Sob a redoma da petisqueira

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<<Imagem encontrada no site: Full Fit>>

Sob a redoma da petisqueira

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Jansy B.S.Mello, 2006

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I – Prato Feito

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        Drummond à mesa se pergunta se “comer guarda tamanha importância que só o prato revele o melhor, o mais humano dos sêres em sua treva?”, e com isto ressuscita a charada sobre o significado e a morte das coisas. “Does eating hold such significance that the bottom of the dish alone reveals the best, most human, of our beings?” redobra-se a pergunta na tradução de Elisabeth Bishop, para a coletânea “An Anthology of Twentieth Century Brazilian Poetry“, que organizou com Emanuel Brasil em 1972.

       Recentes estatísticas sobre a queda nas vendas de mesas com mais de quatro lugares fazem uma vaga alusão aos apelos dos programas de televisão, responsabilizados pela quebra dos rituais burgueses, como se nas novelas não houvessem famílias à mesa, formando um semicírculo que se abre e inclui o espectador. Longe de casa, crianças inquietas ainda brincam com miolo de pão enquanto seus pais almoçam com amigos, ou se aboletam rapidinho para um sanduíche ou chope num bar. Nem mesmo os pratos são indispensáveis como se substituíssem um endereço fixo. Parece que nos esquecemos das coisas simples que trazem felicidade, talvez por esperarmos que nos peguem de surpresa, adicionando uma aura qualquer a sua trivialidade. Basta almoçar em um restaurante para encontrar sorrisos jovens e velhos nos grupos domingueiros, distraídos da sua celebração (é que as emoções, mesmo as boas, podem ser cansativas).

          A poesia, também, nos oferece a vida em cápsulas que se quebram entre dentes e língua. Verbo e ritmo se prestam à rememoração, mesmo sem a epifania de uma madeleine dissolvida em chá de tília. O momento mágico deste chá descrito por Proust, entre as quatro ou cinco vivências a ele assemelhadas, é o que comumente se cita e não sei se a preferência vem de ser este o primeiro da série, ou se ele se impôs por descrever a cerimônia de uma incorporação da vida em torno de um prato com sua treva.

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<<Imagem encontrada no site: Malagueta Comunicação>>

           

 

 Eis a primeira memória involuntária de felicidade relatada por Proust no livro “No caminho de Swann”:

 

“Num dia de inverno, chegando eu em casa, minha mãe, vendo-me com frio, propôs que tomasse, contra meus hábitos, um pouco de chá. A princípio recusei e, nem sei bem por que, acabei aceitando. Ela então mandou buscar um desses biscoitos curtos e reconhonchudos chamados madeleines, que parecem ter sido moldados na valva estriada de uma coquille de Saint-Jacques. E logo, maquinalmente, acabrunhado pelo dia tristonho e a perspectiva de um dia seguinte igualmente sombrio levei à boca uma colherada de chá onde deixara amolecer um pedaço de madeleine. Mas no mesmo instante que esse gole, misturado com os farelos do biscoito, tocou meu paladar, estremeci, atento ao que se passava de extraordinário em mim. Invadira-me um prazer delicioso, isolado, sem a noção de sua causa. Rapidamente se me tornaram indiferentes as vicissitudes da minha vida, inofensivos os seus desastres, ilusória a sua brevidade, da mesma forma como opera o amor, enchendo-me de uma essência preciosa; ou antes, essa essência não estava em mim, ela era eu. Já não me sentia medíocre, contingente, mortal. De onde poderia ter vindo essa alegria poderosa? Sentia que estava ligada ao gosto do chá e do biscoito (…) da manhã à noite e em todos os tempos, a praça para onde me mandavam antes do almoço (…) e toda Combray e suas redondezas, tudo isso que toma forma e solidez, saiu, cidade e jardins, de minha xícara de chá.”

 

          Passando do cru ao cozido a civilização se constrói em torno de banquetes, inaugurados, se seguimos a mitologia freudiana em “Totem e Tabu”, pela festa na qual o pai da horda primeva foi devorado antes de ser lamentado e transformado em totem. Da mesma forma o ritual cristão se renova semanalmente, quando repete a Santa Ceia e a incorporação do pão e do vinho na transubstanciação. São as formas trágicas da cultura em suas travessias solenes, hieráticas.

           Ainda folheando ao acaso a antologia de Bishop e Brasil encontrei, em dois poemas distintos, uma palavra rara de rima pungente. No Drummond, “feroz a um breve contato, à segunda vista, sêco, à terceira vista, lhano, dir-se-ia que êle tem mêdo de ser, fatalmente, humano” (“passionate at first meeting, dry, the second time, agreeable, the third, one might say he´s afraid of being fatally human“) e, em Vinícius enxergando a pêra como em cêra, “pomo em holocausto à vida… entre bananas supervenientes e maçãs lhanas rubras, contentes” ( que um outro tradutor, que não Bishop, se empenha para remeter a “candid“). Intriga-me o mistério das escolhas que rejeitam este vocábulo para darem incandescência a um outro, que extraem da ganga léxica o tesouro passageiro de um súbito fulgor. Este enigma não surge porque se buscaria comunicar idéias e transmitir mensagens carreando sentido, como nos noticiários ou nos romances. Cada poema bem sucedido é uma jóia que, com sorte, conseguimos ver cintilar no céu da espera ou que fazemos explodir na boca da memória, sem maiores significados ou deciframentos.

         Inspirada pela recorrência de “lhana” fugi do livro que lia e tentei recolher migalhas de um poema de Rilke, para quem o sabor da pêra e da banana dominaria a palavra sem que esta desaparecesse (mesmo ao perder sua imagem no espelho). Foi assim que cheguei ao Soneto a Orfeu I, 13, que se inicia com “Voller Apffel, Birne und Banane,/ Stachelbeere…Alles dieses spricht/ Tod und Leben in den Mund…” ( “A intensidade das maçãs, pêras, bananas e amoras… tudo isto fala da morte e da vida em nossa boca”). Vemos o poeta se perguntar sobre as frutas que, no palato, “lentamente tornam-se inomináveis quando, em vez das palavras, livres e surpresas, tornam-se descobertas a fluir da carne da fruta.” Para ele o que se chama de “maçã” é a “doçura que se condensa em poema para crescer silenciosamente no sabor até se tornar clara, acesa, transparente, ensolarada, terrena, presente pelo seu duplo sentido…”

           Passando deste louvor de Rilke, retomei à Antologia bilíngüe para procurar, em vão, outros poemas de Bandeira além dos quatro selecionados (“O Ùltimo Poema”, ”Antologia”, “Rondó dos Cavalinhos”, “Tragédia Brasileira”) ou mais um de Mário de Andrade, fora o “Improviso do Rapaz Morto”, até que empaquei com o conciso resumo biográfico de Cecília Meireles: “Cecília Meireles (1901-1964) was born in Rio de Janeiro, and for many years worked there as a librarian in the public library. She wrote several books for children.” Conclui, então, que a antologia, que pretende apresentar aos estrangeiros o melhor da poesia brasileira do século passado, ficou presa ao desanimo de Bandeira, “os cavalinhos correndo, e nós, cavalões comendo… /O Brasil politicando,/ Nossa! A poesia morrendo…” , como se a boa poesia devesse lidar com a morte e o luto que, mesmo sem sua ajuda, nos confronta a cada dia, como se a escrita fossem rastros do passado, apenas um testemunho.

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II – O objeto perdido da nossa fome

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        Nos “Três Ensaios Sobre a Teoria da Sexualidade”, Freud (1905) descreveu o que ele tomou como o protótipo de toda relação de amor: “numa época em que os inícios da satisfação sexual ainda estão vinculados à ingestão de alimentos, o instinto sexual tem um objeto sexual fora do corpo do próprio infante, sob a forma do seio da mãe (…) Há, portanto, bons motivos para que uma criança que suga o seio da mãe se tenha tornado o protótipo de toda relação de amor (…) Mesmo após a atividade sexual ter-se desligado da ingestão de alimentos, persiste uma importante parte desta primeira e mais significativa de todas as relações sexuais, a qual ajuda a preparar para a escolha de um objeto e assim restaurar a felicidade que foi perdida”. Uma das primeiras explicações sobre a insistência freudiana quanto à inescapável presença da libido em todas as atividades humanas ensinou-me que, se morre o homem privado de ar, água ou alimento, suas outras carências não o impedirão de viver. As pessoas que encontramos diariamente seriam, portanto, os sobreviventes…

         Neste breve capítulo sobre a tentativa de reencontrar o primeiro objeto do nosso amor, Freud incluiu uma nota de rodapé na qual ele conta a história de um menino de três anos que tinha medo do escuro. O garoto sentia-se desamparado porque temia perder o amor da sua mãe e, das trevas deste desamor, ele sentia que “se alguém falar, a luz vem”. Segundo Freud quando uma criança transforma a libido insatisfeita em ansiedade, comporta-se como um adulto, ao passo que o neurótico adulto vive sua ansiedade de modo infantil porque, por trás de tudo vem sua insegurança de ser amado. Parece que, mais do que do alimento para o corpo, o que nos sustenta são as pequenas comunidades conversadeiras nas quais nos encaixamos, com ou sem mesa, com ou sem prato.

         Sofremos da fome de palavras, que nos alcançam pelo som que nos convoca ou pela promessa do desenho onde se materializam. Até mesmo as paisagens se recortam e se constroem apenas quando aprendemos a usar os pincéis e a tesoura do verbo, como talvez sugerisse Baudelaire quando reconheceu que habitamos uma floresta de símbolos. Com o tempo começamos a esquecer dos medos infantis que carregavam consigo as dores e o mistério de estarmos no mundo enquanto seres que se nutrem e se garantem pelas palavras. É quando deixamos de perceber o quanto este mundo verbal nos sustenta sobre “vítreos alçapões” (nas palavras de Drummond).

          A escrita, principalmente a atual que transporta a mensagem de forma quase imediata, graças aos recursos do computador e da internet, não é apenas algo que serve como um registro do passado e estende nossa memória. Rabiscos e letras formam frases que têm força para ressuscitar o que esquecemos. Eles podem criar uma presença real que transcende a historicidade, demandada pela sucessão das palavras numa linha, que surge quando as palavras reassumem seu poder mágico que, cientistas modernos, atribuímos apenas à mentalidade animista. Um poema bem sucedido nos penetra através de todos os sentidos e sua duração cria lascas de futuros obscuros ou luminosos. Seu efeito não se prende ao sentido recuperado, em retrospecto, depois que se alcançou o ponto final da sentença. E, seguindo T.S.Eliot ( como Camões, Fernando Pessoa, Dante Milano), vejo que, entre outras coisas, a poesiaprecisa expressar “o equivalente emocional do pensamento” para gerar a dança de construção, destruição e reconstrução do cotidiano.

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Por: Jansy Berndt de Souza Mello

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Sob a redoma da petisqueira
Notícia publicada em: 2006,  June
Tópico: Ensaios

Esta notícia é proveniente do Portal Aeternus
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