Foto por: Jansy Mello

Autora:

Jansy B S Mello

Discurso da Verdade Una

Já comentei por aqui sobre o componente fascistóide tão comum em meios místicos-esotéricos, gente que adora um discursinho meio sonso de “Governo central do mundo”, “Guardiões Cósmicos da Humanidade”, “todas as culturas convergem para a Verdade Una” e o caráleo a 4.
Normalmente, o componente fascistóide não é algo claro para a própria pessoa, e vem carregado de ótimas intenções, o que não muda o horror do resultado.
Umberto Eco detalha bem o processo em sua palestra sobre o Ur-Fascismo, ou o que ele chama de “fascismo eterno”, material excelente que detalha a dinâmica da coisa.
Um exemplo bom do discurso da Verdade Una como forma de dominação é o que ocorre em muitas formas de sincretismo.
Quando se diz que X e Y que vêm de culturas diferentes são “uma mesma coisa” em vez de se dizer que eles guardam atributos semelhantes, tal processo dificilmente é benéfico para X e Y ao mesmo tempo. Há quase sempre um que sai apagado da parada, e assim o processo se dá até que haja apenas uma verdade, uma cultura. New agistas adoram isso. Eles adoram ver algo de uma cultura só pra dizer “oh, isso é a mesma coisa que…”. Só que nunca é a mesma coisa, só é parecido.

E entender que semelhança não é identidade significa se proteger contra as ambições da Coisa Única. Dá material pra muita discussão boa, essa tese do Eco.

Mas estou divagando. O que me chama a atenção no presente momento, considerando perfis com inclinação new age / good vibes / mindfullness é o seguinte discurso que todo dia me mandam, quase sempre acompanhado por uma foto bem cafona que tenta retratar a natureza, mas com uma idiossincrasia: em cores artificiais de photoshop.

 

As mensagens dizem: em um momento como este, não leia as notícias, não envenene sua aura luminosa com informações políticas, leia apenas coisas boas, não veja os jornais. O que é uma forma namastê de dizer “ignore a política”. Mas, que engraçado, é um pedido pra ignorar AGORA que Bolsonaro é vidraça.

Porque antes, essas mesmas pessoas que agora me orientam a cantar mantras e a pensar nas libélulas dos bosques e nas fadas de Yorkshire, antes elas inundavam minha vida com “Fora Dilma”, “veja esta notícia”, “veja aquela”, “que escândalo”, “a esquerda vai transformar o Brasil em uma Venezuela”. E justo agora que o Brasil está virando o koo do mundo, elas querem que eu feche os olhinhos e vá cantar mantras.

 

É preciso um grau todo especial de tara fascista pra tentar seduzir os outros à ignorância política neste momento. Sejam menos sonsos e assumam seus gostos.

 

Namastreta.

Debate:

Jansy: Fiquei estarrecida quando meu comentário numa postagem foi deletado. A autora, sempre simpática e acolhedora, se esparramava sobre solidariedade e união criando um vasto abraço de “nós”. Questionei o simpático sonho: “e como garantiremos as diferenças?” e Zapt. A resposta veio com o desaparecimento de tudo. Posteriormente aquele tudo foi repostado. Mas do zero. Não havia o comentário das diferenças. O mundo da caridade pode ser perigoso…

Conceição: Gente boazinha demais me dá arrepio

Jansy: Conceição, perdi o acesso a um desenho animado francês dos anos sessenta sobre isso. Muito bom. Les Maitres du Temps. Quando faço busca aparecem outros com o mesmo título. Ironia. Ficou tudo igual… No rótulo apenas

Vera: Jansy, o mundo da caridade pode ser hipócrita …..

Jansy: Vera,com certeza. Ou autoritário. Sabem o que o mundo precisa receber de modo categórico

Angela: Usam armas sem nenhuma seriedade, hipócritas

Gustavo: Acho que o fascismo, fascismo mesmo, não tá aí não. Não na tentativa de equalização, na cafonice good vibes etc. O fascismo reconhece sim a diferença (alucinatoriamente muitas vezes) e a repudia, com violência se for preciso. O fascismo vai além da hipocrisia e das boas maneiras forçadas. Em poucos dias um marmanjo desocupado (ou muito bem pago) ameaçou uma enfermeira que protestava em Brasília, e uma moçoila acertou uma bandeira (do Brasil obviamente) na cabeça de uma jornalista. Assim como um jesuíta não se acha igual ao índio. Ele sonha com a capitulação do outro, da opinião alheia, da cultura alheia. Diferente do pé-no-saco holístico, na minha opinião… Mas reconheço esse conservadorismo hipócrita e assimétrico, e esse bolsonarismo envergonhado e tenho pouquíssima paciência. Mas sou pela escolha de um inimigo de cada vez, não por convicção, mas por estratégia.

Jansy: Gustavo, bem posta a questão do reconhecimento da diferença. No entanto, tanto no fascismo puro quanto na cooptação pela bondade essa diferença é esmagada. Não tem como escolher um inimigo de cada vez. Esses grupos se apresentam no mesmo momento. O fascismo histórico é barulhento e sádico. O outro exemplo é manso e auto iludido.

Gustavo: Jansy, tenho o temor de alargarmos demais os conceitos, mesclarmo-los, criarmos híbridos até o ponto de desnaturá-los e não significarem mais nada, pois significam demais. Aí todos viram inimigos… Particularmente prefiro guardar o conceito para os sádicos, até para não atenuá-los. Mas percebo o mal que todos, barulhentos ou mansos, fascistas ou apenas hipócritas, causam.

Jansy: Gustavo, concordo com o risco de exagero na atribuição de sentidos, até implodirmos os significados. No texto sobre namastretas eu gostei do empréstimo provisório para causar espanto e provocar argumentos… Não como algo definitório.