Convite/Abertura

Convite/Abertura (Aeternus)

 

<<Colagem de texto sobre imagem do site “Lampshade“>>

CONVERSAS EM GRUPO [PARTE 1]

149-02

 <<Imagem do site: “Parangole“>> 

Fluências inquietantes e para além da psicanálise (Conversas inconscientes – Sessão em Grupo

– A. A.: Associação Aberta)

 Estanislau Alves

 Este aqui, mais do que um texto, é uma proposta. Proposta de uma conversa, na medida do possível, infinita. Uma conversa que espera por continuidade, que espera pela participação e aparição de muitíssimos outros autores (vozes singulares-plurais de várias pessoas: eu, tu, ele, nós, vós, eles, etc.). Uma conversa que busca ressonâncias, que busca ecos e reflexos, dos mais diversos – graves, agudos, harmônicos, histriônicos, opacos, distorcidos, disruptivos, contrastantes. Não carece, mas pede, faz um convite para uma escrita conjunta – com uma escuta. Preferencialmente, não necessariamente, realizando-se uma escruta (cf. dicionário) sobre…

 Cordialmente, Estanislau.”

   FREUD: Psicanálise é uma ciência,tal qual a física.

  ESTANISLAU: Você diz isso por conta da precisão ou do funcionamento? Pois penso que não se assemelha nem em um e nem em outro – embora na sua época isso pudesse ser cogitado.

  BION: Suponha que há incontáveis outros universos, como grupamentos globulares ou as nebulosas espirais, tais como M 31 e M 33. Mesmo os cientistas não conseguem calcular a distância do nosso vizinho mais próximo, com maior exatidão do que entre um e dois milhões de anos luz – uma medida da imensa ignorância da mente humana, em seu nível mais sofisticado, matemático, científico. Do mesmo modo, é improvável que o método mais profundo de investigação conhecido por nós – a psicanálise – esteja fazendo mais do que arranhar a superfície.

  EINSTEIN: Toda a nossa ciência, comparada com a realidade, é primitiva e infantil – e, no entanto, é a coisa mais preciosa que temos.

  ELLA SHARPE: Gosto de pensar na psicanálise como arte.

  WINNICOTT: Não tenho muita certeza se concordo com sua opinião de que psicanálise seja uma arte. Há algo que a senhorita quer comunicar, a partir de sua vasta experiência, e que expressa desse modo. Mas, quanto a mim, gosto do trabalho psicanalítico verdadeiro mais do que dos outros tipos, e o motivo está ligado ao fato de que na psicanálise a arte ocupa um espaço menor e a técnica baseada em considerações científicas um espaço maior. Portanto, quando a ouço falar da psicanálise como uma arte, vejo-me em dificuldades, não desejando discordar completamente, mas temendo que se dê a esse seu comentário importância excessiva. Obviamente há aqui bastante espaço para discussão, mas achei que devia comunicar-lhe o que penso, porque geralmente quando falo de aspectos não-analíticos do trabalho psiquiátrico descubro que as pessoas acham que estou fazendo um comentário sobre a análise de verdade, o que não é minha intenção.

  BION: O psicanalista precisa ser um artista. Que espécie de artista é você? Um ceramista? Um pintor? Músico? Escritor? Na minha experiência, um número enorme de analistas não sabe que tipo de artistas são.

  PERGUNTA: E se eles não forem artistas?

  BION: Aí estarão na profissão errada. Não sei qual a que serve pois, mesmo que não sejam psicanalistas, eles precisam ser artistas na vida.

  ESTANISLAU: Ok, um psicanalista precisa ser um artista. Mas ele precisa ser um cientista? Psicanálise é uma ciência? Ou é outra coisa?

  WINNICOTT: Psicanálise e ciência: amigas ou parentes? […] A psicanálise, é um termo que se refere especificamente a um método, e a um corpo teórico que diz respeito ao desenvolvimento emocional do indivíduo humano. É uma ciência aplicada que se baseia em uma ciência. […] Eu diria, a respeito dos cientistas, que quando surge um vazio no conhecimento, o cientista não se desvia para uma explicação sobrenatural. Isso poderia sugerir pânico, medo do desconhecido, uma atitude não-científica. Para o cientista, todo vazio no entendimento oferece um desafio excitante. Assume-se a ignorância, e se delineia um programa de pesquisa. A existência do vazio é o estímulo para o trabalho. O cientista pode se permitir uma espera e se permitir ser ignorante. Isso significa que ele tem algum tipo de fé – não uma fé nisto ou naquilo, mas uma fé, ou uma capacidade para a fé. “Não sei. Tudo bem! Talvez algum dia eu venha a saber. Talvez não. Então, talvez alguma outra pessoa venha a saber”.

  MAURICE BLANCHOT: La réponse est le malheur de la question (a resposta é o infortúnio da pergunta, ou a resposta destrói a pergunta).

  WINNICOTT: Para o cientista, formular questões é quase tudo. As respostas, quando aparecem, apenas conduzem a outras questões. A idéia do conhecimento acabado é o pesadelo do cientista. Ele estremece só de pensar numa coisa dessas. Comparem isso com a certeza que envolve a religião e verão como a ciência difere desta.A religião substitui a dúvida pela certeza. A ciência suporta a infinitude de dúvidas, e implica fé. Fé em quê? Talvez em nada; apenas uma capacidade de ter fé; ou, se tiver mesmo que existir fé em algo, que seja então fé nas inexoráveis leis que governam os fenômenos.

  LACAN: […] A psicanálise é outra coisa.

  ENTREVISTADOR: O que exatamente?

  LACAN: Não é uma filosofia, e não gosto de chamá-la de ciência. […] Defino-a como um sintoma, revelador da enfermidade da civilização em que vivemos.

  BION: Assim, posso argumentar que a mente e seus trabalhos têm grande importância; o resto, uma total estupidez em estado nascente, chamada “o inconsciente”, é misturado, glorificado e idealizado como um tributo posterior à mente. Ao lado disso, proponho uma teoria de £ com um órgão de sentido recentemente reproduzido, conhecido como “fim”, no qual se presume que várias funções, geralmente associadas com a psicanálise (a situação edipiana, agressão, rivalidade) sejam observadas (no modelo, sob forma de dis-túrbio, dis-função, sexo, medo, amor). A personalidade, ou mente, assim retratada psicanaliticamente em detalhe, é um fotograma recente de uma realidade existente há muito tempo, que tem significado apenas na medida em que uma anatomia física arcaica possa tê-lo. A psicanálise poderia parecer um fenômeno efêmero que denuncia certas forças na superfície em que a raça humana bruxuleia, tremeluz e esmaece, em resposta a uma realidade não conhecida, porém gigantesca.

     O ponto prático é não continuar com investigações da psicanálise, mas sim da psique que ela denuncia. Isso precisa ser investigado através de padrões mentais: isso que é indicado não é um sintoma; isso não é uma causa do sintoma, isso não é uma doença ou algo subordinado. A própria psicanálise é apenas uma listra na pele de um tigre.

  BRUCE LEE: É como um dedo apontando para a lua: se você se concentrar no dedo, perderá a dimensão da glória celestial.

  ESTANISLAU: Não interessa estudar psicanálise, mas sim a vida que ela denuncia. Enquanto a discussão se prender e se perder na psicanálise, o ponto que interessa estará sempre excluído, e estaremos muito mais contribuindo para o fracasso da própria psicanálise. Proponho que quase toda discussão psicanalítica tenha como meio (não fim, nem começo) a morte da psicanálise. Morte à psicanálise! Mas que colhamos eternamente as flores de seu cadáver!!!

  T. S. ELIOT: O cadáver que plantaste ano passado em teu jardim já começou a brotar? Dará flores este ano?

  PERGUNTA: Está dizendo que a experiência analítica pode ser desumanizante?

  BION: Penso que há grande risco de isso acontecer. Deparo com um bocado do que é tido por psicanálise científica, mas que em mim nada desperta a não ser tédio.

  ESTANISLAU: Parodiando Nietzsche sobre deus, “A Psicanálise está morta! Ela permanece morta! E quem matou fomos nós!” Nósanalistas que nos intoxicamos com nossa intolerância à nossa ignorância. Nós que saturamos e entuchamos repetidamente significados e os mesmos significados em tudo, que não conseguimos enxergar outra coisa. Nós que separamos o pensamento da ação e especialmente do sentir e do viver, erguendo totens e dogmas. Discutindo mais psicanálise do que a vida que ela denuncia, matamos a jovem dama.

  BION: Se eu tivesse ouvido você falar isso há alguns anos, tenho a impressão de que tanto eu como meus colegas ficaríamos chocados e pensaríamos que você estava se voltando contra a psicanálise.

  ESTANISLAU: Bion, eu aprendi (não só) com você a me preocupar com a situação da psicanálise. É você que reflete: “a psicanálise está em sua infância? Se sim, em que pólo da cadeia se situa o psicanalista prático, como bebê submerso em seus excessos pulsionais ou como mãe capaz de revêrie? Ou talvez esteja mais próximo do psicótico que, incapaz de dormir e de estar acordado, produz compulsivamente um sem número de “teorias” a respeito de si mesmo e do mundo, ação cujo único sentido é a preservação de sua própria vida, sempre em risco iminente? […] Se a Psicanálise, a ciência dos sonhos, pretende continuar existindo é fundamental que os psicanalistas revejam sua prática, isto é, se ela está mais a serviço de manobras de defesa ou de ataque, com a consequente criação de um verdadeiro arsenal prático-teórico direcionado a explodir com tudo aquilo que possa ameaçar aidentidade do psicanalista; ou se está a serviço de possibilitar ou acolher a palavra e o sonho do analisando. Em outras palavras, estariam os analistas intoxicados por suas práticas e por suas teorias a ponto de estarem incapacitados para exercer a função desintoxicante imprescindível para seu trabalho? Os psicanalistas têm contribuído para a vida ou para a morte da Psicanálise?”

  SILVIA BLEICHMAR: Não há dúvida em dizer que grande parte da inteligência psicanalítica está travada pelo engodo de paradigmas que já não sustentam sua racionalidade nem teórica nem prática; paradigmas que devemos revisar para que se tornem novamente fecundos, para além do dogmatismo e das transferênciasque amarram cada um a suas certezas estabelecidas.

  BION: Não seria terrível se o todo da Psicanálise não passasse de uma vasta paramnésia destinada a preencher o vácuo de nossa ignorância?

  […] Silêncio […]

  KARL POPPER: A verdadeira ignorância não é ausência de conhecimento, mas sim recusa em adquiri-lo.

  SILVIA BLEICHMAR: Uma velhapiada: um homem está procurando algo à luz de um farol, chega outro e pergunta: “O que está procurando?”, e o primeiro responde: “A carteira”. “Você a perdeu aqui?”, pergunta o outro. “Não – responde – na outra esquina, mas aqui tem mais luz”.

  ESTANISLAU: Reitero que discussões psicanalíticas, praticamente, não deveriam existir, especialmente aquelas metapsicológicas. Se a discussão se resumir a psicanálise, perderemos o brilho da lua, não acharemos a carteira e, de quebra, a psicanálise continuará morta e sem dar flores ou frutos.

  WINNICOTT: Tenho uma suspeita tão profunda pelos termos da metapsicologia analítica. […] Será que é porque eles podem fornecer uma aparência de compreensão onde tal compreensão não existe?

  BION: Se temos uma mente e se temos necessidade de satisfazer a nossa curiosidade, devemos encontrar um meio ou uma escala de mensuração. Pergunto-me se isso teria algo a ver com a realidade, ou se não teria muito mais a ver com a natureza pouco eficaz de nós mesmos. Por exemplo, li que a distância da nebulosa da qual nosso sol faz parte, medida através do centro galáctico é estimada por volta de 108 milhões de anos luz; o espaço que nós ocupamos no momento atual, no espaço absoluto, iremos ocupá-lo novamente daqui a 108 milhões de anos luz. Não sei se alguém se sente mais sábio, eu não. Mas isso tem o ar de dar uma tal contribuição de conhecimento e de ser muito sábio. Pelo que me diz respeito, não significa praticamente nada, apenas que alguém se sente melhor. Não me sinto especificamente iluminado pelas várias descrições da mente ou da personalidade – Ego, Id, Superego e assim por diante. 

  ESTANISLAU: Mas você tem alguma sugestão para o como podemos proceder? Dê-me um exemplo de como você faria para discutir não psicanálise, mas ao que ela aponta.

  BION: Certa vez perguntaram a Winnicott: “Por que o objeto bom é destruído?” O objeto bom é somente um termo técnico psicanalítico – não me sinto particularmente atingido nem pela questão nem pelo problema. Mas suponho que temos uma oportunidade de ver, não por qual motivo o objeto bom está em perigo, mas que a destrutividade é estimulada pela presença de alguma coisa que pode ser destruída. Em outras palavras, há um prazer primitivo que deve ser obtido com o exercício da crueldade e o gozo pela destruição de algo que vale a pena destruir. Enquanto somos capazes de ser pais, somos também vulneráveis às forças que gostariam de destruir o que os pais criativos, ou potencialmente criativos, poderiam criar. Devemos nos acostumar a ser membros deste grupo ou cultura especial, mas não podemos nos habituar se não temos a coragem de existir nele.

  ESTANISLAU: Einstein já falou sobrecomo nossa ciência é infantil, e certamente a psicanálise não é diferente, especialmente quando tenta forçosa, arrogante e defensivamente recobrir ou preencher a sua ignorância. […] E você, Nelson, que está aí quietinho, o que diria para a infantilidade da psicanálise e dos psicanalistas? Que recado você deixaria à juventude?

  NELSON RODRIGUES: O que eu teria a dizer aos jovens é o seguinte: envelheçam depressa, com toda a urgência, ENVELHEÇAM!

 

(notas[1])

 


 

[1] As falas deste texto não foram modificadas em nada – apenas as ligeiríssimas falas de Freud, Ella Sharpe (retirada de carta de Winnicott na verdade) e Lacan foram levemente reorganizadas, mas não adulteradas –, e podem ser lidas textualmente em:

BION, W. R. Italian Seminars. London: Karnac, 2005.

BION, W. R. Conferências brasileiras: 1 – São Paulo/1973. Rio de Janeiro: Imago, 1974.

BION, W.R. (1990). Uma memória do futuro I: o sonho. São Paulo: Martins Fontes. (publicado em 1975) – Bion, W.R. (1996a). Uma memória do futuro II: O passado apresentado. Rio de Janeiro: Imago. (publicado em 1977) – Bion, W.R. (1996b). Uma Memória do Futuro III: a aurora do esquecimento. Rio de Janeiro: Imago. (publicado em 1979).

BION, W. R. – Seminário realizado em Paris, em 10 de julho de 1978. Apresentação de Chris Mawson, Co-Editor bpas website. Transcrição de Francesca Bion. Setembro de 1999. Tradução de Wellington Dantas (SBPRJ). Abril de 2000.

BLEICHMAR, Silvia. Clínica psicanalítica e neogênese. São Paulo: Annablume, 2005

ELIOT, Thomas Stearns. Poesia: T.S. Eliot. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.

FREUD, Sigmund. Moisés e o monoteísmo, esboço de psicanálise e outros trabalhos (1937 – 1939). ESB vol XXIII. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

GIOVANNETTI, Marcio de Freitas. Uma questão hamletiana. Em: FRANÇA, Maria Olympia de A. F (coordenação) – Sociedade brasileira de Psicanálise de São Paulo. Bion em São Paulo: ressonâncias. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado, 1997.

LACAN, Jacques. Entrevista a Jacques Lacan [1974]: por Emilio Granzzoto. Magazine Litteraire. Disponível em < http://gentequenecesitaterapia.wordpress.com/2006/02/20/entrevista-desconocida-con-jacques-lacan/>. Acesso em: 14 set. 2012.

LEE, Bruce: Aforismos. São Paulo: Conrad Editora do Brasil, 2007.

WINNICOTT, Donald Woods. Tudo começa em casa. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

WINNICOTT, Donald Woods. O gesto espontâneo. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

As falas de Einstein, Maurice Blanchot, Karl Popper e Nelson Rodrigues são famosas, consagradas e de cunho e uso comum, podendo ser encontradas facilmente em qualquer busca na internet.

 

 

Por: Estanislau Alves

00SELO
Tópico: Literatura

Esta notícia é proveniente do Portal Aeternus

www.aetern.us

 

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *