O Ser Humano não falha…

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<<Imagem encontrada no site: Cinema em Cena>>

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O SER HUMANO NÃO FALHA…

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Luiz Fernado Gallego

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                Quase unanimidade em matéria de louvores da crítica mundial e de premiações por onde vem sendo lançado, “Onde os Fracos não têm Vez” pode também estar decepcionando fãs dos Irmãos Coen. Longe da sutileza da obra-prima “O Homem que não estava lá”, o filme insiste nesta espécie de atopia constante dos seus personagens.

Aqui, os três principais quase nunca estão no mesmo lugar, sempre com uma defasagem temporal entre a chegada de um e a partida (ou fuga) dos outros: o xerife que tenta evitar a mortandade, o psicopata assassino e o caipira presunçoso que encontrou um dinheirão ligado a uma briga de quadrilhas que o psicopata quer de volta.

                   Este filme também fica bem distante do sutil humor negro (vale o quase oxímoro) que tornava “Fargo”, dos mesmos autores, mais do que assistível – quase admirável – no retrato, aqui reprisado da estultícia humana em seus vários graus, incluindo a compulsão obsessiva de dois “duelistas” em obsessivo desafio mútuo: o caipira e o assassino

                      As falas em off (ou não) do xerife interpretado por Tomy Lee Jones provocam um desconforto raro nos filmes dos Coen, como se a obra carecesse discursos e reflexões “filosóficas” para ser mais que uma sucessão de assassinatos estúpidos. Em “Fargo”, a detetive vivida por Frances MacDormand (equivalente ao xerife deste filme) não precisava de falação: tudo era ação e imagens perplexizantes sobre a estupidez compulsiva da ambição desmedida – sem “explicações” nem “filosofices” enunciadas. Pão, pão; queijo, queijo. Nada de palavrório. O marido dela mal sabia o que a mulher estava fazendo, arrastando-se com o barrigão de quase dez meses de gravidez, imagem que poderia ser a antítese da morte em cena. Ou não: nunca se sabe o que vai acabar sendo um bebezinho indefeso no futuro… O absurdo estava ali, em tintas quase prosaicas em um filme memorável.

                         Em “No Country for Old Men”, o bem construído sonho narrado por Lee Jones na cena final é um bom gancho verbal com boa economia visual. Competente, mas rebarbativo a partir do título original “onde os velhos não têm vez”, explícito como uma demonstração da tese enunciada. Aliás, como morrem “idosos” ao longo do filme apenas por estarem no lugar errado na hora errada com o assassino psicopata em coincidência de tempo-espaço!

                      Pleonásticas também são duas cenas quase idênticas, mostrando as reações de jovens à oferta de dinheiro para um ato de solidariedade humana que talvez fossem ter, mesmo antes de receberem a oferta pecuniária; depois que entra dinheiro para o que ia ser provavelmente uma doação generosa e independente de grana, os rapazinhos têm a cobiça e a voracidade despertadas. Uma cena dessas já era mais do que suficiente; a reprise da mesma situação torna tudo tão mais óbvio para a tese que o filme parece querer demonstrar que o reduz a um nível incomodamente rasteiro. Parece que quase se escuta uma sentença moralista: “a ambição está em todo lugar e idades – e ainda mais nos jovens”.

                         Javier Barden está amealhando prêmios: competente como em praticamente todos os seus papéis, esta sua interpretação é uma chave eficaz que se mantém sem alteração, até pela necessidade de caracterizar a rigidez assassina fria e pétrea do personagem. Um excelente ator em um ótimo momento, um tanto superestimado.

                           Parece que mais uma vez vão deixar de fora das premiações o grande Tom Wilkinson gritando “Eu sou Shiva, o deus da morte” em surto de exaltação maníaca do personagem, sem que o ator caísse no ridículo no apenas satisfatório “Conduta de Risco”.

                         Por sua vez, Tommy Lee Jones se destaca em um autêntico desempenho do tipo “menos é muito mais”. E Kelly Macdonald está exemplar como a esposa do caipira que entra de gaiata num navio que não seria o dela. A personagem é ótima na recusa a jogar a vida com a moeda; e a atriz, perfeita na sua simplicidade direta que evoca a responsabilidade do que se faz – e não o acaso, a sorte, o azar… O diálogo desta cena da moça com o psicopata se destaca do restante do filme e chega a lembrar o cavaleiro e a Morte de “O Sétimo Selo”, clássico de Bergman.

                          Que os Coen são dos maiores nomes do cinema contemporâneo, não há dúvida: o uso das paisagens, os enquadramentos e as cenas mudas têm a pegada do melhor do que eles são capazes. Há também um jogo de elipses admirável à medida que as mortes vão desaparecendo de cena, vendo-se apenas os mortos, ou nem isso. E o suspense e o horror se mantêm. Ou aumenta, devido às elipses. O valor do que não se vê. E do que não se escuta demais.

                                Mas, especialmente em “Fargo”, os Coen já disseram o que dizem aqui – e de forma muito mais satisfatória. O pior de tudo é a “tese” complacente. Por que a maldade descontrolada aparece nos anos 1980 (ou pouco antes) e não desde sempre? Se lembrarmos o que se diz da Antigüidade… Parece que o final da II Guerra com a revelação dos horrores do nazismo criou um imaginário de paz e harmonia para os anos 1950 que nunca foi verdadeiro: os horrores do stalinismo, a Guerra da Coréia inaugurando as escaladas no extremo oriente da máquina de guerra ianque e os detetives particulares dos filmes “noir” (assim como os da realidade fora das telas) traziam muita barbárie para que os Coen dessem crédito ao personagem do livro de onde o filme foi extraído, um xerife tão ingenuamente surpreso com a perversidade humana. A neutralidade da detetive grávida frente ao lado negro do ser humano em “Fargo” era bem mais realista, verossímil e adulta… Enfrentando o retorno do recalcado (mas só na fantasia imaginária) sobre a destrutividade de que somos capazes. Sempre. Não falhamos nunca neste departamento…

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Luiz Fernado Gallego é psicanalista e membro da Associação de Críticos de Cinema do RJ
Colabora no site www.criticos.com.br

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 O SER HUMANO NÃO FALHA…
Notícia publicada em: Tuesday, February 12 @ 19:15:13 BRST
Tópico: Cinema

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