Construção

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<<Foto por: Marianna Armata>>

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Humberto Haydt de Souza Mello
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Poema sem título e em rascunho abandonado, inspirado nos versos “Construção” do Chico Buarque de Holanda.
10.03.1972

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Construção
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Ouviu a Construção e teve medo de entender
limpou a testa em brasa com o gesto do negar
passou no rosto o pão pro miolo absorver
a chuva que na casa começava a desabar.

Voou pro teto um gato que arrulhava seu miar
e o vento azul-de-todo balançou no tinhorão;
a conta que no tombo vencera a mais azar
perdeu-se como um lodo na escrita do escrivão.

A fila do instituto cobreada pela dor
levou-o ao consultório do perito-em-perceber
que olhou pra este luto com seus olhos de supor
através de um vomitório que continha no escrever.

Foi então que o doutor com jeitão policial
achou que era pouco o pão pra absorver
a chuva a casa a dor a nota o pombo o sal
e disse Pedro é louco – louco é Pedro em ser.

Ouviu o entender e viu a Construção
limpou o seu querer com a brasa de seu pão
negou a chuva em casa com o miolo do instituto
e deu com a testa rasa no teto de seu luto.

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Continuação …

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Construção II, poema não revisto de Humberto Haydt

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.. e João desamou a Maria, como desamara a tantas coisas.
Mas atentai, severamente, para estas palavras,
examinai cada um com o sentido do cosmos;
João, sem outro caminho, desamou Maria.
Precisamente, isto foi tudo o que aconteceu.
E as margaridas se coroaram com suas engrenagens brancas ou amarelas,
surgiram botões e prolongamentos audaciosos;
os mares, com suas marés, fizeram e desfizeram o ciclo,
os pássaros migraram, se é que disso precisaram
segundo suas obedecências biológicas,
e o universo não ruiu, como era de se esperar;
não ruiu, como era de se exigir;
não ruiu, como era de se ruir;
ou melhor, ruiu – exatamente isso: ruiu.
E Deus, com medo de se acabar,
fez depressamente outro universo exatamente igual,
com margaridas, mares e pássaros!
Mas sabei, por amor à verdade e amor ao amor,
que este universo, o novo, o exatamente igual,
era outro universo;que precisamente era outro,
igual, certamente, mas outro;
cópia, pois bem, mas cópia;
um universo tão fabulosamente igual ao primeiro
que ninguém percebeu, exceto Maria,
que era outro, onde ela teria o direito e a liberdade
de cultivar uma absurda saudade de algo que existiu
e que, não existindo, existe mais profundamente
porque resta a flor, o mar, o pássaro
como testemunhas do que se criaria pelo amor
que um dia João teve a Maria.
 
Por: Humberto Haydt de Souza Mello,
em 10.03.1972.
 
 00SELO
Construção II, poema não revisto de Humberto Haydt
Notícia publicada em: Wednesday, October 24 @ 23:47:28 BRST
Tópico: Literatura
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