Sinais e Símbolos, de Vladimir Nabokov

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<<Imagem: “A KNIGHT ON THE TOWN” de: Julian Cloran>>

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Vladimir Nabokov, “Signs and Symbols”

SINAIS E SÍMBOLOS

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 Tradução não-autorizada, feita por Jansy.B.S.Mello, exclusivamente para o Aeternus.

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– I –

Comentários de Luiz Fernando Gallego 

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                O eixo familiar, os laços de sangue (e de afeto) são dissecados no conto “Sinais e Símbolos” em uma linguagem de bisturi, cortante, sem pieguice nem afetação, mas capaz de afetar um coração de pedra com um mínimo de dois neurônios. Este conto dói, como dizia  Bergman, como uma dor de dente na alma. A psicose (com prognóstico sem esperança) do filho daquele casal devastado pela idade, pobreza, reveses da vida, velhice – e o próprio casal – são de derreter os olhos em aluvião que arrasta tudo e faz pensara existência como um purgatório sem céu.

 

                     Retomando as críticas de Jansy Mello ao pensamento de Freud, sobre a elaboração do luto, que se faria por meio do abandono aos investimentos no objeto perdido para reinvestir-se em novos objetos, como forma de elaboração “saudável”.  Como ela, eu também não acredito em tal  substituição tão mecanicista. Pode ser com objetos-coisasque investimos com nossa libido narcísica: roupas que gostamos de usar e desbotam com o tempo e lavagens freqüentes, livros que perdemos, LPs  que precisam sersubstituídos por CDs. Mas com pessoas de relacionamento significativo?!  Acredito que durante o luto inicial não se consiga investir em novas catexes em novas relações; eque até mesmo os investimentos em antigos objetos fiquem “em banho-maria”, num limbo. Mas acho que quando investimos em novos objetos, o que se faz é criar novascatexes, “produzir” mais libido nova para novos investimentos, porque a memória do objeto investido que foi perdido fica (e Freud dava tanta importância aos resíduosmnêmicos!) e fica de modo mais ou menos forte. Irá empalidecendo mais ou menos com o tempo, mas acho que o que se perde com o objeto e que também dói muito é o próprio investimento que vai de roldão com a perda do objeto.

                   Para mim, isto é fácil de pensar se aceito a proposta de Kohut de que a libido investida no objeto não é “objetal” porque investe em objeto e a libido não é “narcísica” porque foi investida no Eu. Ao contrário da ideia freudiana e de todas as demais escolas psicanalíticas, segundo as quais, o investimento narcísico será sempre inversamente proporcional ao investimento objetal, Kohut achava que havia “libido de qualidade narcísica” por si mesma que é investida em selfobjetos, experimentados inicialmente como”parte do Eu” e , com o tempo, podendo ser aceitos como selves independentes, com autonomia própria e necessidades de um modo geral análogas às nossas. Claro que esteprocesso nunca se dá nem total ou completamente pois haveria sempre uma vivência meio-eu-meio-o-outro” – e quando o outro marca a diferença radical pela morte ou desparecimento de qualquer tipo, sempre vai com o outro um “pedaço de mim” que não volta mais.

                   O filho psicótico é uma perda irreparável para aqueles pais e o filho mesmo quer morrer ou “fazer um buraco no mundo e escapar” como teria dito um médico (cretino ao dizer que era uma “obra-prima de inventividade” por parte do psicótico).   Quanto ao quadro clínico descrito, não tenho dúvida de que se trataria de um quadro grave de esquizofrenia paranóide: a descrição é tão boa quanto um relato clínico real pode ser em casos semelhantes, nem tão raros como teria sido dito pelo tal Herman Brink.

                  A úncia relativa peculiaridade estaria no fato de não envolver pessoas reais nos delírios: as percepções delirantes (que encontram significados que ninguém mais encontra) está centrada em coisas da natureza: nuvens transmitindo sinais entre elas sobre o próprio rapaz, “seixos ou manchas ou marcas do sol” transmitindo mensagens que ele(provavelmente de modo desesperado) tentava interceptar, superfícies de vidraças ou poças de águia parada, casacos expostos em vitrines, até mesmo água corrente ou tempestades, “até mesmo o ar” que ele expira – tudo, enfim, está misturado com um self tão fragmentado – ou até mesmo prévio – ou fusionado com a natureza que devassa sua intimidade.

                      Mas, a rigor, apesar da intensidade e generalização absurdamente horrorífica das vivências descritas, o fenômeno básico – do ponto de vista fenomenológico de Jaspers – é perda da “Consciência do Eu” no sentido da oposição Eu-NãoEu.  Para Jaspers, as alterações da Consciência do Eu eram bem notáveis nos processos esquizofrênicos:
                  Perda da identidade do Eu (“Eu não sou o Fulano como você me diz, eu sou outra pessoa: Napoleão, Jesus”, pouco importa, a identidade ao longo do tempo “muda”, perco a noção do eixo temporal longitudinal do eu-mesmo);  perda da unidade do Eu (“Tá bom, você me diz que eu sou o Fulano, mas é que eu sou o Fulano e ao mesmo tempo sou Cristo”, perda do eixo transversal no tempo: não sou um, sou dois ou vários ao mesmo tempo); perda da atividade do Eu (“Não sou eu quem está escrevendo, é uma força que vem de Saturno que me faz escrever”) – as vivências de influência que o Tausk também descreveu; e a perda dos limites Eu-NãoEu que podem incluir as sinestesias deste rapaz do conto, por exemplo, assim como a “publicação do pensamento” que ele também apresenta: “seus pensamentos mais íntimos eram discutidos ao cair da tarde por obscuras árvores gesticulantes”. Tais fenômenos reduzidos à sua expressão mais simples são os mesmos descritos pela fenomenologia psiquiátrica, embora a subjetividade de cada sujeito possa “colorir” de modo idiossincrásico tais distúrbios formais de pensar, sentir, modo de ser e estar no mundo e consigo mesmo.

                         Os “conteúdos” dos delírios podem ser os mais variados: a particularidade relativa deste rapaz seria não investir de percepções ou interpretações delirantes as pessoas á sua volta, o que é (até bem) explicado pelo delírio “de grandeza” subjacente aos delírios de perseguição: (“exclui pessoas reais desta conspiração porque se considera mais inteligente do que os outros homens”). Mas raramente alguém vai ser perseguido “por nada”: na loucura, há método! Uma idéia paranóica de grandeza, quase sempre traz “a cavalo” a perseguição pela grandeza: não se crucifica qualquer um, só um Jesus, um “Deusfeito homem”; a CIA, Máfia ou KGB persegue quem acha que tem alguma não pequena importância; os marcianos só enviam mensagens para superdotados com sensibilidadetelepática, etc e etc. O rapaz também deve sofrer alucinações auditivas, no sentido de que ele escuta as informações detalhadas sobre ele que as nuvens trocam entre elas.

                           É chocante a descrição das vivências psicóticas sobre o mundo sensorial quando o Nabokov “salta” da descrição de como o rapaz experimenta o mundo para como sua mãe percebe, sem delírios, o mesmo mundo: “os trovejares e ares poluídos do metrô”, as veias saltadas de sua mão cheia de manchas da velhice, “os alimentos pálidos” que não requerem dentadura para serem engolidos, “os chifres de saliva” entre a  dentadura retirada e a boca do velho – esta, por exemplo é uma descrição “literária” ou “poética” que- em outro contexto – poderia ser a vivência psicótica de um esquizofrênico que dissesse, assustado ou mesmo aterrorizado: “Tem chifres de cuspe saindo da minha boca, me prendendo ao meu aparelho de ortodontia! Não consigo me separar dele!!!”
 
                           Depois, Nabokov faz a mãe rever os retratos do filho quando bebê até o menino que foi aos 8 anos como já sendo “diferente”: uma expressão de surpresa no rosto de bebê, uma cara de esquilo ansioso, desenhos de pássaros com pés e mãos humanos aos 6 anos, até que não dá para considerar mais como excentricidades de um suposto mini-gênio:era um menino de 8 com medo de papel de parede (em um livro de contos que teriam em comum algo com a teoria do “Unheimlich” chamado “Freud e o Sinistro” há um conto de uma mulher que enlouquece com as visões que tem superpostas ao papel de parede do quarto) e no caso do rapaz, até mesmo de paisagens idílicas em revistas.

                     Outra coisa curiosa nos distúrbios psíquicos que o conto sugere é uma certa  indiferenciação entre o acessório e o principal, entre “figura” e “fundo”, quando o “fundo” para a maioria das pessoas ganha tanto ou maior importância do que seria a “figura” que se privilegia em destaque na gestalt da maioria das pessoas; mas é muitas vezes em cima do “fundo” percebido com conotação particular que surgem vivências estranhas que os demais custam a poder entender (como é dito da inacessibilidade da mente do rapaz às mentes normais, a dificuldade de “empatia” com a vivência de estranhamento do mundo que o psicótico passa a ter).  Enfim, li um conto cortante como um bisturi, doloroso até o fundo d’alma, com a imagem de mato e flores que serão retorcidas pela passagem do fazendeiro com corcunda simiesca na “metáfora” final: mato e flores, tudo será reduzido a uma “monstruosa treva” que transforma a ternura em loucura ou é esmagada. Meu Deus, é uma das coisas mais tristes que eu já li.

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 – II –

Sinais e Símbolos: o conto de Nabokov.

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Capítulo 1

 

                  Pela quarta vez, em uma quantidade equivalente de anos, ambos se defrontavam com o problema da escolha de um presente de aniversário para um jovem com distúrbios mentais incuráveis. Ele não tinha desejos. Os objetos manufaturados eram colméias do mal, vibrantes de atividades malignas que só ele era capaz de perceber ou, então, eram apenas consolos grosseiros para os quais não encontrava aplicação em seu mundo abstrato. Depois de eliminarem uma série de produtos que poderiam ofender ou assustá-lo (qualquer coisa na linha dos gadgets, por exemplo, era tabu), seus pais escolheram uma bobagenzinha inocente e graciosa: uma cesta com dez tipos diferentes de gelatina de fruta, acondicionadas em dez pequenas jarras.

 

                        Na ocasião do seu nascimento já eram casados há muito tempo; uma porção de anos se passou e agora estavam bastante velhos. Ela usava roupas pretas e baratas. Seu cabelo mole e  cinzento era arrumado de qualquer jeito. Diferente das outras mulheres da mesma idade (como a Sra. Sol, sua vizinha de porta, cujo rosto era todo rosa e malva de pintura facial e seu chapéu era um cacho de flores lacustres), ela expunha sua face à luz crítica dos dias primaveris. Seu marido, e que no velho continente havia sido um homem de negócios, razoavelmente bem sucedido, ficara totalmente dependente do irmão Isaac, um americano de verdade fazia quase quarenta anos. Eles o viam raramente e o apelidaram de “o Príncipe”.

 

                            Naquela sexta-feira tudo deu errado. O metrô perdeu sua corrente vital entre duas estações e, por um quarto de hora, não se ouvia nada senão a batida comportada do coração e o sussurro das folhas de jornal. O ônibus que precisavam tomar em seguida os deixou um tempão à espera e, quando chegou, vinha lotado de escolares tagarelas. Chovia forte quando ambos subiram caminhando a ladeira marrom que conduzia à clínica.  Ali esperaram mais uma vez; e, em vez do filho se arrastando para a sala como de hábito(seu pobre rosto coberto de acne, mal barbeado, emburrado, confuso), uma enfermeira que conheciam, e de quem não gostavam, finalmente apareceu e, alegremente, explicou que ele tinha novamente tentado o suicídio. Ele estava bem, disse, mas a visita poderia perturbá-lo. O local era muito mal administrado e as coisas eram misturadas facilmente, ou então, perdidas. Por causa disso decidiram não deixar o presente no escritório e só levá-lo para o rapaz na próxima visita.

 

                       Ela esperou seu marido abrir o guarda-chuva para lhe segurar o braço. Ele pigarreava de modo especialmente barulhento, como seu costume quando se sentia perturbado. Alcançaram  a cobertura da parada de ônibus, situada do lado oposto da rua, e ele fechou o guarda-chuva. Alguns passos adiante, sob uma árvore gotejante e tangida pelo vento, um filhote de ave estrebuchava numa poça de água.

 

                           Durante o longo percurso até a estação do metrô, ela e o marido não trocaram palavra;  toda vez que ela olhava para suas velhas mãos (veias inchadas, pele marcada de manchas marrons) estrebuchando, ainda agarradas à alça do guarda-chuva, ela sentia uma pressão crescente de lágrimas. Quando olhou em volta para enganchar sua mente em algo diferente, ela  ; sentiu um choque suave, uma mistura de compaixão e surpresa, ao notar que uma das passageiras, uma menina de cabelo escuro, unhas vermelhas e sujas no dedão do pé, estava chorando no ombro de uma mulher mais idosa. Com quem se parecia ela? Ela se parecia com Rebecca Borisovna, cuja filha havia casado com um dos Soloveichicks – em Minsk, fazia anos. Da última vez em que ele o havia tentado seu método tinha sido, nas palavras do médico, uma obra prima de inventividade; ele teria sido bem sucedido se um outro paciente invejoso não tivesse acreditado que ele estava conseguindo voar – e o segurado. O que ele realmente queria conseguir era fazer um buraco no seu mundo e escapar.

 

                     O sistema dos seus delírios havia sido assunto de um artigo elaborado numa revista mensal científica, mas muito antes disto, ela e seu marido haviam decifrado aquilo sozinhos. “Mania referencial” foi o nome que Herman Brink atribuiu a este quadro. Nem tais casos, bem raros, o paciente imagina que tudo que acontece a sua volta é uma referencia velada a sua personalidade e existência. Ele exclui pessoas reais da conspiração – porque se considera muito mais inteligente do que os outros homens.  A natureza fenomênica rastreava seus passos por onde quer que ele fosse. As nuvens no céu arregalado transmitiam umas às outras, por meio de lentos sinais, informações incrivelmente detalhadas a seu respeito. Seus pensamentos mais íntimos eram discutidos ao cair da tarde, num alfabeto manual por obscuras arvores gesticuladoras. Seixos, manchas ou marcas do sol formavam padrões que representavam terríveis mensagens que ele precisava interceptar. Tudo era uma cifra e de tudo era ele o tema. Alguns dos espiões eram observadores neutros, como a superfície das vidraças e poças de águas paradas; outros, como os casacos expostos numa vitrine, eram testemunhas preconceituosas, no fundo, linchadoras; outras, novamente (água corrente, tempestades) era histéricas até alcançarem à insanidade e ainda por cima, mantinham uma opinião distorcida sobre ele, interpretando com erros grotescos todos os seus atos. Era preciso permanecer vigilante para devotar cada módulo e minuto da vida para decodificar a ondulação das coisas. O próprio ar que exala será indexado e arquivado.   Se apenas o interesse que provocasse estivesse limitado ao seu ambiente mediato – mas, infelizmente, não era assim! Com a distancia as torrentes selvagens de escândalo aumentavam de volume e volubilidade. As silhuetas dos corpúsculos sanguíneos ficavam mil vezes ampliadas, flutuando sobre vastas planícies; e, ainda mais longe, enormes montanhas, de solidez e alturas insuportáveis, resumiam, em termos de granito e ao grunhir dos pinheirais, a verdade última sobre o seu ser.”

 

Capítulo 2

 

             Quando emergiram dos trovejares e ares poluídos do metrô, as sobras do dia vinham misturadas às luzes da rua.  Ela queria comprar um pouco de peixe para o jantar e entregou-lhe a cesta com as jarras de gelatina dizendo-lhe que seguisse direto para casa.  Ele subiu até o terceiro andar e então lembrou que, mais cedo, dera-lhe as chaves. Sentou-se nas escadas em silêncio, e em silêncio também se levantou quando ela chegou, mais ou menos dez minutos depois, arrastando-se pesadamente pelas escadas, rindo amarelo, balançando a cabeça como se pedindo desculpas pela tolice. Entraram no apartamento de dois cômodos e ele imediatamente se dirigiu ao espelho. Repuxando os cantos da boa com os polegares, com uma careta horrível de máscara, removeu a incomoda dentadura nova e cortou os chifres compridos da saliva que ainda o ligavam a esta. Leu seu jornal em língua russa enquanto ela punha a mesa.  Ainda lendo, comeu os alimentos pálidos que não requeriam dentes. Ela conhecia seus humores e permaneceu silenciosa.

 

                  Depois que ele foi para a cama, ela continuou na sala, segurando um baralho de cartas manchadas e uns velhos álbuns de fotografias. Através do quintal estreito onde a chuva tilintava no escuro contra latas de lixo amassadas, janelas mansamente claras mostraram-lhe  um homem de calças pretas, deitado sobre uma cama em desalinho,  seus cotovelos nus erguidos. Ela fechou as persianas e examinou as fotos. O rostinho dele estampava mais surpresa do que o da maioria dos bebês. De uma dobra no álbum a empregada alemã que tinham tido em Leipzig escorregou para fora, mais seu noivo de rosto gorducho. Minsk, a Revolução, Leipzig, Berlin, Leipzig, a frente inclinada de uma casa fora de foco. Quatro anos de idade, num parque: timidamente, de modo temperamental e de testa franzida, desviava o olhar de um esquilo ansioso, como o faria também diante de qualquer estranho. Tia Rosa, uma velhota angular, bisbilhoteira, de olhos esgazeados, que vivera num mundo tremulante de más notícias, falências,acidentes de trem, tumores  –  até que os alemães a mandaram para a morte, junto a toda aquela gente que lhe causava tantas preocupações. Seis anos de idade –  esta foi a época em que ele desenhou maravilhosos pássaros com pés e mãos humanas, e começou a ter insônia como qualquer adulto. Seu primo, agora um jogador famoso de xadrez. Ele novamente, mais ou menos aos oito anos, já criança difícil de entender, tinha medo do papel de parede no corredor, medo de uma imagem em um livro que ilustrava simplesmente uma idílica paisagem, com rochas na colina e um velho carrinho pendurado nos galhos de uma árvore sem folhas. Aos dez anos: o ano em que deixaram a Europa. A vergonha, a pena, humilhações e dificuldades, crianças cruéis, feias e atrasadas com as quais havia sido colocado naquela escola especial. E então chegou uma época na sua vida, coincidindo com a longa convalescença de pneumonia quando aquelas pequenas fobias, que seus pais teimosamente consideravam como excentricidades de uma criança prodigiosamente bem dotada, pareceram ter congelado num emaranhado de ilusões que interagiam logicamente, fazendo com que ele se tornasse totalmente inaccessível às mentes normais.

 

                Isto, e muito mais, ela aceitou – pois afinal de contas viver significava perder uma alegria atrás da outra, no caso dela nem mesmo alegrias – meras chances de melhora.  Ela pensou nas intermináveis ondas de dor que, por uma razão ou outra, ela e o marido tiveram de suportar; dos gigantes invisíveis que feriam seu filho de uma forma impossível de imaginar; da quantidade incalculável de ternura contida no mundo; do destino dessa ternura, ser esmagada, gasta ou transformada em loucura; das crianças negligenciadas murmurando consigo mesmas por cantos mal varridos; do belo mato que não consegue esconder-se do fazendeiro e impotentemente observa a sombra de sua corcunda simiesca ao passar  largar atrás de si flores retorcidas enquanto se aproxima a monstruosa treva.

 

Capítulo 3

 

                  Passava da meia noite quando, na sala de estar, ouviu os gemidos do marido. Logo ele cambaleou até a sala, usando como robe seu velho casado de gola de astracan que ele preferia ao novo roupão azul.

                     “Não consigo dormir,” ele disse.

                     “Por quê?”, perguntou, “Por que você não consegue dormir? Você estava se sentindo tão cansado.”

                      “Não consigo dormir porque estou morrendo,” respondeu e deitou-se no divã.

                   “É alguma coisa no estômago? Quer que eu telefone para o Dr. Solov?” ” Nenhum médico, nenhum médico,” gemeu. “Que vão pros diabos! Precisamos tirá-lo de lá depressa. De outro modo seremos responsáveis. Responsáveis!”, repetiu, e sentou-se subitamente, com os dois pés no chão, batendo na testa com o punho fechado.

                       “Tudo bem,” ela mansamente revidou,”vamos trazê-lo para casa amanhã de manhã.”

                        “Gostaria de tomar chá,” disse seu marido, e caminhou para o banheiro.

                       Curvando-se com dificuldade ela recolheu do chão algumas cartas e uma ou duas fotografias que haviam escorregado do divã: valete de ouros, nove de espadas, ás de espada, Elsa e seu namorado bestial.

                       Ele retornou exultante, a exclamar em voz bem alta: “Já resolvi a charada. Vamos dar a ele nosso quarto de dormir. Cada um de nós passará parte da noite ao lado dele e na outra, neste divã. Em turnos. Vamos trazer o médico para examiná-lo pelo menos duas vezes na semana. Não importa o que o Príncipe vai dizer. Não terá muito a reclamar,afinal de contas porque sairá mais barato.”

                     O telefone tocou. Era um horário pouco comum para o telefone tocar. O chinelo esquerdo saiu do seu pé e ele tateou por ele com o calcanhar e dedão enquanto permaneciaem pé no meio da sala, infantilmente, desdentado, olhando de queixo caído para a esposa. Sabendo falar inglês melhor do que ele, ela era quem atendia aos chamados telefônicos.

                   “Posso falar com Charlie,” murmurou a voz monótona de uma moça.

                   “Qual foi o número que você discou? Não. Este número está errado.”

                    O receptor foi gentilmente recolocado no gancho. Colocou a mão no seu coração velho e cansado.

                   “Levei um susto,” disse.

              Ele sorriu depressinha e imediatamente retomou seu monólogo animado. Buscariam o filho assim que amanhecesse. Facas teriam que ser guardadas em gavetas trancadas.Mesmo quando piorava ele não representava uma ameaça para ninguém. O telefone tocou pela segunda vez. A mesma voz sem tom e ansiosa queria falar com Charlie.

                       “Você está discando errado. Vou lhe dizer o que é que você está fazendo: você está girando a letra O em vez do zero.”

 

                        Sentaram-se para o chá inesperado e festivo da meia-noite. O presente de aniversário estava sobre a mesa.  Ele dava goles barulhentamente; seu rosto estava corado; de vezem quando ele fazia um movimento circular com o copo erguido para fazer o açúcar dissolver-se melhor. A veia lateral em sua calva mostrava uma marca de nascença bem visível e, se bem que ele tivesse feito a barba de manhã, pelos prateados apareciam no queixo.  Enquanto ela lhe dava mais um copo de chá, ele colocou os óculos e examinou de novo e com prazer as jarras em amarelo luminoso, verde, vermelho.  Seus lábios úmidos e desajeitados soletravam os rótulos eloqüentes: damasco, uva, ameixa deplátanos, marmelo. Ele tinha alcançado a maçã- gala quando o telefone soou novamente.

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-III-

Comentários em inglês de L.F. Gallego:

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              A Brazilian psychiatrist and psychoanalyst, Luiz F. Gallego Soares,after reading “Signs and Symbols” exclaimed: My God, such an infinity of sadness! This is one of the saddest stories I’ve ever read. According to him VN’s short-story revolves around the axis formed by family blood-ties and ambivalent affection. VN’s language is as cutting as a bistoury and the reader finds no sentimental gushings nor affectation even though the plot is still capable to cut into the hardest of hearts. He said: “This story hurts me, using Ingmar Bergman’s words,’as a tooth-ache in the soul’.” For him, the young man’s psychosis ( its hopeless prognostic) and the old couple’s ravages by age and destitution, create a purgatory that encompasses their entire life – a life devoid of hope of any kind of heavenly comfort. The boy’s psychosis represents an irreparable loss to the couple.(and even the boy wants to drill a hole and escape from the world. ..by the way, what a cretin that doctor, the one who said that his suicide attempt was a “masterpiece of inventiveness”!!!)”

                 “The clinical picture described in the story suggests ‘paranoid schyzophrenia’, something not at all as rare as that guy Herman Brink asserted. The only atypical feature derives from something about this patient’s delusions because he excludes people altogether to set the focus onto nature. This may be the result of having his self so fragmented and projected outwards that its pieces are then intermingled with the landscape. Nature can divine his innermost thoughts because they became a part of the scenery. The basic event, from a phenomenological stand-point, such as Karl Jaspers’ – is the loss of the “awareness of self” ( in the sense of an opposition between Self-Non Self). Jaspers considers that these alterations are exacerbated in schizophrenic processes and lead to: (a) a loss of identity; (b) a loss of the unity of the self; (c) a loss of the self’s independent activity ( external forcesare felt as prodding the individual into action) and (d) the loss of boundaries between self-non self ( including the sinesthaesias and the “publication of his thoughts”). These disturbances pertain to a formal dimension of being in the world and, although the boy doesn’t seem to extend his perceptions and delusional interpretations towards people, we may observe in him the presence of ideas of “grandeur” at the back of his persecutory feelings. A paranoid idea of grandeur always carries along feelings of persecution. The boy must also suffer from auditive hallucinations because he can hear the conversation that takes place in the clouds.”

                      “Nabokov presents a masterful rendering of the psychotic apprehension of the world. He achieves that mainly because he alternates descriptions about how the boy sees his environment with his mother’s normal daily routine (at least, as it reaches the reader through the narrator). There are no delusions there but her world teems with foul and thunderous emanations from the underground. The pale victuals and tusks of saliva appear in an almost poetical way – whereas for a psychotic the same image might have suggested that “these tusks are coming out of my mouth and they tie me to my dentures”. When she looks at the pictures of her son, already different from any other babies she remembers his fears about dangerous images in a wallpaper and in an etching. I was reminded of “The Yellow Wallpaper” (1892) by Charlotte Perkins Gilman. In this story, like in VN’s, there is a merging of background and figure, a fusion of its main theme and the rest.”

                 “How the background is perceived by an abnormal mind teaches us learn about the sick boy’s visions. Contrary to what usually happens in routine life when the “figure”, not the “background”, is invested with meaning, in them it is the background who seems to move. This is a story of profound grief and pain, full of weeds and flowers mangled by a troglodyte farmer who introduces the monstruous darkness that shall transform tenderness into madness or crush it out altogether.”

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– IV –

Comentários de Jansy B. S.Mello (originalmente incluídos em um debate com outros estudiosos de Nabokov e recortados para o Aeternus sem uma organização especial )

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                  Lines that illustrate certain shifts in narration, the sequence of “she,he,they,etc”.

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Part 1:

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Friday morning, or early afternoon:
(a) they were confronted…He had no desires…his parents…
(b) they had been married…Her drab gray her..She wore…Her husband..They seldom saw him…
(c) That Friday… one could hear nothing…the bus they had to take, a nurse they knew…
(d) She waited for her husband…He kept…They reached…
(e) She and her husband did not exchange a word…she felt…As she looked around…a girl, old woman, she resembled…
(f) The last time he ( the sick boy) had tried to do it…What he really wanted…
(g) The system of his delusions…long before that she and her husband had puzzled it out…Herman Brink…In these very rara cases the patient imagines…he excludes…he considers…His inmost thoughts are discussed…Everything is a cipher and of everything he is the theme. Some of the spies…( now we, as readers, are no longer learning about those patients who suffer from ‘referential mania’ but begin to invade the young man’s thoughts to spy and register things about him)grotesquely misinterpret his actions. He must always be on his guard…The very air he exhales in indexed and filed away…If only the interest he provokes were limited to his immediate surroundings…

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Part 2

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Friday afternoon, early night
(a) When they emerged…She wanted… He walked…
(b) In silence he sat down…she came… They entered their two-room flat and he at once… She knew his moods…
(c) When he had gone to bed, she remained in the living room ( living room?). She pulled the blind down and examined the photographs. [ Ms. X muses and peruses?] As a baby he… From a fold in the album, a German maid…fell out(?). Four years old, in a park…Aunt Rosa…Age six – when he drew…His cousin…He again…Aged ten: the year they left Europe. [ Shift away from her musings] The shame, the pity…then came a time in his life …which his parents stubbornly…
(d) She accepted…She thought…she and her husband..hurting her boy [ another shift towards an impending unknown]… of the incalculable amount of tenderness…neglected children in unswept corners; of the beautiful weeds that cannot hide from…as the monstrous darkness approaches.

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Part 3

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Saturday, past midnight, early morning
(a) she heard her husband moan…he staggered in…
(b) “I can’t sleep,” he cried.
(c)”Why,” she asked…
(d) “I can’t sleep because…”
(e) “Is it your stomach?…”
(f) “No doctors…” “To the devil with doctors! We must get him out of there quick…
(g)”All right,” she said quietly, “we shall bring him home tomorrow morning.”
(h)” I would like some tea,” said her husband ( bathroom)
(i) Bending with difficulty she… a photograph OR two ( who doesn’t know how many if there were at most two cards?)
(j) He returned…”I have it all figured out”…It doesn’t matter what the Prince says…
(k) The telephone rang. His left slipper…Having more English than he did, it was she who…
(l) said a girl’s dull…
(m) “What number do you want? No. That is not the right number.”
(n) The receiver was…her hand went to her old and tired heart…
(o) “It frightened me,” she said.
(p) He smiled (?)… resumed his excited monologue… Even at his ( the son’s) worst…
(q) The telephone rang..the same toneless… voice
(r) “You have the incorrect number. I will tell you what you are doing…”
(s) They sat down..festive (?) midnight tea…He sipped noisily…the vein on the side of his…While she poured him…he put on his spectacles… He had got to crab apple, when the telepone rang again…

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                  After I selected pieces from various paragraphs besides the two mentioned above I noticed something:

                 Part one: “She waited for her husband to open his umbrella and then took his arm.”

               Part two:”he had given her his keys earlier in the day” ; “They entered their two-room flat”

              Part three:”He returned in high spirits, saying in a loud voice: I have it all figured out. We will give him the bedroom. Each of us will spend part of the night near him and the other part on this couch”.   Most of the initiatives seem to be the woman’s. When she realized she’d forgotten about the keys she immediately rushed home and, probably, without buying the fish she intended to cook for dinner.

                After taking off his dentures her husband ate “pale victuals” prepared for a toothless mouth ( what kind of colourless, mushy food is implied? Would he eat it every night?)

                The thunder and foul air reminds the reader of the rain outside the underground shelter: noise and discomfort outside and inside…

                These sentences also bring up the dire circumstances in which they live (only one set of keys, perhaps only one umbrella, a two-room flat with one bed and a couch) and their closeness. There is no special place in their flat for a son and, should they keep him at home, they would have be separated in turns to keep him under surveillance during the night. Still, this rotatory shift is quite peculiar:

                  Why couldn’t one of the parents stay with the boy all night long? In such a small apartment, why would it be necessary to sleep with him in the same bed and not let him use the couch? Why was a special surveillance needed during the night? What happened at night that would be so exausting to those that were lying at his side that they had to be relieved of duty after some time?

                  As we can see from the items listed below  (Dolinin’s echoing title; the background-figure fusion comparing VN’s text and C.P.Gilman’s “The Yellow Wallpaper”; Baudelaire’s “Correspondances” and VN’s description of “a system where a main story is woven into, or placed behind” a more superficial one), as readers we are invited to diminish the light shining on VN’s “lithography” ( following D.B. Johnson’s beautiful find and illustration) to be able to apprehend this story’s holographic or  three-dimensional image. Although we have Kinbote’s hints about “an underside of the weave” for “Pale Fire”, in “Signs and Symbols” we could try to look simultaneously at two superimposed images ( the hidden main story and the semitransparent one), instead of focusing either on its superficial or its main level, on either background or figure.

                  Up to now we’ve been using both perspectives but I still haven’t been able to get at the “holographic” one that would enable us to continually oscillate and change perspectives.

                     My private overall impression arises from a dejected emotional response to its basso continuo message: “Homo homini lupus” – and an impeding darkness on the move. And yet, my unexpected reaction doesn’t fit in with Nabokov’s prevalently nacreous writings.  

                     The diagnostic made by “Herman Brink” ( “referential mania”) seems to me to be one of Nabokov’s inventions and a very significant one.

                      I’m still checking the psychiatric terms that were used in America at the time the novel was written ( 1946/48),but obtained no positive information yet.

                     What I can advance, though, is that “Delusions of Reference” appear in what was formerly named “Manic Depressive Psychosis” and in “Paranoia.” but I found no designation of “referential mania”, as such).

                     Common dictionaries describe “mania”, “manic states” and inform that the word “mania” comes from the Greek for “madness”.   

                     I consider “madness” (“mania”) in Nabokov a sign for his having introduced elements that defy “common-sense” and that pertain to his own other-world metaphysics and his vision of art/science.   In the case of S&S, VN described the adolescent’s plights in detail without considering standard psychological terms or a precise symptomatology ( the narrator had the parent’s describe how the young man “excluded real people from the conspiracy.”)

                     Nevertheless, VN might have based his stories on details observed in people he knew. At the time when the novel was written little was known about autism, and Asperger inparticular ( the “Savant’s” extraordinary mnemonic and intellectual feats, talent with numbers, chess-games and often, synaesthesia) but VN must have met young boys who had these talents: Alexander Luzhin’s phobias and his unsociability at school, his genius with chess are suggestive of it and, in the present novel, so are the boy’s initial behavior, lack of socialskills, “inventiveness”, drawing abilities. Also his parents considered him a “prodigiously gifted child”.

                      After a prolonged convalescence from pneumonia  we learn that things radically changed because the boy became “totally inaccessible to normal minds.” ( a revealing way of describing his affliction) and, in my opinion, it was when the “normal” people of his environment began to consider him “mentally deranged”. So the unfortunate boy was institutionalized!

                       I believe it is only on paragraph seven, part one, that VN uses his trademark style writing about “minute and module…undulation …volume and volubility…granite and groaning..” to give word to the adolescent’s misdirected hypersensitivity.  

                    The reference to the Symbolists came from Nabokov’s Otherworld by Vladimir E. Alexandrov, when he explained that “irony and faith need not be incompatible. Indeed, this blend was fundamental for the German Romanatics…and was widespread amont the Symbolists… Another link between Nabokov’s metaphysics and aesthetics hinges on his seminalepiphanic experiences…”(page 7,Ardis)  Both Mallarmé and Baudelaire were known to have “synesthaesia”, like Nabokov.

                   Is it now possible to make assumptions about the identity or reliability of any VN narrator, even “Nabokov” himself?  On a Book Entitled Lolita he writes: After doing my impersonation of suave John Ray, the character in Lolita who pens the Foreword, any comments coming straight from me may strike one – may strike me, in fact – as an impersonation of Vladimir Nabokov talking about his own book. A few points, however, have to be discussed; and the autobiographic device may induce mimic and model to blend…. Often, while I read special texts written by Nabokov, I’m reminded of the Portuguese poet Fernando Pessoa ( Pessoa=Person). Unlike VN Pessoa used various “heteronyms” (writerly personas) for his different writing styles and views. [Cf. The Book of Disquiet, Fernando Pessoa, Penguin  Classics, 2002].

                         Pessoa once wrote something roughly translatable as: “the poet is a liar who lies with such skill that the pain he then feigns expresses a pain that’s real.” 

                      I think Nabokov might have achieved similar effects through autobiographical and self-referential tactics,infinite regress aso.To attribute “moral agency to nature” means to hold “animistic beliefs”, I suppose. Nabokov often deliberately employed personification, hyperboles, animism to engender doubts about a metaphorical or a literal interpretation – and yet, that the narrator or “Mrs.Nameless” were morally “fault finding” in S&S has totally eluded me.   

                    Myself, I still believe that we are invited to consider simultaneously both levels (the manifest explicit one and a hidden theme), instead of considering only one of the levels as being the true one. Later Nabokov will offer us at least ten other “hidden” dimensions ( Pale Fire, ADA…) and those with a talent for abstraction and good memories might retain them like a musician does listen to a symphonies various instruments and themes…

                   I’m almost certain that I understand Nabokov’s hints about “postustoronnost” ( “the other-world”) and enjoy how they gained literary expression in his various works. Your quote about God as “the most moved mover” is very beautiful and also revelatory of your vision. I believe in psychoanalysis, but I don’t see the point of discussing Freud when I know VN might have invented “unconscious motives and symbols” as a trap constructed with the information he had at that time about Freud.

                   In a way I could say that my faith lies in the “omniscient narration” that is peculiar to the unconscious… Nevertheless, it seems that we can agree about the vagueness of label such as “omniscient narrator”, specially when he speaks in a singular first person.

                   In “Signs and Symbols” Nabokov allied two strategies. We know that realistic stories are most often open and leave the reader wondering about “what will happen next”. In these the world of the story coincides with the world we experience. Fantastic stories take us to a world with unknown rules and codes and we frequently learn beforehand about “future” ( the story is closed, as VN once wrote about “Lolita”). In such circumstances the reader is left wondering about “what is actually happening now”. In S&S we are puzzled about real life and a third phone-call while, simultaneously, we are invited to investigate a present event that seems to elude us. We may thus experience from the inside a “mysterious dimension” and inhabit two worlds, while firmly planted in the one we still have faith in.  If we move towards Signs and Symbols, Part 2, we find in the first chapter: “When they emerged from the thunder and foul air of the subway, the last dregs of the day were mixed with the streetlights. She wanted to buy some fish for supper, so she handed him the basket of jelly jars, telling him to go home.  He walked up to the third landing and then remembered he had given her his keys earlier in the day.” and in the second chapter: “In silence he sat down on the steps and in silence rose when some ten minutes later she came, heavily trudging upstairs, wanly smiling, shaking her head in deprecation of her silliness. They entered their two-room flat[… ] he ate the pale victuals that needed no teeth. She knew his moods and was also silent.”

                   References to bare elbows are quite common in VN’s novels. I’ve found them associated to a movement, such as “clasping shut a necklace”, three times and I always associated this position to “wings”. It is mentioned in KQK and in ADA, but I chose a particular sentence from Bend Sinister to bring it up as an example: …and similarly the priest had failed to perceive the futility of his metaphysical promise in relation to those favoured ones (men of bizarre genius, big game hunters, chess players, prodigiously robust and versatile lovers, the radiant woman taking her necklace off after the ball) for whom this world was a paradise in itself and who would be always one point up no matter what happened to everyone in the melting pot of eternity. Perhaps here VN might have also implied “wings” and called our attention to an unprotected window in the “living room”. In this story it seems that the young man who suffers from “referential mania” certainly didn’t fit in the category of those for whom “this world was a paradise”  the parents might have taken shifts watching him at night because they’d be sitting on a chair placed by the bed. The room where cooking might take place (or, at least, which had been used when boiling water) also sports a dangerous window for anyone intent on “flying out”.And yet, in my opinion, these precautions are preposterously planned, also because the young man ( at least as a child) was an insomniac. 

                   The article bt Jacqueline Hamrit: The Silence of Madness in “Signs and Symbols” by Vladimir Nabokov  (available thru google) contains a summary and various comments about literature and madness, examined from a philosophic point-of-view. 

                  Excerpts of what J.Hamrit wrote: “Madness has always fascinated writers and has a privileged relationship with literature, being sometimes more than a mere metaphor and rather corresponding to a thematic network underlying a text. It has even been compared to the reading and/or writing activity of literature. I intend in this paper, to make a comparison between madness and literature, to wonder about the way they can be linked and/or separated, through the analysis of a short story by Vladimir Nabokov entitled “Signs and Symbols” which was written in 1948 […] Being himself subjected to auditory and visual hallucinations, Nabokov staged many characters tempted by madness. Thus, the protagonist Luzhin who is a chessplayer in The Luzhin Defense is the prey of a monomaniac passion which ends in a suicide. Nabokov has also dealt with sexual deviations such as paedophilia in Lolita in which the protagonist Humbert Humbert is cured in psychiatric hospitals. And the main character, Krug, in Bend Sinister, becomes mad at the end of the book when he learns about the death of his son[…] Nabokov declared during a lecture at Stanford University in 1941:”Genius is the greatest sanity of the spirit.”[Vladimir Nabokov, “The Art of Literature and Commonsense,” Lectures on Literature 1980 (London: Picador, 1983) 377]…In a letter dated March 17, 1951 and addressed to the New Yorker editor Katharine A. White, Nabokov alluded to “Signs and Symbols” by mentioning the story of an old Jewish couple and their sick boy, saying: “Most of the stories I am contemplating [. . .] will be composed on these lines, according to this system wherein a second (main) story is woven into, or placed behind, the superficial semitransparent one.” The short story narrates a day in the life of an old couple of Russian Jewish immigrants who, being themselves deprived of any name, live in a nameless city in the United States. Their twenty-year-old son had been treated in a psychiatric hospital for four years because, the narrator tells us,”he was incurably deranged in his mind[…] Divided into three parts, the story offers a dialogue, a conversation in direct speech, only in the last part. The narrator mainly uses indirect speech to narrate the conversation between the father and the mother, or between the parents and the nurse[…] We are then informed rather ironically that “the system of his delusions had been the subject of an elaborate paper in a scientific monthly” and that it had been  called “referential mania”[…] 

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Por: Jansy Berndt de Souza Mello

00SELO
SINAIS E SIMBOLOS
Notícia publicada em: Monday, May 05 @ 14:11:27 BRT
Tópico: Literatura

 

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