronco de coqueiro, anunciava musicalmente o pecado, mediando pelos ouvidos as duas partes da rua:

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Debo a la luna el encanto de mi fantasia,

Y a tu mirado el dolor y la melancolia.

Quiero decirte mi trivial canción.

Quiero cantarte señora tentación.

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                    Era ali que Ane e One moravam. Suas vidas eram limpas e brancas como a cal que pintava as frentes das casas de seus pais. Como as folhas de papel onde elas aprendiam a escrever. A areia ardente, a vegetação seca e a intensidade da luz que descoloria até suas roupas reforçavam essa sensação.

                     Não sabiam nem ouviam falar de seus antepassados. Como invocá-los, se ninguém lhes falava deles, se as conversas passavam sempre ao longo de seus ouvidos? Elas imaginavam que todos tivessem morrido afogados, e seus corpos houvessem sido comidos pelos habitantes dos mangues. Ao contrário de Sunévia, ali ninguém tinha sonhos. Ora! Como sonhar, se não tinham memória? Mas Ane e Ona sonhavam. E seus sonhos eram povoados com palavras, sussurros, restos de conversas que o vento trazia a seus ouvidos. As fisionomias é que não se delineavam totalmente.

                      Ouviam histórias de pescadores, sereias, peixes enormes, de manobras malfeitas no do mar que resultaram em desastres. Ouviam seus pais conversarem com outros pescadores. No meio do mar se guiavam pelo sol, pelo vento, pelas estrelas e as manchas na lua. Falavam que as sereias convidavam os pescadores a tomar banho com elas e os puxavam para o fundo do mar. A imagem pintada no bar aparecia em suas mentes, e elas se perguntavam como seriam as outras sereias, seus maridos e seus filhos. Por que queriam carregar os homens para o fundo do mar? Imaginavam a angústia de alguém sendo arrastado para o fundo do mar, sem possibilidades de salvação.

                     Ali, as pessoas corriam todas as tardes à praia para ver a chegada das embarcações. E elas iam também. Conheciam-nas pelo nome. Acompanhavam atentamente a contagem dos peixes. O olhar intransigente do dono da jangada ficava marcado em suas memórias. Além disso, sabia-se que ele ficava com a maioria deles. Seriam tratados, arrancadas-lhes as guelras, e depois enviados para a cidade. De repente apareciam cachorros, gaivotas e urubus que disputavam suas entranhas. O sangue escorria até o mar como pequeno riacho róseo assemelhando-se a véus. Tudo cheirava a maresia e a peixe. Para a população da vila, ficavam os menos nobres. A mãe fazia sempre uma sopa de cangulo. Dizia que era bom para os ossos. Enquanto se alimentavam, elas então pensavam nas letras e nas palavras. Tinham desenhado muitos “Ss” no exercício de caligrafia e achavam a letra parecida com as ondas do mar. Ossos! Tanto S e tanto O! Só duas letras! Assim como a água e o sal da sopa, pensavam. Sua casa era sóbria, limpa, sem ranhuras. Tudo branco! Até os canecos de alumínio eram areados até ficarem reluzentes como um espelho. Até apagar os enfeites. Na sala, uma foto numa moldura oval, pouco lembrava seus pais. Tinha sido encomendada a alguém que passava vendendo o serviço.

                      Suas raízes começavam ali. A mãe, labirinteira, aprendera a confundir a vida com os labirintos; tudo branco e trabalhado, mas geométrico. Tornaram-se como as folhas do mangue ou o capim das dunas; ásperos, na medida, para não perecer! Mas apesar de sua pele ressequida e tostada pela claridade do sol, deixava escapar resquícios de zonas ardentes. Às vezes, desaparecia de casa. As meninas já conheciam o ritual e acompanhavam-no até de olhos fechados. Sabiam que estava no banho pelo cheiro do sabonete “Eucalol”. Sua cor esverdeada lembrava o caminho de árvores verdes e compridas estampado no papel que o embrulhava. Depois, a partir do velho espelho trincado, a casa rescindia ao cheiro enjoado do óleo “Glostora”, que lhe dava brilho ao cabelo. O resto da saga era contada por odores de batom, rouge e pó “Royal Briar”.

                      Elas soletravam o nome e se perguntavam: “Bri-ar”. Por que não “Brilhar”? Por último, a carteira amarela de cigarro “Astória” na bolsa…e desaparecia. Só voltava no outro dia. Em seu lugar ficava uma tristeza sem nome, uma dor que não sabiam definir. Preferiam que ela estivesse em casa. Como um pouso. A ausência convidava seus pensamentos a voar e a se perguntarem: que sentimento é esse que não tem nome? Que mundo é esse que existe por tudo e não existe por tão pouco? Deitadas na rede, esperando o sono, elas ouviam pedaços de uma canção trazida pelo vento…

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Boneca cobiçada,

Das noites de sereno.

Teu corpo não tem dono,

Teus lábios têm veneno.

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                    Esperavam-na. E eram tantas luas que vinham e iam… branca, amarela, grande, saindo lá longe, subindo até ficar pequena, deixando um rio de luminosidade no mar. Às vezes escura, furtiva, se escondendo entre as nuvens.

                    O pai, quando não estava no mar, juntava-se aos outros pescadores e ia consertar as redes de pesca furadas, puídas. Frágeis como suas histórias que falava das recordações de Tedia ou de algum adultério na madrugada! Em alguns casos também desaparecia na noite. Era seu costume, pois era pescador. Parecia normal, apesar de as meninas não entenderem. No outro dia ouviam a mãe comentar com as amigas que ele tinha chegado em casa “truviscado”. Que é isso, interrogavam-se. Seriam aqueles olhos trêmulos? Como se houvesse uma gelatina entre nós e ele? Aí se lembravam da música que tocava na “radiadora” e que falava de alguém cruzando mares de loucura. Em silêncio, pediam para o pai não naufragar o viver.

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Capítulo VI

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                Chegar à escola era uma aventura. As crianças se orientavam pelo mar e pelo sol. Caminhando uma atrás do outra, feito caravana no deserto. Na ida, o calor era amenizado quando elas arrancavam as folhas dos pés de carrapateira e usavam-nas como sombrinhas. Os arbustos tinham nascido ali por acaso e depois eram regados a pedido de Tedia, para que as pessoas da vila pudessem usar as folhas como proteção. O restante da vegetação era quase nulo. Só uns poucos pés de capim cujas folhas ressequidas pelo sol e pelos ventos mais pareciam alfinetes. De ser vivo, os calangos e as tijubinas verdes se movimentavam sorrateiramente, como se fossem espíritos dunáticos.

                   Aqui, acolá, um pequeno oásis; uma touceira de salsa contrastava com o branco da areia. De manhã, suas flores estavam bem abertas, e naquele dia Ane e Ona pararam e arrancaram da areia uma rama bem comprida. Retiraram todas as folhas, deixando só o talo. Era para fazer uma corda e pular no recreio da escola. Tinham aprendido a pular “de passeio” e estavam aprendendo o “de pimentão”. Morriam de inveja das meninas maiores, que já sabiam como ficar de joelhos enquanto a corda levantava.

                    Caminharam um pouco e avistaram a “selada” no meio das folhas de um outro ramo de salsa. Ona procurou na areia quente um graveto de pau para espantar a cabra que vagava solitária, à procura de comida. Ane logo correu para juntar-se à brincadeira. Assustado, o animal saiu em disparada, parando um pouco adiante. Balançou o rabo, esticou o pescoço, lançou um olhar exclamativo assim meio de banda. Parecia dizer: Sossega, menina malina, que ainda tenho muita história pra contar! Tendo atingido seu objetivo, elas saíram rindo e conversando. Conheciam a fama da cabra que se acostara um dia na vila e nunca se soube quem era seu dono. As labirinteiras contavam que certa vez estavam com muita encomenda para entregar na cidade e tentaram amarrar alguns pacotes no lombo do animal para ver se ela poderia levá-los e assim amenizar o peso deles para as cara metade. A tentativa foi em vão. O bicho terminou em disparada, esperneando, jogando tudo no chão, pisando e defecando em cima dos bordados. A encomenda teve que descer as dunas e ser lavada, novamente engomada e passada a ferro para ser entregue. Interessadas nas letras e nas palavras, as meninas soletravam mentalmente: “se-lo” e “ce-la”! E se perguntavam: é “selada” ou “celada”?

                      Chegavam à escola quase na hora da chamada, feita no início da aula. Curioso era as crianças serem reconhecidas pelos nomes dos próprios pais: Liduína, Maria da Fátima, José, Socorro, Maria das Dores, Iracema, João, Luzia e outros, moradores da vila. Lucivaldo e Miraneide eram filhos de Lucineide e Valdomiro e moravam em Sunévia. Laurenir e Iraldo, filhos de Lauro e Iranir, eram vizinhos de Rósevel e Roselma. Os gêmeos Assenauer e Adenauer eram filhos do padeiro; e Jussiê e Jessuí, filhos do sacristão. Todos morando na cidade.

                       Escolher o nome de seus descendentes de forma assim tão peculiar parece ter sido incutido na cabeça dos sunevianos pelo exemplo de Satino. Ele ganhou “status” de grande inteligência, por ter afirmado certa vez que o nome “Iracema”, do romance de José de Alencar, não tinha origem indígena. Fora construído a partir da reorganização das letras do substantivo “América”. Além disso, sabia de cor partes da “De Bello Gallico”, de Júlio César. Apesar de não saber nada de latim, isso bastou para afamá-lo. A lenda de seu casamento com Tedia tem momentos marcados pela comentada sensibilidade intelectual desse homem. Dizem que se apaixonou não só pela beleza da jovem, mas desde o dia em que a viu declamando num sarau doméstico.

                         É evidente que o casal tinha muitos interesses em comum. A ópera era um deles. Tanto que, como expressão de sua generosidade, Tedia presenteou os habitantes da vila com a “radiadora” e com uma coleção de discos de ópera. Todos os dias às 6 horas da tarde – e especialmente na Sexta-Feira Santa – a transmissão era exclusiva. As vozes de Gösta Björling, Enrico Caruso e Nikolaj Gedda enchiam os ouvidos indiferentes de pescadores e labirinteiras da vila.

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La donna è móbile

Qual piuma al vento,

Muta d’accento e di pensier.

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                   Satino escolheu também o nome de seus três filhos; Ohnos, um menino que morreu logo ao nascer, e duas meninas conhecidas como “as Eugnas” (Eugnira e Eugnara).

                    Se depois que Adão e Eva foram expulsos do Paraíso, os homens tiveram que trabalhar para ganhar seu sustento, Satino fugia à regra. Nunca precisou disso! Envolvido em apostas de brigas de galos, passava o dia inteiro jogando damas com amigos (o farmacêutico, o chefe da guarda policial e outras autoridades) no oitão da igreja em frente à sua casa. Depois que a água da cidade foi inutilizada pela urina da esposa, passou a defender a idéia de que Sunévia estava localizada em cima de um rio – o “Felb”– que nascia no quintal da casa de Tedia e era afluente direto do “Po”. Assim, o lugar onde encontrava os amigos era estratégico, por ser o único caminho para o “Loniru”, chafariz que construíra e presenteara à comunidade. Qualquer pessoa que passasse com água por ali deixava um tributo em sua mão. Curioso é que logo após a morte de Tedia e Satino, o tal rio secou.

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Capítulo VII

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                    Levadas pela curiosidade, Ane e Ona resolveram um dia desviar o caminho de volta para casa e caminhar um pouco adiante, atingindo a rua da cidade. O material escolar, carta de ABC, tabuada, caderno pautado, papel almaço para as provas, lápis com borracha na ponta, caderno de caligrafia vertical, o de desenho e a caixa de lápis de cor eram vendidos na loja de Dona Aula. Isso era o bastante para responder à curiosidade das meninas, que faziam de tudo para se aproximar da figura de olhar inquieto, conhecida tanto na vila como na cidade. Quando não estava por trás do balcão atendendo apressadamente à clientela, costumava ser vista correndo de um lado para o outro da rua, de pés descalços e usando um vestido esvoaçante. Um enorme colar de pérolas falsas que ondulava com o movimento leve de seu corpo completava a indumentária. Parecia uma bailarina. Mas de repente desaparecia dentro de casa. Ia ouvir a novela “O direito de nascer” num rádio de galena que, de transmissão tão rudimentar, só ela escutava o amor entre “Isabel Cristina” e “Albertinho Limonta”. Saía de dentro da caixa de charutos “Suerdieck”, passando pela metade do fone de um antigo aparelho telefônico, indo até os ouvidos da moça. Em cima da caixa, um pedaço de metal curvo tocava numa superfície escura, a pedra. O sussurro da transmissão parecia inundar de mais leveza sua figura. Depois, se não tivesse clientes, saía novamente para seu giro cada vez mais leve e distante.

                       Os vizinhos não se surpreendiam com seu comportamento. Ao contrário, ela era perfeitamente aceita e assimilada pelos sunevianos. Ali tudo corria dentro da normalidade, pois a claridade excessiva retirava qualquer resquício de “drama” das coisas. Depois das extravagâncias de Tedia, tudo o que era estranho tornou-se habitual. Ser excêntrico era norma. Ela foi menina quietinha e gostava de estudar. Os pais protegiam-na demais. Ficou assim “atubibada” depois que extraiu o “dente queiro”, lá pelos quinze anos, diziam. Com o tempo montaram essa loja para ela, acrescentavam outros.

                         Para as duas meninas, ser ou não ser “atubibada” não significava nada demais. O que elas apreciavam era o balançar do seu colar de pérolas, o movimento da seda do seu vestido e a leveza silenciosa de seu passeio na rua, como se fosse uma borboleta sobrevivente. Ficavam ali no balcão, com olhares compridos, até ela mesma convidá-las para entrarem e ouvirem um pouco a transmissão do rádio. Chegavam no intervalo da novela e escutavam: “Segunda, terça, quarta. Sabonete Palmolive. Quinta, sexta, sábado. E domingo, Palmolive”.Um coral feminino fazia “cosquinhas” passeando pelos ouvidos das meninas.

                    – Agora sou eu, dizia One, tomando o pedaço de telefone de Ane!

                     Em 14 dias, mais beleza pra você, vocêêêê!

                     “Você” soava enfático. O coral floreava dengosamente a palavra. Era o tempo de Anereagir e pedir novamente a sucata. Deixa eu agora: “Com Palmolive!” O “jingle” terminava com uma voz masculina aconselhando: “Palmolive-se dos pés à cabeça!”.

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Capítulo VIII

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                  O sol estava mais frio, e o caminho para casa mais ameno. Poderia ser feito entrando na vila pelo lado oposto ao da igreja soterrada. O “Corrente”, aquele pequeno riacho que desembocava no mar, transbordava pela manhã, impedindo sua passagem. Mas no fim do dia podia ser atravessado com água no meio das pernas, encurtando a viagem e sobrando tempo para brincadeiras na praia. Antes disso, porém, elas foram seduzidas por um passatempo mudo. Àquela hora as mulheres da vila estavam todas acocoradas em cima das pedras, lavando roupa. Enquanto tagarelavam, ensaboavam e esfregavam as roupas, deixando na água fios cinzentos que saíam de cada pedra rumo ao mar. Depois, torciam-nas para tirar a água e estender na cerca que fazia limite com as terras de Tedia. Cheias de vento, as roupas pareciam balões que balançavam nos arames da cerca.

                    Por aquela trilha, as casas eram na maioria feitas de palha. A ambiência era calma, pelo menos na hora em que as meninas passavam. Mulheres em pé ou sentadas às portas das casas, como se não conhecessem o tempo, estimulavam a curiosidade das duas amigas. Quem são essas mulheres, se perguntavam. E por que elas moram aqui? Mamãe falou que elas rolam nas palhas e no mangue, não foi, Ona? É, mas elas nos espreitam, piscam os olhos e erguem as sobrancelhas como todas as mulheres da vila, Ane! E mexem os quadris como mamãe, resumiu Ona, calando-se.

                    Crianças sem roupas, circulando na areia, se escondiam quando viam estranhos. As barrigas crescidas davam a seus corpos o desenho de um “S”. As meninas olhavam e imaginavam que aquelas barrigas pareciam um globo terrestre. Instantaneamente as imagens do dia em que brincavam com o mapa na parede da escola vinham à mente. Então, que países seriam aqueles nas manchas de sujo daquelas barrigas? Quem sabe, ali naquele mapa encontrariam Sunévia, já que ela não se encontrava no mapa da escola? –Tinham visto nas revistas uma reportagem sobre a Índia, onde se viam fotos de crianças indo à escola, todas arrumadinhas. Vestidos limpinhos de dar inveja. Perguntavam-se por que as crianças da vila não eram como aquelas da revista; olhos grandes e cabelos negros. Penteadas com laços e tranças… Comparavam com suas próprias roupas e seus próprios cabelos. Entreolhavam-se e sabe-se que bem que gostariam que não fossem desgrenhados, secos, com as pontas esbranquiçadas como raízes de Ipepacoanha. Imaginavam que as crianças da Índia também dormiam e sonhavam, mas com barcos dourados. Com vestidos prateados como o daquela Iemanjá suntuosa nascendo das águas que estava pendurada na parede da casa de uma daquelas mulheres.

                       Depois de passarem pelo Córrego e pela ponta da rua, iam para a beira da praia. O mar estava mesmo lá longe. Mandava pequenas ondas rasteiras que se espalhavam em direções perpendiculares pela areia, formando um cortinado terminando com bicos de espuma nas pontas. Quando a onda voltava ao mar deixava a areia brilhante, quase um espelho. Numa espécie de capricho ou compulsão, elas pisavam para vê-la ficar fosca. A areia minava água como se dissesse: essa é minha dor, mesmo que esteja dura!

                        O barulho e as gotinhas que iam parar em seus rostos se misturavam à brisasinha agradável e amenizavam o calor. Aqui, acolá, elas davam com pequenos arrecifes que guardavam maravilhas; as cacimbinhas com água morna. Aí esqueciam o tempo. Divertiam-se observando os pequenos peixes nadando, os pequenos crustáceos que se escondiam entre as pedras. Os siris que corriam abrindo buracos e se escondendo. A água a balançar as algas verdes que cresciam como cabeleiras, agarradas às pedras. Aí elas remetiam seu pensamento às sereias. Quem sabe seria a água que penteava seus cabelos? Não precisavam de pente nem doía para pentear. Cada vez que a onda vinha, era outro penteado. Nada a ver com as indianas e seus cabelos educados, cuidados e vigiados. O desejo de ser sereia era momentâneo, não se fixava. Os pássaros correndo na areia lhes chamavam mais a atenção. Uns caminhavam alternando as pernas e outros, ao contrário, saíam pulando com as duas ao mesmo tempo. Elas riam desse comportamento e continuavam observando-os.

                     Chegavam em casa com as mãos e os pés brancos e engelhados de tanto permaneceram na água. Não achavam nada demais! O mundo delas era mesmo brando e branco, pois a luz intensa desbotava tudo. As coisas mais coloridas eram as toras de madeiras que empurravam as jangadas e que elas ouviam ranger. As roupas escuras dos pescadores, tinturadas com murici ou caju. As conchas róseas que colhiam para brincar, fazer desenhos ou um imenso caminho cheio de curvas e caracóis.

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Capítulo IX

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                As mulheres da vila conversavam muito quando estavam sentadas no chão, trabalhando com suas telas de madeira. Ali se sabia de tudo. Evidente que a figura de Tedia e sua família animava sempre qualquer conversa. Cada uma enfeitava mais os fatos sobre os personagens da cidade. Parecia que faziam labirintos não só com as mãos, mas também com as palavras. As meninas faziam de conta que estavam alheias às conversas, quando na verdade estavam atentas a tudo. Sabiam que as Eugnas (Eugnara e Eugnira), sobreviventes da família de Tedia, eram as atravessadoras dos trabalhos das labirinteiras. Recebiam os trabalhos, pagavam-nas, entregavam outros panos (já cortados e desenhados) e instruções para a nova entrega. Sabiam que elas eram solteironas. Não saíam de casa, porque eram muito medrosas e escrupulosas com relação ao contato com as pessoas.

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(La Condessa)

Eu não dou as minhas filhas,

no estado em que elas estão.

Nem por ouro, nem por prata,

nem por sangue de Aragão.

(cavaleiro)

Tão alegres que viemos,

E tão tristes que voltemos..

Que a filha de La Condessa,

Nós daqui não a levemos.

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                 O mundo das labirinteiras ia aos poucos se fazendo conhecer para Ane e Ona. Percebiam o que aquelas mulheres esperavam delas. Aprender a paciência, pois suas vidas dependeriam dos labirintos. Para isso, precisavam treinar primeiro a observação. Assim observavam a lâmina finíssima da tesoura que cortava o fio do tecido, bem na confluência do fio contrário. Teriam de aprender a retirar esses fios, desfazê-los e refazê-los. Sabiam que aos poucos aquilo iria se transformar numa atividade sem mistérios. Suas vidas seriam reinventadas através de furos, linhas, fios, cortes suturados, desenhos misteriosos que só apareceriam depois de terminados. Seus destinos seriam cobrir o nu, disfarçar o feio, contrastar o igual, recortar o grande. Fazer quadradinhos maiores, furinhos com linha mais grossa. Tudo miúdo, mas pesado, medido e contado. Tudo transformado em destino puro, concentrado, conformado. Toalhas, colchas, lenços e blusas, que lavados e engomados secariam ao sol e depois seriam passados como desde o início dos tempos que se perderam na memória. Mas nada daquilo permanecia muito tempo preocupando-as. De repente, tudo virava brincadeira. Elas se escondiam no meio daqueles panos estendidos nos varais, se tocavam para saber quem eram. Colavam seus rostos para se esconderem uma da outra e se lembravam do recreio na escola.

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(cavaleiro)

Assentai-vos aí, menina,

a cozer e a bordar,

Que do céu te há de vir,

uma agulha e um dedal.

Quando eu for ao Maranhão,

Hei de trazer-te um bom cordão.

Se não for de ouro fino,

Há de ser de um bom latão.

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                    Quando se cansavam, se recolhiam em seu mundo particular e pensavam: Que cavaleiro é esse que promete um cordão de latão? Que em vez de levar a filha de “La Condessa” para o rei, faz é viajar para o “Maranhão”? E onde será que fica esse “Maranhão”? Será que a jangada do meu pai passa por lá? Passeando juntas, confidenciavam-se olhando os barcos que passavam na linha do horizonte. Imaginavam-se com um cordão de latão no colo. Quem sabe, penteadas como as indianas de tranças. Na areia, desenhavam os anagramas e as flores dos labirintos como se fossem sonhos. Mas elas os esqueciam. As marés os apagavam. Eram sem importância.

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Capítulo X

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               Às vezes, Ane e Ona se queixavam da excessiva claridade da vila e da ausência de árvores ou descanso. Sinto meu corpo cansado, as juntas grossas, os olhos ardendo, dizia uma delas. Aqui tudo é imensidão, luminosidade ou escuridão. Não tem meio termo. É ardor de sol o dia inteiro, completava a outra.

               A claridade da região era tanta que virava banalidade. Descansar debaixo da árvore da praça de Sunévia, principalmente quando estava no período de floração, fazia parte das inúmeras aventuras das meninas. Na praia, gostavam de brincar com suas sombras. Observavam quando elas se tornavam mais compridas, mais gordas. Mais para um lado, deformada, ou para o outro. Dependendo da hora do dia, quase não existiam. Restava uma pequena e divertida sombra. Não conheciam uma mata, uma floresta. Só o mangue e o mar. Mesmo assim, imaginavam uma sombra grande e farta, diferente da sombra rala dos coqueiros no centro da vila. Diferente da sombra das árvores do mangue, enterradas na lama, com raízes enormes e folhas de verde sujo!

                Tinham um projeto surdo que aos poucos foi clareando em suas cabeças. Talvez essa necessidade tivesse sido despertada quando olharam a revista da escola que tinha uma reportagem sobre a Índia. Praias sombreadas, mares tranqüilos e azuis. Quem sabe, tinha sido reforçada pelas estampas da caixa de sabonete “Eucalol”. Duas filas de árvores bem altas que pareciam se unir no infinito, formando um imenso túnel verde.

                   Elas mesmas nem sabiam de onde vinha essa necessidade. Até se questionavam: que falta é essa, que não tem nome? Que desejo é esse que não se define, não se cala nem se satisfaz? Que passa de sonho para brincadeira e para o sério em forma de armadilha? A falta passou da alma para o corpo, e elas procuravam essa pequena sombra até debaixo das folhas de carrapateira que retiravam para caminhar ao sol, quando iam pra escola. No fim, tentavam encontrá-la até debaixo das folhas das salsas. Mas nunca encontravam. E foram esquecendo o corpo e a alma. De tanto procurarem, começaram a se achar um bicho minúsculo e esquecido, que podia descansar até na sombra agulhada das minúsculas folhas dos capins que cresciam nas dunas. Mas isso também não lhes deu descanso.

                   Um dia, imaginando como seria uma floresta, elas resolveram construir uma a seu modo. E fizeram uma miniatura. No princípio foi difícil concebê-la, até encontrarem no lixo uma caixa de sapato vazia. Com a tesoura de lâmina fina dos labirintos da mãe fizeram várias pranchas recortadas em pedaços de papel de seda. Imaginaram que, com os recortes, elas imitariam árvores. Colaram as pranchas no sentido vertical da caixa. No lado menor do retângulo fizeram um buraco redondo para ter por onde olhar. Cobriram a parte de cima da caixa com as penas dos pássaros que comiam as vísceras dos peixes na praia. Entre as que eles soltavam, escolheram as que ficavam por baixo da barriga, por serem mais crespinhas e macias. Finalmente, a caixa foi pintada de verde por fora. Estava pronta a floresta. Olhavam pelo buraco e mal acreditavam no que viam. Era verdade! Lá estava uma floresta acolhedora, úmida, onde a claridade não era uma banalidade, mas jogo entre luz e sombra, nuances, surpresas. Espaço para andar, escutar pulsações, sussurros e gemidos. Fugir do cotidiano, reinventar a vida. Até riam uma para a outra querendo saber se tinham realmente conseguido fazer aquilo tão lindo!

                      De tanto se imaginar ali dentro, a floresta inventada muitas vezes crescia, saía de dentro da caixa, ficava enorme, invadia o mundo e as envolvia! O melhor de tudo isso era o segredo! Aquela coisa que fora feita por elas, era só delas e só elas entendiam o porquê daquele lugar. Parecia um milagre! Por isso decidiram que ela deveria estar escondida! Mas onde, se em casa tudo era às claras? Decidiram então que esconderiam o invento no meio das redes de pescar do pai, amontoadas num canto da cozinha. Ali ninguém descobriria. Mas quem disse que ficaram tranqüilas? Nada disso! Saíam para a escola contando o tempo para voltar e olhar no buraquinho! Iam brincar, mas interrompiam a brincadeira para ver a pequena floresta. Mais pareciam uma galinha choca, pastorando o ovo até nascer.

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Capítulo XI

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                 O vento nada fazia para descobrir a igrejinha da vila, e a população sentia que aos poucos sua fé desaparecia. Para encontrá-la, o único caminho era andar até a cidade. Na igreja de Sunévia, a missa era sempre ambientada por um enorme coral de miados. PorAnésia e seus gatos. Com suas caudas levantadas, roçavam nas pernas das pessoas, que simulavam não se incomodarem. Ane e Ona, sorrindo uma para a outra, se olhavam e se confidenciavam: o cuzinho dos gatos parece com as flores de salsa quando estão murchas! E são tão limpinhos, acrescentavam. Engraçado é que fazem cocô e não precisam se limpar! Feito a gente!

                A velha prostituta que errava pelas ruas de Sunévia costumava sempre ir à missa em companhia dos felinos que abrigava. Sem moradia fixa, andava sozinha pedindo comida para ela e seus gatos. Dormia em construções inacabadas. Parecia querer impregnar e perpetuar, com seu esquecimento, o futuro da cidade. Quando as construções terminavam, arrumava outro pouso. Assim levava a vida. Apesar de sobrevivente da época áurea da localidade, frustrava quem quer que quisesse saber do passado. Anésia e Sunévia já não se reconheciam. Os olhares se cruzavam, mas num momento em que não se conseguia detectar, se desviavam e não se fixavam. Aqui, acolá, ela era mencionada em conversas masculinas como alguém “abirobada”. Teria tido um bordel no período fausto da cidade, que só era freqüentado por pessoas importantes da capital.

                A fé, no entanto, sobrevivia também na figura de Tedia, especialmente entre suas filhas. Mesmo sem sair de casa, não faltavam à missa. Da janela do casarão assistiam a toda a celebração. Sabiam toda a liturgia. Colocavam mangas compridas nos braços, cobrindo-os dos vestidos usuais, véus nas cabeças e ajoelhavam-se na janela como se estivessem dentro da igreja. Nos tempos em que Tedia era viva, a janela ficava mais alegre depois da missa, com sua figura acenando com os braços para cumprimentar as pessoas que passavam na rua. Suas filhas eram menos exuberantes, embora muito devotas. Cada uma tinha em seu quarto um pequeno santuário, onde guardavam as imagens dos santos e também dinheiro, orações e segredos. Durante a quaresma, faziam jejuns e sacrifícios. Dormiam os 40 dias em cima de um baú, com um tijolo debaixo da cabeça servindo de travesseiro. Às sextas feiras não falavam com ninguém, do nascer do sol até seu declínio às 18h . Ninguém achava estranho duas mulheres amanhecerem de cara fechada, como se estivessem com raiva. As Eugnas eram daquele tipo de pessoa que tinha conseguido o privilégio de poder viver suas manias sem serem importunadas. Seus medos de contato e de sujeira eram tantos que seguravam o dinheiro do pagamento das bordadeiras com um pegador de roupa!

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Capítulo XII

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             Naquele dia, as meninas foram brincar na praia. Atravessaram as dunas. O sol batia forte, e o vento levantava a areia formando uma nuvem, impedindo a visão da linha no horizonte. Os grãos de areia batiam em seus corpos como pequenos alfinetes. Estavam loucas para chegar na água e aliviar-se. Com suas pernas magras saltaram logo metade dos arrecifes. A pedra arenosa e a superfície porosa e acidentada não as amedrontavam. Tinham a segurança de quem tem olho para as distâncias entre uma rocha e outra. Além disso, a sola dos pés agüentava qualquer temperatura ou aspereza do sol. Pisavam na água com força, para ouvir o barulho e ver os respingos no ar.

                Na curva que levava ao Corrente notaram um filete de água rosada que vinha escorrendo em direção ao mar. Levantaram a vista até perto do mangue e deram com umas mulheres lavando lençóis. Observaram que batiam nos tecidos com um bastão grande de madeira. Por último, torciam os panos. O fato chamou-lhes a atenção porque conheciam bem aquelas peças. Elas vinham de sua casa. Pertenciam à sua mãe. Lembraram-se imediatamente da cena da volta das jangadas lá no outro lado da vila. Daquele filete de sangue em direção ao mar. Pareciam véus de diferentes tonalidades de vermelho, que saíam das entranhas dos peixes e se sobrepunham uns aos outros na água. Uma sensação estranha tomou conta delas, quando se lembraram da disputa dos bichos por suas guelras. Será que o sangue e a carne dos peixes eram da mesma cor do sangue e da carne da mãe, perguntaram-se.

                  Chegando em casa encontraram uma mulher que já tinham visto algum dia, na cidade. Sabiam que morava numa casinha pequena e que na porta tinha uma cruz branca pintada. Aqui, acolá, alguém a chamava de “cumade”. Naquele momento vestia uma criança. Entenderam ali o porquê dos lençóis. Dias depois eles voltaram brancos como as nuvens, as folhas de escrever na escola e os labirintos. Apesar de nada comentar com as filhas, elas intuíam que sua mãe estava diferente; mais gorda e roliça. A partir daquele dia, armaram suas redes na sala. Só às vezes iam no quarto, observá-la cuidando da criança. Trocando sua roupa, limpando aquela massa amarela fedorenta da bundinha dele e preparando o banho com a bacia de alumínio areado. Espelhando! A mãe colocava a mão várias vezes na água, para avaliar a temperatura. Devagar, ensaboava primeiro as mãos e depois passava na cabeça e no corpo da criança, como se fosse uma coisa frágil. Tirava a espuma com mais cuidado ainda. Levantava-o cuidadosamente da bacia e com um pano enxugava dedinho por dedinho, dobrinha por dobrinha, rosto, costas. Depois era hora de, com uma pluma, espalhar talco “Ross”. Finalmente colocava a outra fralda.

                    O tempo passava, mas nem a mãe nem elas percebiam. Sentada na rede, abria o vestido, tirava o peito e começava uma nova atividade. As meninas olhavam para o bico dos seus próprios peitos e comparavam com o bico do peito da mãe. Achavam-no imenso. Parecia uma bolacha queimada cheia de furinhos ao redor. O menino parecia atolar o rosto naquela bola fofa. O pensamento delas era levado novamente para o Corrente, lá onde o sangue brincava de véu com a água. Será que elas também iriam sangrar como a mãe? Perguntavam-se se um dia seus sangues também iriam formar véus para o Corrente e perderem-se no mar. Será que iriam sentir dores? Olhavam para seu rosto e procuravam em sua expressão a memória dessa dor. Como será essa dor nela, agora nesse momento? E varriam o medo para fora do foco das preocupações porque ainda faltava muito tempo para que isso fosse acontecer… Queriam saber por que o quarto se conservava escuro. O que a mãe ficava fazendo ali dentro o dia inteiro. Saíra do seu cotidiano e entrara num tempo diferenciado, a que elas não tinham acesso. Isolara-se. Estava a serviço de si e do menino. Interessante observar como as outras mulheres a protegiam. Que mistério pairava no ar, como se elas tivessem sido excluídas da atmosfera da casa? Estavam enciumadas. Sentiam também a ausência dos homens. Percebiam bem a solidariedade das amigas, quando traziam comida para a mãe. Todo dia pirão de peixe. Lembravam dela mesma dizendo: é bom para os ossos!

                    À noite ouviam um choro muito delicado, quase imperceptível. Sabiam que a mãe o faria calar-se. Depois de alguns dias, ela saiu pela primeira vez de casa. Pediu para AneOna olharem a criança.

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Cala a boca menininho,

Que tua mãe foi passear.

Quem tem filho não passeia,

Pro menino não chorar.

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Capítulo XIII

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              Um dia, enquanto jogavam pedras, elas tiveram uma discussão. Vamos, é você quem começa, falou uma delas. A de um, a de dois, a de três, a de quatro, o troca, pensava e executava a seqüência. “Peraí”, deixa eu arrumar as pedras e colocar os dedos na posição. Fazia força para manter a mão feito um arco no chão, jogando as pedras para cima e depois chutando dentro do arco. Arre! Consegui! Agora vamos ao chuveirão; esse é fácil. É só fazer bem baixinho, perto do chão, para as pedras não caírem. A amiga olhava atentamente para ver se não havia algum erro. Ao mesmo tempo vislumbrava que pelo menos essa rodada estava perdida para ela. Agora só falta a quarta última. Pronto, dei de “chupetão” em você. A outra demonstrou tristeza. É, mas no palha você triscou uma pedra na outra! Não trisquei não, senhora, retrucou, defendendo-se da acusação. E se isso aconteceu, por que você não disse na hora?

                  Começou a discussão. Brigaram feio! Tocaram-se os dedos. Pediram para outra amiga separá-las. Se maldisseram e não queriam mais ser amigas. Saia daqui! Vá embora! Rasgue tudo o que tenho de mim com você!(Ficaram de mal!).

                    Fatigadas da disputa, adormeceram. E tiveram um sonho. Um só, ao mesmo tempo, para as duas. Caminhavam por uma floresta e uma figura se aproximava e lhes dizia que elas brigavam porque eram uma só. Que eram emendadas por um laço que estava dentro delas. Isso significava que tudo o que uma sentia afetava a outra. Acordaram apavoradas. O que significava aquilo? Quem seria aquela figura? A partir dali passaram a observar cada mulher que encontravam em seu caminho. Percorriam, com os olhos e as lembranças, as faces e a voz de cada uma. Até aquelas que moravam no fim da rua. A primeira suspeita caía em Tedia. Elas morriam de medo de se encontrarem algum dia com ela, pois sabiam que aparecia nas noites, apavorando os sunevianos. Seria a professora Zula, que ensina tudo? As bordadeiras, que refazem os panos, que enchem os olhos de branco? Talvez fosse a sereia do bar, que chama os homens para o fundo do mar, a Iemanjá que tinham visto em retrato nas casas de palha do fim da rua ou a mulher nua em cima da concha, que está detrás do espelho da mamãe.

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(cavaleiro)

Esta eu quero, esta eu não quero.

Esta come o pão da ceia,

Esta carne do espeto.

Esta o vinho da galheta.

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              Encolhidas, tomaram cada uma um canto. Então somos emendadas? Onde, quando e por quê? E agora, o que será de nós? Com o tempo – e até como defesa – elas passaram a duvidar do sonho. Poderia ser uma armadilha. Aos poucos as brincadeiras apagavam o medo. Além disso, não entendiam bem aquela história de “emendadas”, se continuavam separadas, comentavam, após fazerem as pazes.

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Capítulo XIV

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                 As meninas estavam excitadíssimas. Iriam ajudar a levar os labirintos a Sunévia, sentirem-se parte do grupo das labirinteiras, ouvir-lhes as conversas, partilhar do seu mundo por inteiro. Além disso, teriam a emoção de conhecer o mundo de Tedia. A expectativa era tamanha que durante a caminhada nem sequer se queixaram do sol, do calor ou do cansaço. Perto do sobradão, a curiosidade estava estampada em suas faces, fotografando com os olhos todos os detalhes do cenário. Enquanto a mãe conversava sobre os labirintos, elas corriam o olhar em tudo, como se ali fosse um palácio encantado. O ambiente limpo, as duas moças, a serviçal. Escutavam e gravavam o som do assoalho do corredor que ecoava surdo, mas rangia quando andavam Os móveis antigos, os retratos dos antepassados, os bibelôs em cima de panos de crochê, as cadeiras de balanço estilo “Taunay”. As camas cobertas com colchas bordadas. Ali era realmente a terra não só das coisas, mas das palavras bonitas e com muitas sílabas; candelabros, parapeitos, balaustradas, varandas, treliças, filigranas. Rapidamente, os termos foram transbordando em suas mentes: pináculos, meteoritos e até solstícios e equinócios e tudo mais que lembravam sem cessar. Até cheirava a “patchouli”, mesmo que não soubessem o que era!

                     Das filhas de Tedia, Eugnara colecionava miniaturas de Coca-Cola, revistinhas e figurinhas de Walt Disney, que pintava e colocava na cristaleira da casa. A outra fazia bonecas sob encomenda. Curioso é que esta não tenha herdado de sua mãe o medo desse brinquedo, pois se sabe que Tedia entrava em pânico quando via esse objeto. Suas filhas nunca tiveram bonecas quando crianças. Só depois que a mãe morreu, Eugnara desenvolveu essa aptidão. Ane e Ona chegavam perto da caixa onde elas eram fabricadas, para ver os pedaços do corpo e as roupas. Eugnira ia combinando uns com os outros, costurando até formar o todo. Os rostos eram feitos de dezenas de camadas de uma massa de papel que ela colocava em cima de um molde, deixava secar ao sol e fazia a pintura dos rostos. Um dia, as bocas eram reveladas. No outro apareciam ruborizadas e finalmente os olhos começavam a enxergar. As duas meninas observavam fascinadas aquela fila de caras encostadas na parede do quintal da casa. Depois de secarem, eram colocadas as tranças, os laços e o vestido de fitas. No fim, ficavam bem comportadinhas, sentadinhas em cima de uma cama esperando serem acomodadas numa caixa e enviadas para a capital.

                        Para elas, apreciar aqueles objetos pequenos guardados dentro da cristaleira – e desejar todas aquelas bonecas – já valia a pena a visita. À tardinha, antes de voltarem à vila, as moças davam um prato de suspiro a cada uma: branquinhos como a lua, leves como as nuvens. E se desmanchavam na boca como as ondinhas que vinham da praia e derretiam os desenhos e os castelos de areia que as duas faziam. Era lua com gosto de nuvem, sabiam. Mas a aventura ainda continuava.

                        Eugnara também tocava sanfona. Elas gostavam de acompanhar seu ritual. Primeiro trazia a caixa escura do quarto. Abria, retirava o instrumento e com aquelas correias fortes pendurava-o nos braços. Depois, desabotoava as travas de segurança. Ane e Ona ficavam de olhos fixos observando cada movimento dos dedos da moça, impressionadas com a seqüência dos acontecimentos. O fole abria-se em forma de leque, enquanto a mão escolhia somente dois no meio daquele tapete de botõezinhos, que combinavam com o que ela iria tocar. Vinha o movimento de retração do fole; a volta do leque de cabeça pra baixo. Fon, fon-ón-fon/fon,fon,fon,fon. O som começava a sair lentamente dos dedos da outra mão no teclado. A melodia se arrastava…meio sonâmbula. O ritmo parecia diluído, sem precisão, sem identidade. Só Anuda, lá na cozinha, dava vida à performance de Eugnara, cantando enquanto amolava a faca para cortar o peixe para o jantar.

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Se você me encontrar pela rua,

não precisa mudar de calçada.

Faz de conta que somos estranhos,

E que nunca entre nós houve nada.

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                        Elas não tiravam os olhos e os ouvidos do que estava acontecendo. A experiência era como se estivessem ouvindo a música de um castelo de cristais e “musselines” douradas de verdade. Eugnara mudava os botões, e a música se transformava, abrindo as portas de um novo ambiente do castelo.

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Capítulo XV

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               Anuda dizia ter sido criada pela família, mas nunca falava no passado. Era muito calada, muitas vezes até mal-humorada. Só abria a boca para cantar. Vivia da cozinha para seu quarto, lá nos fundos do casarão. Só saía de casa duas ou três vezes por ano, para ir à igreja. Nesse dia se transformava. Vestido limpo e cheiroso e sapatos que pela falta de uso maltratavam seus pés. Na mão, um véu preto, velho e puído, que lembrava a rede que os pescadores consertavam quando estavam de folga; e uma sombrinha que guardava no baú como jóia. E lá ia ela falar sua língua calada com Deus.

                  As meninas adoravam o cheiro de suas roupas e seu quarto arrumadinho e acolhedor, mas Anuda não queria muita conversa com elas. Parecia que não tinha tempo a perder. Quando terminava o dia, tirava o cachimbo e umas peles de fumo guardadas numa latinha redonda, picava-as, arrumava-as e com os dedos empurrava-as cachimbo adentro. Sentada num batente do quarto, ela o acendia e, olhando para o alto, dava baforadas. Abria seu baú e começava a arrumá-lo. As duas olhavam de soslaio para a tampa e descobriam velhos cartões-postais pregados com casais se olhando apaixonados. Quem sabe ela era assim quando era moça, pensavam.

                      Entre as mulheres da vila, corria a conversa de que Anuda tinha sido moça formosa. Gostava de dançar. Tudo teria mudado depois do nascimento de Waldisney. O nome fora sugerido pelas Eugnas, que o mimavam demais. Crescido sem rédeas, vivia solto na rua, enchendo o mundo de pernas. Gordo, entediado e preguiçoso para estudar. Dava a impressão de total indiferença com relação à mãe, que aceitava calada, como se tivesse perdido uma batalha. Também! Quem agüenta fazer um menino à força, diziam as mulheres da vila! E principalmente num dia da festa do santo, enquanto Tedia e as filhas assistiam à missa? Algumas aumentavam a história comentando sobre o mistério da momentânea surdez das três mulheres, enquanto toda a cidade ouvia a pobre criatura gritando por socorro. O pior é que ninguém desconfiava que ela estava “buchuda”, comentava uma delas. É, mas ela escondeu o tempo todo a gravidez com um prato de ágata amarrado na barriga, para que não se soubesse de nada, acrescentava outra. As meninas, fazendo que não escutavam as conversas das mulheres, cantavam baixinho a canção da hora do recreio na escola.

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(cavaleiro)

Volta aqui bom cavaleiro,

Para ser homem de bem.

Escolhei neste convento,

Aquela que vos convém.

Vós levais a minha filha,

veja o trato que lhe dão.

Do pão que o rei comer,

ela também comerá.

Do vinho que o rei beber,

ela também beberá.

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                 No quintal, uma pequena construção redonda lembrava um imenso peito. Elas chegavam perto da boca do forno e quase entravam cabeça adentro, imaginando que era dali que saíam aquelas “gotinhas” esbranquiçadas e gostosas! As festas da igreja estavam perto e Anuda se preparava naquele dia para fazer as “estrelas do norte”, biscoitos deliciosos que vendia para coletar dinheiro para os santos. Com suas economias mirradas, comprava a farinha de trigo, a manteiga e os ovos. As meninas inventariam qualquer coisa para estar por perto e ver todo o processo. Encher o forno de lenha e tocar fogo. Quando estivesse quente, juntar as brasas para um lado e para o outro, deixando o caminho livre para a assadeira com os biscoitos.

                   Anuda quebrava os ovos em duas partes, olhava se não estavam “goros” e colocava-os dentro de uma cavidade feita no montinho da farinha transparente, com o centro amarelinho. Sabiam do nojo que dava de ver a manteiga ser misturada à farinha e aos ovos. Melavam as mãos. Aos poucos iam se desgrudando e dando liga na massa. Exclamava olhando para elas: é preciso trabalhar a massa!

                          E haja amasso!

                           Amassamassamassamassamassamassamassamassamassa!

                         Três letras, pensava Ane. Mais do que água e sal da sopa de cangulo, imaginava. Viam Anuda jogar um pouco de sal e perguntavam: Pra quê? Para quebrar o excesso de doce do açúcar, respondia. A resposta colocava as meninas em contato com suas inquietações. Que mundo é esse onde as coisas não podem ser saboreadas por inteiro? Onde é preciso “quebrar” o doce com o sal? Onde a indefinição é a norma? Onde tudo é velado, encoberto por um véu de incerteza?

                          Alheia ao mundo de pensamentos das meninas, Anuda estendia e esticava aquele tecido amarelado na mesa da cozinha, com o auxílio de uma garrafa. Sempre cantarolando baixinho alguma coisa que as meninas não entendiam, iniciava a próxima etapa, a mais excitante: o recorte da massa com uma carretilha. Antes, vazia como as dunas, agora dava lugar à criação de peixes, bonecos, estrelas, flores. As meninas observavam maravilhadas. Para elas, Anuda era realmente uma grande desenhista.

                             Passavam a desejar e a imaginar uma enorme carretilha para reproduzirem os desenhos de Anuda, quando brincavam na praia. Finalmente eram colocados em assadeiras velhas, tão bem areadas que pareciam espelhos. Eram levados até o “peitão” e deixados algum tempo. Só aí é que começavam a cheirar. Enquanto isso elas gastavam sua ansiedade andando devagar pelo quintal da casa, dando conta dos mínimos detalhes do ambiente.

                             Assamassassamassassamassassamassassamassa! Os biscoitos estavam prontos! Eram retirados das assadeiras e colocados cuidadosamente dentro de latas. As sobras que saíam quebradas ou mais tostadas eram delas.

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Capítulo XVI

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                     Deitadas na areia da praia, elas olhavam para o céu onde a luz do sol transformava as nuvens em capuchos de algodão claros e brilhantes. Olha ali aquela nuvem, como parece com um velho, observava Ona. Ane olhava uma outra formação de nuvens que se transformava muito devagar. Aquela lá parece um monte de carneirinhos, não? Descansavam assim, vindas de outra brincadeira. Tinham colhido pedrinhas no mar e separado-as em dois grupos: maiores e menores. Redondinhas e lisas. O objetivo era fazer dois jogos de cinco e brincar no chão de cimento da escola. Absortas em seu mundo de fantasias, nem se davam conta do mundo. De repente, um pequeno ruído assustou-as. Um desconhecido tremulava um sorriso para elas, escondendo as mãos dentro da roupa. Assustadas, identificaram sua fisionomia com o olhar de seu pai, quando estava “truviscado” e parecia um desconhecido para elas. Num segundo reconheceram que o encontro com aquele olhar era não só estranho, mas assustador. Tudo aconteceu muito rapidamente, e antes que pudessem se levantar, ele desapareceu. Olharam-se apavoradas e não conseguiam dizer nada à outra. Seria verdade? Naquele momento, que lhes pareceu eterno, pensaram não ser só amigas, mas uma só. A sensação era de que a pancada de uma onda forte lhes derrubara deixando impressa em seus corpos a sua força. Engoliam tudo no seco! Pensavam o tempo todo naquela cena, sentiam como se suas vidas, que eram brancas e limpas como as nuvens e as dunas, a espuma do mar e as colchas de labirinto que a mãe fazia, e as folhas de papel onde aprendiam a ler, tivessem sido manchadas. Na verdade, se sentiam falta de cores, não era com aquela lembrança que queriam colorir suas vidas.

                        Com o tempo, passaram a experimentar um sentimento contraditório. Se por um lado aquela visão as unia, parecia que também as separava. O medo as deixava estranhas entre si. É que era algo tão aterrador que não tinham como conversar uma com a outra. Não sabiam como começar, como dar nome às coisas, como dividir algo tão terrível! Aqui, acolá, perguntavam-se solitariamente: quem seria aquele homem? O que ele realmente queria com aquele sorriso parvo? Queriam afastar a lembrança do encontro dos olhares, do tremor de suas mãos escondidas, mas não conseguiam; a pergunta permanecia. Quem seria e onde ele estaria?

                        Disfarçadamente observavam as figuras masculinas por toda a parte, mas o horror era tão grande que não conseguiam ter certeza de nada. A visão do ocorrido não desaparecia de suas vidas. Até quando tomavam o papel branco para escrever na escola, de repente aparecia lá, misteriosamente, aquela mancha escura. Estava lá! Grande! Maior do que o papel! Maior que Sunévia, maior que o mapa, porque tirava parte da inteireza da vida. Como então estar por inteiro aprendendo as palavras, os números? Como olhar para D. Zula, se seus olhos mostravam a cena? Sentiam-se diferentes dos outros. Talvez menores.

                     Na praia, não se demoravam mais apreciando a carreira dos pássaros no espelho da areia. A figura poderia aparecer, imaginavam! Olhavam as cacimbinhas, e desaparecera o sabor de brincar com os peixinhos e com os moluscos. Poderiam de repente refletir aquele olhar por trás de sua imagem. Não olhavam mais o horizonte, porque para elas aquele homem poderia aparecer de repente lá em cima de uma duna; enorme, aspecto desleixado, barba por fazer, com aquele riso meio irônico, fazendo pouco delas. Estavam sempre assustadas e um pouco solitárias. Era a estação das chuvas, e uma nuvem sombria e triste estava sempre sob o céu, cobrindo o sol e os caminhos. As marés eram fortes e arrastavam a areia da praia. O vento soprava frio, contraindo seus músculos quando iam pra escola. Quando a chuva apareceu, o céu ficou escuro. Veio o trovão e o aguaceiro. Estranho! Essa umidade é a areia molhada de água que cai do céu e não que vem do mar, pensavam. Nunca tinham imaginado que na praia poderia chover. E era deprimente! Como se as poucas cores da vida tivessem perdido a definição. As conchinhas róseas, as pequenas sombras, o roxo das flores de salsa e os frutos da árvore da praça de Sunévia. Os barcos desapareceram do horizonte, que ficou vazio, infinito… Tudo era inexpressivo, sem gosto ou cheiro. Era só presságio e aflição sobre a alma. Um nó na garganta sem ter quem ajudasse a desatá-lo. No fim, elas se sentiam não só manchadas, mas também machucadas.

                         Um dia, no recreio da escola, estavam sentadas conversando e repentinamente sentiram um forte arrepio. Tudo ficou escuro. Elas suavam e tremiam, a ponto de quase desfalecerem. A cena do dia em que provaram algodão-doce na praça da igreja de Sunévia veio à tona. Tão intenso, leve como as nuvens, branco como as folhas de papel. Mas agora parecia um bocado de sal, selvagem, que alimentava a ferida e a dor. Como fluxo de consciência perguntavam-se que medo é esse, tão grande que não sabemos definir? Ao chegarem em casa, o medo foi acrescido da solidão. A mãe estava de saída. Mas como contar, se tinha sido ela mesma que comprara a guloseima para elas?

                       Na pequena prateleira em que colocava o óleo, o batom e o rouge, viram que o espelho estava trincado e de cabeça para baixo, deixando à mostra o desenho da mulher despida, de cabelos compridos e avermelhados. Ah! Então era aquela figura que não deixava o espelho se espatifar de vez.

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Capítulo XVII

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                      Era um momento de calma. Nada planejado. Cada qual com um graveto desenhava peixes na areia. Quero um bochechudo, com a boca pequena e bicuda, Ane! Pois eu não: quero um com raiva. Olhos arregalados e dentes de fora, Ona!

                      As ondas vinham apenas perto de seus desenhos. Mas uma delas acusou a outra de ter deixado seu graveto cair e ser levado pela onda. Começou a chorar e viçou irritada. Novamente se maldisseram, juraram-se jamais se falar. Discutiram, disseram-se grosserias, rasgaram as roupas uma da outra, destruíram seus brinquedos. Se bateram e se feriram. E os ferimentos foram tão graves que ficaram inflamados, cheios de pontinhos purulentos amarelados. Doíam feito alfinetadas. À noite, quando se deitavam, eles latejavam exatamente no ritmo das batidas do coração. Tinham medo dele sair por ali. A situação piorava porque não podiam contar uma com a outra; ainda estavam intrigadas. Com a inflamação veio a febre; depois, o delírio. Um emaranhado de imagens que antes se definiam totalmente, transformavam-se em outras. As palhas de um coqueiro que ficava perto de sua janela viravam asas imensas, que se desmanchavam em mantos escuros. Os gritos terríveis que ouviam não se completavam.

                        Por fim, os olhares assustados foram se afastando e olhares mais tranqüilos se aproximaram. Os gritos se transformaram em vozes rezando baixinho e tudo se acalmou. Apareceu um jardim em frente a uma casa branca que lhes parecia familiar. Uma sombra agradável como a que elas mesmas haviam construído com a caixa de sapatos. Depois caminharam e entraram numa sala misteriosa, como as harmonias do samba-canção que tinham ouvido no sobradão. Ali encontraram algumas mulheres. Caladas, trabalhavam com as mãos. Uma delas se aproximou e falou: nós somos as expelidas, as desovadas, as desembuchadas, as despejadas! Nossa! Que palavras enormes, falou Ane. São polissílabas, exclamou Ona.

                         Uma outra mulher se aproximou e disse: fomos concebidas na lama do mangue. Uma outra falou, chegando perto das meninas: também fomos crianças e sonhávamos. Também queríamos brincar e ser felizes, nos preparar para crescer e nos tornarmos gentis. Mas fomos vendidas, compradas, trocadas, capturadas, raptadas, não sabemos por quem! Entre elas, estava a figura do sonho anterior. Ela se aproximou, confirmando o que já havia dito: se elas queriam deixar de brigar, teriam que se separar. Para isso teriam que andar muito. Fazer uma viagem, longa, por terras e mares. No fim, desatar um laço que as ligava. E o laço que formava uma letra. Uma letra e um laço, perguntou uma delas. Sim, respondeu a figura. Mas como, perguntou a outra. Durante a viagem, respondeu. É claro que perderão coisas, advertiu-as. Perturbadas, se olharam e se perguntaram se valeria a pena o desafio. Enfim, o que perderiam? Mas as dores e as manchas roxas no corpo eram tantas, e em tal profundidade, que mesmo não acreditando muito no que o sonho dizia, preferiram fazer a tal viagem. A figura desapareceu, aconselhando-as a saírem antes que a luz da vésper aparecesse. Ora, mas já está quase na hora, falaram assustadas. Os galos já estão cantando! Não vai dar tempo nem de trocar a roupa. Saíram com a roupa do corpo porque não deu tempo sequer para a preparação.

                       Logo no início se depararam com uma tempestade de areia que apagava mapas e direções a ponto de perderem a memória. Tudo ficou coberto de branco, sem uma trilha ou rastro para guiá-las. A luminosidade foi aumentando. Dias e dias de luz intensa. Não enxergavam nada. Punham a mão na testa tentando fazer uma pequena sombra nos olhos para ver se enxergavam algum sinal do caminho, e nada… Para completar, tudo mudou: uma intensa escuridão. Subiram e desceram seis rios e três cadeias de montanhas de areias negras, cheias de símbolos enigmáticos. Um lamaçal fétido apareceu à frente de seus olhos. Para atravessá-lo precisavam caminhar naquela gosma escura, com as pernas enterradas até o meio. Ai que nojo, exclamou uma delas! E que árvores enormes, acrescentou a outra. É que tinham que passar por baixo de suas raízes. Pareciam estar num labirinto sem saída.. Lá pelo meio, viram pedaços de corpos humanos sendo comidos pelos caranguejos.

                         Enganchado numa das inúmeras raízes submersas, viram dois braços e uma cabeça que com o movimento das águas pareciam acenar alegremente para elas. Aproximaram-se, e como parte do rosto já tinha sido comido pelos bichos, ele parecia realmente sorrir. O mais aterrorizante é que seus dentes eram pontiagudos como os dos peixes. Que horror!

                      Seus cabelos tinham virado algas verdes. O ambiente era abominável! Cheio de odores, uivos, blasfêmias, suspiros e gritos amedrontadores. Continuando a viagem, passaram por precipícios escorregadios, pedras lodentas, desfiladeiros e abismos. Encontraram outras bestas-feras de olhar cataléptico, que uivavam e salivavam com o odor de suas carnes. Elas tremiam de medo! Aterrorizadas, perguntavam-se se conseguiriam ir até o fim, se não era melhor desistirem… Mas a verdade é que já estavam longe demais para voltar. Caminharam, caminharam e então apareceu um mar de sangue imundo, obsceno, ignóbil. Que palavras difíceis de pronunciar, dizia Ane. São paroxítonas, esclarecia Ona.

                       Olhavam para si e comentavam: meu vestido está num estado deplorável, falou Ane!E esses furos malignos, como vou conseguir chegar até o fim, continuou. Que palavrões você usa! Onde aprendeu tudo isso, perguntou Ona. Lá no dicionário, aquele que fica lá na estante da D. Zula, esclareceu a amiga.

                           Sozinhas, se agarraram uma a outra e choraram de medo, cansaço, solidão, desespero e desamparo, até que mesmo navegando no sangue entraram num grande túnel. Lá mais pra perto do final começaram a aparecer pequenos seres desconhecidos. São pequenos peixes, disse uma delas. Não! Que despautério, respondeu a outra. Já meio desesperadas, Ane perguntou: eles têm tentáculos? Não! São até acéfalos, respondeu Ona. Parecem coágulos, acrescentou. Ora, coágulo é palavra proparoxítona, pensaram instantaneamente as duas. Atordoadas por causa da fadiga da viagem e das dificuldades enfrentadas, quase iam esquecendo das instruções do sonho; o laço, a letra…

                  Olha lá! São dois coágulos emendados! Pega eles! Rápido!

                   Um gesto e o som de um pequeno clique…

                    O susto despertou-as.

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Capítulo XVIII

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                   Vés-per-vés-per-vés-per-vés-per-vés-per-vés-per-vés-per-vés-ti-dos, sussurravam em seus ouvidos, tentando acordá-las. O recreio tinha sido realmente muito movimentado. Todos os alunos tinham aproveitado o tempo para enfeitar o pátio da escola para as festas de final do semestre. Cansadas, Ane e Ona tinham cochilado sentadas nas carteiras. Os colegas fizeram uma brincadeira. Aproveitaram e amarraram entre si os laços da cintura de seus vestidos e depois nas próprias carteiras. Elas abriram os olhos, olharam em sua volta e viram que toda a classe olhava pra elas e ria. Tentaram disfarçar o desapontamento, espreguiçando-se. Olharam-se e desataram também a rir. Sabiam o que cada uma tinha vivido e aprendido. Na volta da escola notaram que o sol voltava a enfiar sua luz pelas frestas das nuvens. Na areia da praia relembravam seus sonhos, desenhando-os. Primeiro um grande laço em forma de “M”. Depois colocaram seus nomes de um lado e de outro do laço.

                       Olha! disse Ona. AneM Ona! Aquela flor lá do meio das pedras nas cacimbinhas.D. Zula falou que ela é a primeira flor que nasceu no mar. Ela se encolhe quando é tocada, acrescentou Ane. Fica como o cuzinho dos gatos e como as flores de salsa quando murcham. Ha! Ha, Ha!

                          E continuaram a desenhar, descobrindo e inventando palavras com “M”. M de Mamãe, M de mulher, M de menina, de malcriada, de maltratada, de mal-ouvida, malvada, enquanto a maré vinha e apagava tudo. Lá na vila, a radiadora realizava o desejo de Tedia; a “Hora do Ângelus”.

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O’ douleur, l’avenir nous separe!

Et d’effroi mon coeur est tremblant..

Un tourment trop cruel me devore à jamais!

Est-ce que donc fait de mon bonheur.

Ah! comprends ce regard qui te implore,

Qui voudrait flechir ta rigueur!

Le remords, tu le vois, me devore, à jamais!

Ne peux-tu sauver mon bonheur.

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Por: Mércia Pinto, 2006

00SELO

DE LABIRINTOS E VÉUS
Notícia publicada em: 2006, June 04 @ 23:53:21 BRT
Tópico: Literatura

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