Entrevista com Humberto Haydt de S. Mello – As dez perguntas

Tancredo e Clorinda

<<Capa do Livro de Humberto Haydt de Souza Mello: Tancredo e Clorinda à Luz de Tasso, Monteverdi e Freud>>

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AS DEZ PERGUNTAS –

Perguntas enviadas pelo Correio Braziliense

para H. Haydt de S. Mello

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Lançamento do Livro

Tancredo e Clorinda à Luz de Tasso, Monteverdi e Freud.

Casa D´Itália

SQS 208/209 – Brasília – DF,

quarta-feira 8 de novembro, 2006, 20h.

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Correio Braziliense — “Se não conseguimos ser os deuses que queremos, quase chegamos à condição de bestas, ao simular a perfeição que só a estas está garantida” — está escrito no release do seu novo livro. Se somos tão imperfeitos, como podemos querer ser deuses?

Humberto Haydt de S. Mello — Exatamente por isso. O canto de liberdade sempre parte do cativeiro. Não é por isso que o comum é elegermos o maior prisioneiro?

CB — Se os grandes escritores são nossos mestres e eles têm acesso a fontes que nos são vedadas, no dizer de Freud, seu livro é uma ponte para os grandes que dele fazem parte (Freud, Tasso e Monteverdi)? A ponte também está sujeita a ser revelada pela leitura e pela escrita?

HH — Claro. O problema é haver leitura. A leitura não é a decodificação de letras que todo alfabetizado faz, nem o reconhecimento de significados que todo dicionário quase consegue. O fato de eu assim especificar as condições do que não garante a leitura, não me faz alguém que possa ensinar a ler. A leitura é a responsabilidade de um autor, é uma questão sintomática.

CB — Por que a leitura é o segredo sobre o não-revelado, como escreve o senhor na epígrafe?

HH — Porque nenhuma escrita revela o mistério do que quis se escrever. Então a leitura nunca deve ser feita sobre o que foi escrito. A questão é: “Como se faz a leitura? Lá está esta como uma ambição de autor.”

CB — E por que a escrita é outro segredo revelador?

HH — O segredo tem dois códigos para o mesmo cofre: Primeiro o código da leitura; o segundo é também o código da leitura. E os dois códigos não são escritos. E não são os mesmos.

CB — Sabe-se que o senhor repele a psicologização da psicanálise, a conversão do saber do Inconsciente numa formulação prêt-à-porter, mas este seu livro parece ter sido escrito numa linguagem de fácil entendimento. Isso não abre as portas para essa psicologização de tudo quanto nele há?

HH — Paciência. Muita paciência. Eu não posso com a besteira universitária. Neste registro, todo saber será transformado em conhecimento, e os submetidos a este regime sempre serão conhecedores. O conhecedor falará como a histérica, enquanto que o saber, que é a exigência do Inconsciente, será a pontuação do psicanalista.

CB — Uma criança — escreve o senhor — mesmo que ainda não falante, já tem o aparelho chamado “personalidade” para se disfarçar como já sendo humano. O que garante que a criança vai se transformar num ser humano? Ou, de outro modo, o que é um ser humano, para além do fato de ele ser da espécie homo sapiens?

HH — Discordo do “para” antes de “se disfarçar…” . Se tem personalidade, é porque já é humano. Criança não se transforma em humano; já é humano. O que ocorre é que pode perder a condição de humano. Mesmo assim não conheço um caso de livro. Conheço tentativas desesperadas de se provocar a escapada à condição humana. Vejam a nosografia psiquiátrica. Isso é um conhecimento.

CB — O senhor trata no livro da “compulsão à repetição”, — o que ocorreu com Tancredo quando mata duas vezes Clorinda.Tancredo é servo do sintoma, como escreve o senhor. Basta a ele saber da existência do sintoma para dele se livrar? Um homem se livra de seu sintoma ou aprende a conviver com ele?

HH — Não só Tancredo tem o sintoma como senhor, mas cada um de nós. Matar é uma coisa séria, é verdade, mas matar duas vezes já é coisa de louco. A segunda vez é sob estado de alucinação. Num caso destes, se Tancredo é avisado de que está louco, este aviso só pode ser dado por alguém que privilegia o conhecimento, por isso dá ciência à loucura esperando recibo e solução. Ninguém se livra do sintoma, nem os loucos nem os que avisam aos loucos. Ambos são afetados pela maldição do desencontro. Aprender a conviver com o sintoma é o dever de cada sintomático. Mas como considerar esta questão como se fosse a presença de uma verruga?

CB — O senhor disse que Lacan quase põe a perder o que conquistou na sua condição de discípulo tão radical de Freud. Por quê?

HH — Porque ele deu margem à ilusão de que a Psicanálise é assunto de conhecimento, livros, cursos e outras bugigangas universitárias.

CB — Há mais de 20 anos, o senhor transmite a psicanálise em sessões no Colégio Freudiano de Psicanálise em Brasília. Do que o senhor precisa para fazer essa transmissão?

HH — As sessões são Seminários de Avanço. Nestes encontros procuro desmanchar as ilusões sobre a transmissão da psicanálise. E conduzo a descoberta de Freud para mais perto do mistério e, curioso, os avanços de Lacan são altamente pertinentes para isso. Os meus livros são resultado disso.

CB — O senhor é discípulo de Freud, e é autor de 11 livros sobre o legado freudiano. É um autor em uma cidade culturalmente periférica, e sua obra carece de divulgação. O senhor não se sente solitário nesse percurso?

HH — Graças a Deus Brasília ainda não é cidade onde se produz uma Folha como a de São Paulo, apesar de um costume que vem se alastrando, de eventos em que psicanalistas são chamados às funções de desdobradores de sentidos eróticos de filmes corpulentos. Gosto de estar solitário numa trajetória solitária. Sempre digo que sou um mestre e autor de uma obra póstuma. Depois, que tentem esvaziá-la.

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AS DEZ PERGUNTAS
Notícia publicada em: Tuesday, November 07 @ 02:14:03 BRST
Tópico: Literatura

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