Autora:

Jansy B S Mello

Faraó

Uma proposta intrigante do livro Arte e Ilusão de Gombrich me ressurge de vez em quando e isso durante anos. Este crítico sugeriu que, quando os egípcios representavam figuras olhando de frente para o espectador, em vez do costumeiro perfil, seria porque se tratariam de escravos ou de estrangeiros. Esses podiam ser individualizados num desenho porque eram desimportantes e transitórios. Os faraós, eternos, pertenceriam a uma região da imortalidade que dispensaria seus traços e particularidades. Cheguei a escrever um poema naquela ocasião. Pensava no meu ofício, na faísca de vida em cada um de nós:

 


HOMEM. OUTRO. HOMEM
A INDIVIDUAÇÃO. CRONOMETRA
SUGERE COISAS PERDIDAS
NA LINHA DE UM TEMPO
QUE SE ARREBENTOU.

SOMOS ESTRANGEIROS
OS PSICANALISTAS
CRIAMOS NO EFÊMERO
ENQUANTO ETERNOS
DORMEM OS FARAÓS.

Não fiquei satisfeita com o resultado, mas não consegui melhorar, nem ritmo nem vocabulário.
A ideia ainda me encanta, essa, de que somos indivíduos únicos exatamente porque somos mortais.

É pela vida que conquistamos o tempo, se soubermos inventá-lo…

Jansy B S Mello