Bordados de uma Odisséia

 

<<Imagem encontrada no site: We heart it>>

Bordados de uma Odisséia

 Jansy Berndt de Souza Mello

         Primeiro:

        Foi preciso dar mais um puxão para desembaraçar a corda da persiana que de pronto lançou grades cinzentas contra a parede. Uma mosca posta em foco executou uma pequena dança nos intervalos. Passos apressados na rua molhada pela garoa preveniram das batidas na porta (por que sempre três?). Sussurros de vozes e roupas caindo. Genoveva! Genoveva!

          Depois do clique, a lâmpada leitosa pendente por um fio largou a luz do teto. Genoveva!

         Terminando de dobrar a camiseta e de pendurar a camisa no cabide, ele arrumou os sapatos lado a lado, os bicos reparando a porta pelas pupilas de peras brilhantes aderindo aos reflexos.  Do lado oposto, outras vistas atravessavam no binóculo.

          Clique. Desapareceram os contornos. Genoveva. Apagaram o céu e o granizo.

          O quarto era de bom tamanho, nem largo nem fundo. Do barzinho no andar de baixo vendiam comida caseira e o som dos talheres e das garrafas marchavam no ritmo do sol. Atrasada para o dia seguinte, batendo as mãos umas nas outras, Genoveva esperava o pingado e o pão com manteiga, aquecendo-se nervosamente. Era preciso deixar tudo isso pra trás, os muros altos dos clubes a sua esquerda, o súbito da larga avenida e as hortênsias murchas na esquina.

         Atravessou correndo a rua, desanimada com as buzinas. O dia esquentava e Genoveva respirava ardido. Quando sentiu a coceira do olhar longínquo sobre seu corpo ajeitou, com as mãos em concha, o volume macio dos cabelos, como se antecipasse o que, de fora, nela conferiam. Só a cabeça requebrou. Caminhava sem oscilar, disfarçando o salto solto e o sobressalto.  A ponta da sua saia vermelha piscou depois que dobrou a esquina. O sinaleiro acenou para que seguisse em frente. Empinou as espáduas e a bunda, mas, encolheu a barriga sob o golpe certeiro do olhar do balconista da mercearia que já deixava pra trás. Precisava absorver a luz do dia antes de retornar ao quartinho, em vez de… Em vez de quê? Qual a alternativa? Precisava seguir em frente, só isso.

       E, se desistisse de voltar, se continuasse andando até não poder mais, será que um dia acabaria no mesmo cantinho de onde havia escapado?  Secretava uma trilha invisível como a casa que levava na memória das costas. Ia ciscando olhares, pressentindo murmúrios a criarem uma legenda para seus passos. Vermelho. Verde. Uma sirene quebrou as regras, obrigando Francisca a dar uma corridinha até o cruzamento. O cachorro que a seguia desde cedo hesitou. Vermelho. Estava perdido Argos. Uma coçadinha e estaria pronto para a espera.

         Pare, siga. Tudo dá na mesma poeira espalhada nos dois lados da travessia.  Aquele cara do binóculo desarrumou sua rotina.

 

Segundo:

         Escureceu de repente. Um vento frio varreu os  restos de papéis de bala misturados às folhas amassadas e bilhetes rasgados. Não sei qual mão acendeu a luz dos postes que chuviscaram no cinza tremelicando nas poças. As janelas aderiram mais lentamente ao clima e recortaram clarões esparsos contra o black-out imposto pelas rajadas de chuva. Genoveva jogou longe o salto quebrado e, conformada, manquitolou para casa.

       Por trás das cortinas  tentou se recompor sem dar conta do súbito arrepio que as sombras das árvores intrometiam no quarto. Um novo recorte de luz, agora amarelo, nasceu do outro lado da rua. Genoveva discerniu Dona Sergipa enxugando pratos na cozinha. Aqueles quadrados espalhados pelo escuro eram um convite à devassa dos olhares de quem se abrigava sob jornais e  marquises ou que, como Genoveva, espiava pelo balcão antes de puxar a cortina. Velha de perfil, velha de lado, velha em corte sagital. As pessoas estão sempre se explodindo quando as miramos para paralisá-las num quadro inteligível. Cada momento é sempre mais que a sua soma.  Outros olhos se abriram no prédio ao lado. O primeiro logo se apagou e o outro, segundos depois, o acompanhou. A fachada ficou novamente cega. Três ônibus passaram sem parar no ponto, repetindo na horizontal o calor das janelas, impondo movimento aos reflexos de um cachorro alquebrado.  Se olharmos para um abismo por muito tempo (acho que foi Nietzsche quem falou disso), ele nos olhará de volta. Mas não havia ninguém senão Genoveva flagrada pelas profundezas do entardecer precoce com suas várias solidões.

         Sonhou o mesmo sonho da multidão, sem ir atrás porque preferia continuar dormindo depois da noite agitada. Só depois, apareceram outros, exclusivos. Não bastava tirar a roupa devagar, era preciso despir-se dos brincos e fitas, procurando novo umbigo que lhe permitisse trocar de pele sem virar pelo avesso.

           Deve ter sido um pesadelo de páginas trocadas, labirinto sem renovação. O dia amanheceu o mesmo. O vizinho, cada olho binário espreitando, continuava a postos tentando fazer convergirem as imagens.

            Genoveva aceitava o entorno das companheiras de profissão. Não faziam sociedade, não criaram clube e, na ausência de um ideal, lhes faltava um defensor comum. Marileide via o mundo, o quarto, o corpo como uma coisa só, uma espécie de cofre eclesiástico. Disfarçava a bombinha que lhe servia de aspersório, porque nem ar expelia com gentileza. Devia ter várias, aliás, cada uma para a boquinha indicada. S. era do tipo pau pra toda obra. Haja obra. Bené de vez em quando esbarrava nela cedinho no boteco e se tocavam como se catassem piolhos sem a pachorra dos símios. As duas se empapavam de patchuli e, ao se afastarem, a mistura doce do perfume e do sexo permanecia como ponto de união. Eram, quiçá, amigas platônicas na sua inconsciência e as duas também se assombravam com o vulto das folhas. Vestiu novamente a saia cor-de-gato-noturno, sonhando com o lusco-fusco de um impossível tafetá. Pra quebrar a pardaceira, escolheu uma blusa tricolor de alcinha plastificada e pendurou-se mais uma vez nos brincos  de latão. A sandália de salto estava inutilizada. Usaria as sapatilhas da falecida Berê, gastas  e metidas ao dourado, trançado com miçangas que imitavam marfim. Dela restara ainda um robe florido que, às  vezes vestia para ir ao banheiro comunitário, segurando no braço toalha e sabonete. Porque se distraiu um sopro de brisa fez disparar seu coração não sei por que, a infelicidade sumiu por instantes e, desafinando, abriu a torneira. Pancadas na porta a despertaram, impacientes. Talvez o ar da noite trouxesse uma surpresa. Tirou do encosto a bolsinha encardida de amarelo. Tropeçou na cadeira.

 

Terceiro:

          Era tão feia a pobre da dona Sergipa que não se apercebia. Exibia a vaidade com tanta inocência que caçoar, por estranho consenso de família e vizinhança, era tabu. Arrumara um filho não se sabe como e o Quincas estava a completar oito anos. Parecia-se com a mãe e seus dentes incisivos recusavam-se a crescer no espaço  rosado, assim como faltavam à mãe. Mas o apelido era só dele, tradicional. Chamavam-no Quincas 1001 e a dupla vivia feliz como nos contos de Sheherazade.  Genoveva gostava de passar pelo quintal da dona S., como se pudesse absorver alguma coisa daquela vida que, apesar de tudo, não queria para si. Preferia a dureza dos despojos, mas encantavam-lhe os momentos em que olhava através dos pequenos buracos da rotina e se esquecia do que de si não havia. Esta eternidade partida era protegida do mundo que se construía pela tevê, olhos mirando olhos em espelho. Até que um dia  Quincas 1001 sumiu do seu cantinho preferido na calçada.

             Velha de frente, velha de perfil. A vista era a mesma sem as janelas do Quincas, mas Genoveva não sabia mais onde estava. Temia mudanças sem bússola em fixo. Pitangas cresciam pro lado NESO,  framboesas e mangas se enroscavam nas abóboras e nos mimos descascados. Esparrramava-se ao vento como as rosas, e jogava lágrimas aos porcos.  Ai, pobre Genoveva, antes tão bela da noite. Viajava ao seu modo sem severinas das longas caudas de história. De longe, daquele longe relativo dos grandes absolutos, sentia o aroma das auroras.

           Seria ela o Quincas perdido? Da última vez  deixara o 1001 pra ser mais zeros naquela montoeira dos pontinhos turvos arrumados em quadrados nas caixas de leite longa-vida. Meninos desaparecidos com as contas de luz. Cachorro morto.

              Telemaco descobriu que seu pai não voltaria e fugiu para as ilhas com Genoveva.

00SELO

BORDADOS DE UMA ODISSÉIA
Tópico: Literatura

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