Consolations

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<<Imagem encontrada em: Weheartit>>

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Consolations

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Mércia Pinto

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      O ranger do portão enferrujado despertou-a de seu esforço para ler o jornal. A branquidão de suas vestes esparramadas na cadeira, contrastando com a fartura do seu corpo escuro, lembra um berço. Desarrumadas, as folhas do papel esperneiam em seus braços como uma criança que se nega a deitar. Depois de domá-las, levanta a vista, me fixa desinteressada e devolve o olhar para bem perto do texto. O gesto de quase fechar os olhos para enxergar coisas miúdas é o mesmo de quando a vejo escolhendo arroz, retirando pedrinhas do feijão na cozinha.

       Incêndio atinge mais uma vez o sertão, destruindo grande parte da mata original. Ao que tudo indica, não se trata de ato criminoso e sim da prática das “coivaras” ainda muito populares nas terras da região, e que dessa vez fugiram ao controle dos agricultores.

       A notícia não lhe comove. O sentido do texto se perde no trabalho de soletrar. Acomodada ali na entrada da casa, parece estar sempre em guarda, como animal de estimação que observa, não diz palavra, mas sabe de tudo. Me conhece. Me aceita em silêncio e me permite entrar. Afinal ha quantos anos venho aqui todas as semanas! Tem me visto crescer e sei que nota qualquer sinal de mudança que acontece comigo. Justamente por isso, tenho medo do seu mutismo. De me mostrar inadequada. Antes esse mal estava associado sobretudo às minhas roupas. Me envergonhava das faixas que só quando os vestidos eram novos estavam no lugar certo, na cintura. A cada lavada duvidava se era eu que espichava ou os vestidos que encolhiam. As blusas ficavam mais curtas e as faixas cada vez mais perto dos braços. Mamãe não entendia muito de proporção, pois ao invés de aumentar o tamanho da blusa, fazia-o na saia. Talvez pensasse que eu só crescia nas pernas. Resultado é que ainda hoje não me livrei da sensação de que sou uma figura comprida dentro de um vestido de boneca. Foi ontem. Deixei de usar meias soquetes. Ainda sinto as dores nas pontas dos pés por causa daqueles sapatos que eu ganhava no natal e que em março já estavam apertando meus dedos. Hoje, embora tente parecer igual a todas as meninas de minha idade, usando pela primeira vez uma roupa que escolhi e de que gosto, ainda me sinto observada. Atravesso rapidamente o pequeno caminho de cimento que corta ao meio o enorme quadrado de areia cinzenta, inexistente jardim que separa interior e exterior da casa. Sei que estou fugindo, entrando na sala desarrumada, repleta de instrumentos, livros, quadros e objetos inacabados. Eles são dádivas para meus sentidos, mas não aliviam minha aflição. Ali, esperando a aula, sinto como se de repente aquelas faixas que tanto me envergonhavam estivessem apertando debaixo dos meus braços. Tempo e mudança se enfrentam dentro de mim. São aquelas pontadas que me atormentam. Aparecem repentinamente sem escolher onde e quando. Tento esconder desviando minha atenção para as figuras de um livro em cima da mesa, mas a intermitência da dor me incomoda, me dá medo. O que é chocante aqui não é sua nudez, mas a forma como ela é tratada, não é? Claro, realmente a nudez depende da sua localização espacial e temporal. Vai além da condição ou estado pessoal. No Oriente, por exemplo, o pudor é considerado uma virtude. Ele fixa uma barreira entre o humano e a bestialidade. As mulheres sentem-se despidas se não usam aquele véu. Talvez ele as preserve dos olhares dos outros. E em que idade elas passam a usá-lo? Mas a nudez aqui não se relaciona com a vergonha. Parece um sentimento, o que é diferente. Embora esteja nua, a figura permanece insolente e inegavelmente provocativa! Tomo um susto e me pego exclamando alto! Como? Mas ela ainda é uma menina, guarda as faces quadradas de um bebê, a boca de uma criança. (Olha o corpo rechonchudo e as pernas curtinhas!) O único sinal de que já é uma mulher são as pantufas de salto alto abandonadas no lençol. A resposta vem em palavras de sapiência. Ela é antes de tudo uma referência audaciosa à célebre Virgem de Urbino, de Titien. Veja aqui! É o protótipo do nu feminino deitado e invisível do exterior. Sua atitude lasciva foi copiada por muitos outros artistas, como é o caso da Maja Desnuda de Goya. Mas esta que você vê aqui vai ser transformada. Transformada? Me dou conta de estar falando alto novamente. Só por que não excita os sentidos? Por que nega seu erotismo? Me acalmo um pouco e continuo. Ou então é porque seu corpo é realçado por uma linha preta. Nas outras, olhando bem de pertinho, essa linha é burlada, diluída. O uso das cores escuras anula a profundidade da cena, mas para mim isso até lhe dá um certo ar de sinceridade!

         Sentada ao piano recebo explicações numa partitura. Pense em três planos que se completam. No primeiro o mais grave, uma nota pedal dá sustentação a tudo o que vai acontecer. Ela estará soando o tempo inteiro, lembrando-lhe a base das harmonias, a profundidade do discurso musical. No plano intermediário aparecem ondas sonoras que fluem milimetricamente no tempo, não importa o que aconteça. São arpejos, variação do acorde quebrado, o Baixo de Alberti, lembra? É que aqui aparecem mais alongados. Você lembra do Noturno opus 27 nº 2 de Chopin? Essa peça lembra muito aquele tipo de escrita. Por fim, no terceiro compasso aparece em destaque uma cantilena, espécie de prece que se desdobra e se transforma ao longo de toda a peça, certo? Sim! É a cantilena de Dona Helena! Não sei tocar a nota do baixo e saltar quase duas oitavas sem perder um pouco a perspectiva do tempo. Esses arpejos imensos que arrodeiam e arrodeiam sem nunca terminar. Inicio novamente a peça tentando guardar o baixo e uni-lo ao arpejo, mas me frustro, não consigo obter o som desejado. Mesmo assim continuo. Sem se importar com minha atitude irreverente, ela me instrui. Aqui as coisas tomam um outro caminho a partir do compasso 9. A melodia aparece mais iluminada. Ouça melhor aquela segunda nota do baixo, pois é ela que abrirá caminho para essa mudança. Continuo tocando enquanto ela comenta: atenção, aqui no compasso 13 você vai tocar um arpejo só com teclas negras, portanto deve colocar sua mão mais dentro do teclado para realizá-lo melhor. Toma meus braços e os levanta um pouco pelos cotovelos aliviando-os da tensão. Assim! Curve um pouco seu tronco para a frente, que ficará mais fácil. Continua encaminhando minha execução. Aqui no compasso 16 não ponha pedal! Deixe a melodia soar como uma prece solitária, como se essa espécie de súplica no final do compasso pudesse transformar em lágrimas até mesmo um bloco de pedra. Estou mais insensível que um bloco de pedra. Sou como aquela areia cinzenta e morta que circunda esta casa. Sem possibilidade alguma de que germine algo. Não escuto esta súplica, só sinto desalento. As palpitações recomeçam, alheias ao que ela me diz. Toque o baixo e arraste sua mão conservando-a perto do teclado, guardando essa nota grave como se ela fosse realmente o começo do arpejo…e o é, não? Não consigo dar sentido a nada disso quando toco. Me desconcentro. A figura é casta. Sua sensualidade é deslocada pelo pudor, pela ternura e pelo abandono. Tudo isso é por causa desse corpo que não me pertence. Meus seios! Duas bolas que crescem estranhas a mim. Colocadas já inchadas e inflamadas no lugar das outras. Sem eu saber. Não escolhi isso. Ouço novamente sua voz e sinto-a empurrar meu tronco levemente para a esquerda . Volte ao início. É melhor você tocar o baixo dos três primeiros compassos com sua mão direita. Assim atinge melhor a nota desejada e controla melhor a sonoridade. Toque primeiro na tecla e (sem pressa), pressione-a para baixo. Ela deve soar mais profundamente, pois é ela que esclarece e completa o que sua mão direita vai dizer. Eu não vou conseguir. Me falta energia, firmeza daquilo que quero. Gostaria de poder expressar-me melhor, mas sinto os braços tensos, presos. A música está distante de mim, não consigo captar o que ela me diz, me ensina. É essa aflição que me invade. Um som mais grave que esse, mais profundo que esse, que desafina minha música, que enfraquece meu ritmo. Que soa dia e noite como se anunciasse uma verdade desconhecida. Ela parece adivinhar a confusão dos meus pensamentos quando interrompe e diz: Não! Não toque esse baixo assim com toda essa gravidade. Ele só precisa ressoar, dar identidade à sua performance. Veja, a melodia agora vai ser duplicada, como se a prece precisasse ser reforçada por alguma promessa, por um fervor maior aqui no compasso 19. Enquanto toco, ela ilustra e encoraja minha execução. Aqui no compasso 29, não precisa se justificar. Vão aparecer apenas desdobramentos, sussurros, insinuações inocentes. Muito bem, continue… Ah! Agora calma, calma! Expressivo! Dolcíssimo. A atmosfera vai crescer até o compasso 42, mas sem exageros. Afinal, uma prece é feita baixinho, não? É o ápice da peça, a última tentativa de tocar as estrelas mais longe onde somente lá você vai encontrar o que procura. Cuidado! Cuidado! Ri-te-nu-to. Sem desespero! Com serenidade. Bravo! Agora ouça bem! Veja que maravilha! Sua súplica foi ouvida por uma voz mais grave. Ela lhe assegura de que foi aquilo mesmo que você pediu! Aqui nos compassos 44, 45 e 46, entendeu? O mais bonito é a conexão dessa pequena parte da melodia em registro grave, com esse looongo, longuííííííssimo arpejo nos compassos 47/48 e que vai terminar numa volta da melodia na altura original. Vamos toque. Mas minha mão é pequena, lhe respondo. Eu ainda sou menina. Não! Não! Experimente desenhar com todo o seu braço essa curva que o arpejo faz. Partindo lá do ombro. Assim sua mão pode ser expandida. Vamos! Assim! Viu como dá certo? Abra a mão e conserve-a espalmada, pois até o fim ela vai precisar dessa posição. Porque aquela menina mantém a mão aberta, cobrindo seu sexo? Meus pensamentos voam, meus dedos seguem quase automáticos até ela me lembrar: xiiiiiii! piano, pianíssimo, pianissíiiiissimo, sussurrando perto de meus ouvidos. Controle sua pressa, contenha sua ansiedade. Desacelere seu ritmo apressado com uma visão de eternidade, tentando dar um sentido a cada nota. Essa melodia pede, às vezes implora, mas nunca se desespera. Não se inquiete. Se entregue às pulsações do tempo. Essas pequenas notas aqui não precisam seguir a justeza de um compasso. Elas são como poeira, perdendo-se no espaço, aparentemente sem comando. Me encoraja tomando minha mão e diminuindo seu peso, a faz deslizar em cima do teclado falando baixinho: smor-zan-do.

         O técnico da Emater esclareceu: “O regime de coivara, a rotação entre as terras, é intensa: o que exige que possam dispor de diferentes áreas de plantio para intercalarem as plantações ao longo dos anos.”

         Mais uma onda de desespero se apodera de mim. São essas pontadas nos seios que me amedrontam. São como um metrônomo que descompassa o meu ritmo. Esses vestígios de umidade que me aparecem inesperadamente para piorar tudo… Nunca me sinto seca, limpa. Me desconcentro novamente. Olha como os seios dela negam seu erotismo. Estão frontalmente iluminados. O que isso quer dizer? Sua presença é perturbadora, pois me fixa franca e friamente com seu olhar tranqüilo. Ontem eu dormi com meus travesseiros limpos, secos e cheirosos. Brancos. Iluminados como os dela. Acordei e me dei conta de que um fio de linha escura saíra de dentro deles e roçava minha face. O que faz aquele gato a seus pés? Ronrona. Se roça com o dorso arqueado à procura de carinho. Ao contrário, o cão de Urbinoé fiel. Enrodilhado ao pé da cama, não interessa de quem. A mulher nua de Goya é voluptuosa. Tem formas amplas, acentuadas pelo ventre redondo. Afirma sua sensualidade e sedução de maneira franca e quase tátil. Seus travesseiros são cinzentos.

          Por três anos essas plantações são intercaladas. Passado esse tempo, o solo já perdeu sua fertilidade inicial, e a roça é abandonada.

         A característica desinteressada da outra cena é existir uma criada no segundo plano que se funde com a cor da parede. O gato, a negra, a parede, o branco do lençol pregueado e o bege mais denso da colcha levemente estampada. Mas o atrativo maior são as flores! Natureza morta se introduzindo inconvenientemente num quadro de nu. Não deveria ter sido concebido num outro espaço?

          Ela interrompe mais uma vez meus devaneios e minha execução estéril. Vamos tocar mais uma vez. Não se preocupe se algumas notas saírem erradas por engano, ou se tocar alguns acordes dissonantes, alheios à música. Eles vão desaparecer na medida em que a execução amadurecer. Enquanto isso eu penso naquele fio áspero e grosseiro. Indisciplinado no seu caminho. Insolente, pois não o reconheço! No entanto ele cresce audacioso e desafiador. Quem o chamou? Não fui eu! Nesse momento me mostro frágil e falo: sei que estou doente! Um choro desesperado me arrasta. Palavras sem nexo saem de mim sem eu me sentir. Vivi tanto tempo ali! Me levaram para longe… eu era ainda menina e não sabia. Coitada de mim! Tudo mudou tão rápidamente…(soluços). O que foi que não procurei ali! E o que buscavam de mim? (silêncio).Tantas coisas trocadas por outras que não conheço! Sem indagar o significado de tudo aquilo, ela me consola e diz, aumentando a voz:

        -Corre aqui, Bié! Vem fazer um cházinho de caroço de limão pra ela!

        Ela abandona o jornal ao vento e se levanta lentamente da cadeira lá fora. O corpo pesado, as pernas arqueadas, arrastando os chinelos e seu olhar de orangotango.

        De pé ao meu lado, a professora tenta minimizar minha angústia. Isso passa! Não é nada! Acalme sua mente! Descanse um pouco e depois recomeçamos. Perpassa de volta as folhas da partitura e me mostra lá no alto da primeira folha: lento e plácido! Não tenha pudor de seus sentimentos. Nos sentimos mesmo despidas quando tocamos. Mas a nudez é muitas vezes sinal de humildade. São Francisco se despiu na praça de Assis. Os loucos, os seres das florestas e os hereges também podem se desvestir. Nesse momento, o tempo é todo nosso. E é eterno. Assim, preencha-o com o seu melhor, sua música.

          Vamos repetir toda a peça e lembre-se da terminação das frases; mais leves…

          Embora não manifestando interesse nas flores que ela mesmo vai receber, ela continua a posar e a provocar o espectador com seu olhar franco.

          Lá vem a criada com uma xícara de chá numa bandeja velha e sem brilho:

         -Coloquei também umas floresinhas de laranjeira. Essa menina está é nervosa.

          A professora dá um sorriso curto e exclama: é, ela está impressionada mesmo!

         Impressionada, impressão, impressionismo. Bebo um gole do chá de gosto desenxavido e sinto um arrepio. Olho dentro da xícara e vejo umas bolinhas esverdeadas num líquido que fumaça. Ah! Então são essas floresinhas boiando que estão fazendo cócegas nos meus lábios.

           -Por que colocou essas floresinhas? pergunto baixinho. Ah! Isso aí é segredo, responde e se vira bruscamente, dando pouca importância à minha questão e desaparece diluída na escuridão do corpo da casa. Ouço a risada baixinha de D. Helena: é, ela tem receitas secretas para cada um e não ensina a ninguém!

             Segredo, secreto, segredar, secretar, secreção… o que havia de ser se foi… agora é a angústia de me pôr noutra…só restando uma etérea visão e a nostalgia.

            Ela toma minhas mãos, esfrega levemente a parte mais carnuda dos meus dedos contra os dela e fala: esses últimos momentos são apenas ressonâncias que afloram… Toque-os assim, de leve, com os dedos perto do teclado, sem muito movimento. Tomo os últimos goles do chá já frio, enquanto as pétalas das floresinhas que se movimentam na superfície do líquido afagam meus lábios. O vento joga o jornal que se engancha na porta.

              As terras permanecem em descanso por períodos de até 12 anos, até que os nutrientes do solo se reconstituam tornando-as novamente atraentes.

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Por: Mércia Pinto.

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Consolations
Notícia publicada em: 2007, Setembro 19
Tópico: Literatura

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