Morus Mores

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<<Imagem de: Adriana Glackin>>

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Morus Mores (Versão Traduzida para o Português por Jansy Mello)

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Abdellah Bouazza

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        O rego musgoso, tão lento e preguiçoso quanto o próprio dia, separava o menino da amoreira. Para sua surpresa, sob a folhagem luxuriante e a sombra poeirenta ele entreviu um cãozinho que observava seus movimentos com uma curiosidade de olho de boneca. A cena ( menos sombria, talvez ) recordava a fábula do cordeiro e do lobo. Em vez de tomar a cômica presença do cachorrinho como uma advertência, o garoto a considerou um convite. Retrocedeu alguns passos para dar uma corridinha e saltar sobre a vala refletida em verde-negro. Assim que suas mãos tocaram a terra estival e ele olhou para cima, percebeu que o cãozinho havia sumido e em seu lugar encontravam-se as folhas largas da ramada de uma figueira. Isto o desapontou um pouco, mas a amoreira prometia-lhe uma frondosa e verde bem-aventurança. Apressadamente colheu, provou e guardou amoras nos bolsos; o gosto das frutinhas e o prazer proibido cegaram-no e enfraqueceram-lhe os sentidos a tal ponto que o pomar ( damasco, limão e ainda framboesa), que dificilmente se podia avistar de fora, ficou registrado no seu agora estreitado campo visual como um mero fundo vegetal variado.

         Subitamente uma figura se ergueu. O menino recuperou parcialmente a presença de espírito e detectou naquela aparição, assemelhada ao deus Pã, uma entidade humana e até recordou-se do nome e de seu endereço. O sujeito (suas roupas não eram empoeiradas como delas se lembrava, erroneamente, o menino) armara-se com um ramo da figueira; antes mesmo que o garoto pudesse assegurar-se de que aquele galho não vinha carregado de figos e já tinha caído ao chão e berrava, respondendo à sova cega e dura imposta ao seu corpo largado. A árvore e suas frutinhas eram vislumbradas no céu e o local se transformara num campo de golpes, poeira, fúria, contorções, gritos, pontapés e, sim, aroma de figos.

        Curiosamente seus gritos não eram de dor, mas de incompreensão e terror; e embora o bruto satânico tivesse que prosseguir com força redobrada servindo-se de um galho quebrado, ele não sentia a menor dor e a expressão, “levar porrada”, que um parente dele havia usado e que, até então, ele não tivera oportunidade de empregar, cruzou-lhe a mente. Nesse mesmo instante a brilhante idéia de escapar dali o alcançou. Fugiu como uma criatura de tres pernas que arbustos e ervas espinhosas tentavam deter. Ousou olhar para trás e não viu ninguém: a amoreira estava tão imóvel e indiferente como antes, o galho da figueira despido e… o pequeno cachorro, que olhava para a vala sacudindo o rabo – por quê estaria ele sacudindo o rabo? Porque via seu reflexo?

       Era surpreendente que ele não sentisse dor alguma, que a árvore cúmplice nem mesmo farfalhasse a folhagem para dar sinal de vida, de emoção. Quando alcançou uma distância suficiente para que a fazenda lhe parecesse mais um capricho cênico do que um bosque de vegetação extravagante, abaixou as calças para inspecionar seus ferimentos. Uma marca lívida atravessava-lhe a coxa direita; a risca de um filhote de tigre albino. Um frio desdém pelo sujeito diabólico reacendeu nele; o mesmo desdém que se sente por alguém que quebrou as regras não escritas da vida livre dos adolescentes. O menino caçoou daquela agressão agreste. “Que lhe sirva de lição!”. Repetia essas palavras obedientemente, como se não estivesse seguro do seu significado, e sua cara, apesar do esforço, tinha permanecido tão pálida quanto uma folha de pergaminho. O menino se perguntava se o patife selvagem e enraivecido não o teria reconhecido, afinal quantas vezes antes não haviam trocado palavras e se cumprimentado?

        Seu ódio atingiu a mesma intensidade que a descarga de raiva daquele cara – de quem ele não queria pronunciar o nome – só que sua raiva não era cega não; pelo contrário, a clareza pela qual examinava a situação atual era digna de nota. Cachorrinho estúpido, amoras sem graça – aquelas que ele havia guardado nos bolsos haviam se transformado, é claro, num primeiro estágio de uma geléia; caminhava com os bolsos voltados para fora. Na morna quietude da tarde vagou por perto dos cactos, imitando a postura do ouriço-cacheiro, seguindo às vezes sob as alfarrobeiras de troncos caiados enquanto os grilos se ocupavam com suas serras.

        O incidente não parecia nada além de uma idéia pseudocárpica e inócua que havia sido apagada furiosamente por um pensamento póstumo. Ele então imaginou como teria sido o final da história caso tivesse ouvido ou visto o torturador feroz, ou, como se o mal não tivesse adquirido, nele, uma forma. Era estranho constatar que seus gritos não atrairam atenção. Curvou-se para apanhar um pau e alcançou a estrada de asfalto, enquanto o brandia nas mãos.

      Uma Mercedes de cor bege aproximava-se vinda do leste e o menino azarado decidiu deixar o carro passar primeiro. Em seguida bateu nele com sua vara, o carro rodava em amigável baixa velocidade, para depois atravessar a rua. O automóvel parou e seu motorista saiu aos gritos. O menino havia visto as luzes vermelhas e zangadas da Mercedes, e, agora, buscava o atalho estratégico flanqueado pelas oliveiras. Olhou para trás de si e se surpreendeu quando notou que o motorista o perseguia insitentemente; um rapaz de óculos (filho do motorista), que também o caçava, estava fora do seu campo visual e , deste modo, quando foi agarrado pelo pescoço por este último, e não pelo motorista, o menino já estava cego de terror. Caiu de costas ao encontro da oliveira e não conseguia mais ouvir o que as caretas, óculos e dentes estragados lhe diziam; assim mesmo sentiu o tapa que fez o sol tremer como um gongo e o deixou indisposto com gosto de amora, e de água de fosso musguento, na boca. Passado um tempo tentou vislumbrar os olhos impiedosos daqueles dois através das lágrimas: estrelas invejosas no céu do seu medo… mas havia apenas a ardência dos raios de sol enquanto o silêncio renegava todo o resto.

        Ele permaneceu na sombra escassa ( o tapa tinha amassado seu cabelo contra sua têmpora esquerda) e com o indicador começou a desenhar figuras abstratas no solo, algo em que qualquer garoto pouco talentoso consegue se superar. As figuras ganharam formas rudimentares de um delta, um bico, uma asa, asas, um rabo, e um pássaro. Um falcão ou uma águia sobrevoava no céu medonho como consciência culpada.

      Sem pensar duas vezes levantou-se para caminhar até a estrada de asfalto, que atravessou para andar sob as árvores inclinadas, adentrar o mato e, depois de certo tempo, alcançar novamente a vala; saltou por cima desta , encontrou o galho de figueira quebrado e o jogou para o outro lado da vala entre uns arbustos. Nenhum cachorro, ótimo. Devagar colheu e comeu as frutinhas refrescantes e, depois de coletar uma mancheia, sentou-se no chão encostado contra o tronco da árvore e, enquanto comia e degustava, olhava para as árvores na distancia, às montanhas de azul pálido, para o céu: um falcão ou águia sobrevoavam ali. Abandonou o pomar e procurou no mato um outro pau; primeiro encontrou uma cobra e, depois disso, arrancou as folhas e galhos da grossa rama e se armou. Depois de alcançar novamente o asfalto pôs-se à espera.

         Foi isso tudo oque ele enxergou enquanto circulava nas alturas e as casas pareciam de brinquedo e, as árvores, pirulitos. A águia da imaginação, poderosa águia, voou do pomar até o atalho. Ao contrário da sua paciência enquanto circundava pelo céu, o humor dele era instável e breve. O menino apagou as figuras desenhadas com seu sapato e se levantou; esticou-se ao sol. Ali, no meio dos tocos de mato, pousou um enorme gafanhoto. Rindo, ele começou a persegui-lo. Do mesmo modo, a águia havia também visto uma presa e já saltava sobre ela.


Versão em Inglês

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         The mossy ditch, which was as slow and sluggish as the day itself, separated the boy from the mulberry tree. To his surprise, under its lush foliage and dusty shade appeared a small dog, which watched his movements with doll-like curiosity. The scene (less shady perhaps) recalled the fable of the wolf and the lamb. Instead of a warning, the boy considered the little dog’s droll presence an invitation. He backed a couple of steps and made a running jump over the black-green reflecting ditch. The moment his hands touched the summer earth and he looked up the dog had already disappeared and there lay a broad-leaved fig branch. That disappointed him a little, but the rich mulberry tree provided an overwhelming green bliss. Hurriedly he plucked, tasted and put mulberries in his pockets; the taste of the berries and the forbidden delight blinded him, weakened his senses to such an extent that the orchard (apricot, lemon and also raspberry), which was hardly to be descried from without, was registered by his narrowed field of vision merely as a variegated vegetal backdrop.

       All of a sudden a figure loomed up. The boy regained just enough presence of mind to detect in this Pan-like apparition a human entity and to recall its name and residence. The fellow (his clothes were not dusty as the boy wrongly remembered) was armed with a fig branch; and before the boy could ascertain that the branch bore no figs he had fallen to the ground and was screaming in response to the blind and hard thrashing his body received. The tree and its berries were sky-high and the place was transformed into a camp of blows, dust, fury, contortions, cries, kicks and, yes, the smell of figs.

        Strangely enough, the cries he uttered were not from pain, but from terror and incomprehension; and although the satanic brute had, with renewed force, to make do with a broken branch he did not feel any pain and the expression “to come to blows,” which a relative of his had used and for which he himself had never had the opportunity to use, crossed the boy’s mind. Just then he got the heavenly idea of escape. He fled like a three-legged creature and all the while every thorny weed and shrub tried to tackle him. He dared look behind him and saw no one: the mulberry tree as motionless and indifferent as ever, the stripped fig branch and… the small dog, which looked into the ditch wagging its tail –why was it wagging its tail? Because it saw its reflection? It was astounding that he felt no pain, that the accessory tree did not even rustle as a sign of life, of emotion. When he had reached a distance from which the farm seemed more a caprice of the scenery than a coppice, whimsy vegetation, he pulled his pants down to inspect his wounds. A livid bruise ran across his right thigh: the stripe of an albino tiger cub. A cold contempt for the devilish guy revived him; the same contempt one feels for someone who has broken the unwritten rules of youth’s outdoor life. The boy mocked his agrarian aggression. “That’ll teach yah!” He had repeated the words dutifully as if he had not been sure about their meaning, and his mug, in spite of the exertion, had remained as pale as parchment. The boy wondered whether the savage, the rabid cur, had not recognized him, because how often hadn’t they greeted each other and exchanged words?

          His hatred reached the intensity of the guy’s –he didn’t want to say his name- spent fury, only his hatred was not blind; on the contrary, the clarity with which he viewed his situation was remarkable. Stupid puppy, worthless mulberries –those he had put in his pockets were of course at the initial stage of jam; he walked with his pockets turned inside out. In the warm siesta-quiet afternoon he loafed past the cacti in hedgehog position, sometimes under the carob trees whose trunks were whitewashed, while the crickets were busy at their sawmills.

      The incident seemed nothing but a pseudocarpous, innocuous idea that was furiously erased by an evil afterthought. He imagined the outcome if he had heard or seen the feral bully coming or if evil had not taken shape. It was strange that his screams had not attracted attention. He bent towards a stick and reached the asphalt road while brandishing that stick.

        From the eastern direction a beige Mercedes neared and the unlucky boy decided to let the car drive by first. With the stick he hit the car, which was driving at a friendly speed, and crossed the road. The car stopped, the driver got out and bellowed. The boy had seen the angry red lights of the Mercedes and was now heading for the strategic trackway lined with olive trees. He looked behind him and was startled to see the driver vehemently following in his wake; the bespectacled young man (the driver’s son), who was also chasing him, was outside his field of vision, so that the boy was blinded by terror when he was grabbed by the neck by the latter and not by the driver. The boy fell with his back against the olive tree and could not hear what the glasses, the bad teeth and the grimaces were saying; yet he felt the slap that made the sun tremble like a gong and made him queasy with the aftertaste of mulberries and mossy ditch water. After a while he tried to see through his tears the merciless eyes of those two: invidious stars in the sky of his fear…but there were only the smarting sunbeams, and the silence again denied everything.

        He remained in the scanty shade (the slap had flattened his hair to his left temple) and with his index finger drew abstract figures in the soil, something in which every untalented boy excels. The figures took rudimentary shapes of a delta, a bird, a beak, a wing, wings, a tail, and a bird. A falcon or hawk hovered in the awesome sky like a bad conscience.

        Without much thought he stood up and walked towards the asphalt road, crossed it, walked under inclining trees, entered the weed field and, after a short while, arrived at the ditch; he jumped over it, saw the broken fig branch and threw it away to the other side, among the shrubs. No dog: good. Slowly he plucked and ate the refreshing berries and having collected a handful he sat on the ground and leaned against the trunk and, while he ate and relished, looked at the trees in the distance, at the pale-blue mountains, at the sky: a falcon or hawk hovered. He left the orchard and searched for a stick in the field; first he found a snake. He stripped the leaves and twigs from the strong branch and armed himself with it. When he had reached the asphalt road he waited.

        All this he saw from that circling height from which houses seem toys and the trees lollipops. Imagination’s hawk, mighty hawk, flew from the orchard to the trackway. Contrary to the patience of the hawk, which was still circling, his was variable and short-lived. The boy wiped the figures with his shoe and stood up; in the sunlight he stretched himself. There, in the stubble, a big grasshopper landed. Smiling, he went after it. The hawk, too, had spotted a prey and pounced upon it.

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Por: Abdellah Bouazza

Written: 17-4-1988
Published: 01-10-1993
Englished: 6-3-2007
Re-traduzido: 27.7.2007 (versão para o português: Jansy Mello)

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MORUS MORES
Notícia publicada em: Monday, July 30 @ 15:05:13 BRT
Tópico: Literatura

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