Algumas poesias de Gustavo Alcides da Costa

112

<<Colagem de fotografias das peças teatrais atuadas por Gustavo Costa/ Acervo Próprio>>

.

.

Algumas Poesias de
Gustavo Alcides da Costa

        Vejo um certo abismo no fazer poesia, se pudesse defini-lo – abismo – como o “eu” sem chão. E se é para nos jogarmos, joguemo-nos com força, no exato impulso para não nos estilhaçarmos pelas encostas, e a fim de que possamos atingir aquele âmago, precisamente central, o pontículo mítico inversamente infinitesimal onde não há suicídio e a queda pode nem mesmo chegar a termo – o “eu” sem chão – passarinhando o poeta pelos ares. E quando ele lê o abismo do outro, há sobressalto e delícia no tatear as diferenças temáticas e estéticas. Quero estar em algum lugar entre o cinismo e o pieguismo. Qualquer lugar. Sem (des)compromissos de Tempo e Escola, e ouvindo sempre o intramundo, doce e tempestuoso, egoísta, mas com a primazia do encanto, se a tanto chegar.

 Gustavo Alcides da Costa

.

.

— oo —

CATADORA DE CEREJAS

.

Ah, aquele dia que ainda me habita !
Miro o nada e vivo o preciso instante.
Só tu havia. A malta circunstante,
moldura que a memória não agita.

Visão sagrada em beleza sobeja:
contornos gráceis em lenço escarlate.
À mão resoluta em golpes de embate,
pequena foice a colher a cereja.

Eis Ártemis, em ociosa manhã,
vinda do monte em brejeira pintura
provar a lida da bela aldeã.

Doiradas mechas de rara candura.
D’ouro o Deus-sol da aurora campesina,
faz de minhas mãos o lenço da menina.

 

— oo —

JOÃO ROSA

.

– Eh, boi !
– Nheco nheco (carro-de-boi).
– Eh, boi !
– Nheco nheco.
– Eh, boi !
– Nheco nheco.

Entre troncos retorcidos e pequizeiros,
sariemas e gaviões-campeiros,
vez por outra o pio da cancã,
alguém sem nome continua cruzando os Gerais.

— oo —

AMERICANO

.

Mais um dia nos trópicos.
E a criança inerte repousa agora
num espaço vazio da América.
Tardia, inconclusa.
Criança índia, lusa, cafuza, afro-ibérica.
Seus braços entorpecidos
se levantam e ganham o céu,
tocando o úbere macio da noite
onde os anjos, em trapos,
lhe fazem do cimento um dossel.
E dos farrapos, o território
protegido do sonho,
onde a vida não entra,
a fome adulta, o guarda.
O “não” não entra
e nem o grito medonho.
O silêncio: vem o silêncio, embora tarda.
Não há buzinas, apitos,
gemidos, vozes, risos, estampidos,
enfim, tudo cala.
A criança, a calçada, a rua,
a cidade além da rua,
o continente, e mais além,
o espaço.
E a criança se embala,
inebriada, seminua.
Até que o sol da manhã
retorne impassível à América do Sul.

— oo —

A POSSIBILIDADE DO CORPO

.

Descobrir instâncias muito além do corpo
no corpo mesmo,
que se pega e retrai
e deixa escorrer o caldo da fruta
pelo canto da boca.
O sorriso descuidado
o espaço ocupado e sua gênese
e a emanação que fica sempre,
como um pensamento de saudade
sem ser pensamento e quiçá nem saudade,
ou ainda nem ser, um estar ou nem isso.
Pode ser um brilho, um bem súbito
uma fagulha, um desejo de desejo da alma,
chama preambular quando se olha a boca
o passo, o dorso, a chama.
Então tudo transborda:
e o céu desaba em chão.

— oo —

MARIA

.

Vi Maria a caminhar
Por entre ruas e becos
Era decerto Maria
Aquela das escrituras
Mas ela tinha mil faces
E ainda que não passasse
Sua essência recendia

Maria da lida dura
Dama de todas as dores
Mulher de muitos amores
Barriguda sem nobreza
Maria da pele impura
Gargalhando na pobreza

Maria de tacar pedra
Maria louca da rua
Criatura de dar medo
Maria deitada, nua
Fétida sob a marquise
Dividindo com os cães
As migalhas do degredo

Aquela que nos embala
É linda, tão atraente
É menina nova em flor
E também velha demente
Como nos faz pequeninos!
Maria de toda cor
Maria de toda gente

Evém atrás dos meninos
Aquela que é meio doida
De delírios fesceninos
Xingando mil nomes feios
Protestando com seus meios
Maria também formosa
Declamada em verso e prosa

Maria que foi feliz
E Maria infortunada
Um olho na multidão
Que se esvaneceu no nada
Sonhadora e buliçosa
De risada tão gostosa
Não me deixes nunca, não

Andante na procissão
E Maria no andor
Cantada com devoção
Mas também mulher da vida
Vendo passar da sacada
O povaréu em louvor
Marejando, amargurada

Maria rica de posses
Estrangeira, sertaneja
Maria tísica em tosses
Pobrezinha e benfazeja
Tem Maria que casou
Tem Maria pra titia
Morrerão todas um dia !

Salvo a de manto celeste
Essa, morrer não tem jeito
A que o crepúsculo enfeita
Emoldurando a tez preta
Que alenta os campos gerais
O sertão de leste a oeste
O sertão do nosso peito

Maria que nos habita
O sonho da vitalina
O gozo da libertina
Um corpo que noutro atrita
O mamilo impaciente
Maria de todo jeito
Maria de toda gente.

— oo —

CRÔNICO

.

No restaurante,
um pai, um filho.
Mamãe não vem,
tem outro.
Papai tem outra também.
Hoje é Domingo,
pé-de-cachimbo,
dia de visita
que o juiz ordenou.
Roupa bonita
e o peito em pedaços.
As bocas não falam,
mastigam, apenas.
Foi dia de parque,
foi dia de compras
do que se pode comprar.
Mas o sol do ocaso já invade a sacada.
E nos olhos as lágrimas
da saudade antecipada.
Pai paga. Vão-se embora.
Mãos dadas e o carro some.
E o sonho,
que não pode passar da soleira da porta.

— oo —

DOCEAMARGO

.
Tu me tens na medida exata
em que nosso tempo nos consome.
E ardemos juntos, trêmulos,
sorvendo até o fim o néctar
de nossa existência em outono.
Pétalas únicas, irresgatáveis,
pairando sobre o mundo, soberanas.
Fomos primavera, jardins em esplendor,
e no compasso das horas tardias
ouço ainda o frêmito do teu peito
incandescente,
espargindo sobre a terra
O cio sagrado das almas concretas.
Estranho mundo que te contém:
Ontem, imagem vaga e imprecisa
do tempo embaçado.
Hoje, novo florir, tocável, sobre-real.
E eu nesta ânsia incontida,
cogito, impune, daquilo que quero:
o abraço, e, num segundo,
nossos átomos indivisos, indecifráveis,
bailando sobre o doce-amargo do mundo

— oo —

CECÍLIA

.
Amanheci com suave dor no peito
E uma brisa leve, avarandada
Ressequindo a réstia de ardor que enjeito
Quando relembro tua quadra

Que reviver não é o que magoa
Porém saber-se brisa
Como um teu verso apregoa
Qual fosse telegrama que avisa

E o punho forte da juventude o amassa
Sobranceiro e falaz
Não crendo que deveras o tempo passa
E torna a breve jornada campanário onde tudo jaz

Os homens, o papel, os meninos
Até mesmo a tinta amarfanhada
Os sonhos, imensos ou pequeninos
Só restando a brisa. “Mais nada”.

— oo —

ESTRANHAMENTO

.
A cada volúpia,
um estranhamento.
Algo que se guardaria
Nas cavas do mais íntimo
Filamento.
O braseiro e o torpor.
O destampar de um segredo
apenas conjecturado.
Dois estranhos,
embora ligados
pelo tempo.
O necessário degredo
para o reconhecimento
do amor fundamental:
o amor dos corpos nus.

— oo —

A NOITE E HERZOG

.

As nuvens perpassam rápidas como em sonho,
Claras, portentoso exército iluminado.
A lua imensa e branca no céu revistado
Como um farol absurdo de um tempo medonho.

A noite, recolhida em seu cósmico nicho,
Escondida, na espreita do estertor do dia,
Seu negror, que recolhe a graça luzidia
Naqueles tempos, concedia a chance a um bicho

De escapulir à insensatez da sentinela
Embrutecida a tudo sem enxergar adiante.
Moléstia ocidental e também do Levante,

Que a lua delatora ceva e reproduz
Em dar farol ao celerado e seu obus
E acorda-me em sobressalto sob a janela.

— oo —

ESQUIZO

.
Há alguém aí ?
ajuizado, anestesiado,
transtornado ?
– Pega, pega, pára aquela metade ali,
voando no vento
que é a boa, a cumeeira
de Sísifo,
e se rolar a pedra morro abaixo,
babau.
Na cava depressiva
encruzilho o rei e seu séquito
– Sai do caminho, ô meu.
Que houve?
Que sangue é esse nas mãos?
Ou é a tinta da tia Nise.
Enquanto isso, o mundo
Gira, gira, giiiiiiiiiiiira.

— oo —

DRUMMOND

.

O homem espreita o mar,
que respeita o monte,
que aponta ao céu,
que cobre Minas,
que arde no peito,
que alimenta o sonho
de tornar ao monte

— oo —

MARUJADA

.

Eia!, volteia o barco
puxa no nó do cordel
golpeia a buja
prum lado ou o outro
vamarujar
que já estou voltando
e pulo desse cais
com o peito espedaçado
e vou junto
a escalar nas ondas
a pandegar na calmaria.
Eia, espuma de sal!
joga a bóia velhacada
que a bonita me belisca
nos aquiles.
Pulo dentro, cambada
que o duro do convés é porto.
Pega o copo,
abre a pipa e baixa o nível
da bagaceira carvalhada
pra garganta e pra lanhada
enquanto a vida amanhece
e o torão não vai a pique.

— oo —

MÁRIO

.

O espírito-menino segue ao vento
qual folha seca pela vastidão campeira
passarinhando ao sopro minuano,
simples que nem catavento
a cantar a lógica absurda do apenas coisa:
o céu sendo o firmamento, a fruta, fruta
e o amor ele mesmo, conquanto multicor,
do peito, inteiro ou lacerado (importa ?)
da mocidade, o frescor
se desfolhando ano após ano
em compasso acelerado.
Na escola, na favela, na feira
nas ruas da cidade
a palavra verdadeira
mais da boca salivada
da guria na janela, faceira
que da tese empertigada.
Contempla, Mário!
o arrebol meridional
e as mãos dadas no Guaíba
do teu Sul à Paraíba
e te rias, caro,
com a alma a farfalhar em adejo,
que teu riso é delicada pétala.
Mário!, teu riso é beijo

 

.

.

Por: Gustavo Alcides da Costa

00SELO

Poesias de Gustavo Alcides da Costa
Notícia publicada em: Sunday, June 03 @ 12:40:49 BRT
Tópico: Literatura

Esta notícia é proveniente do Portal Aeternus
www.aetern.us

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *