Foto de um arquivo antigo com Vladimir Nabokov // O dicionário pode ter sido o Websters

Autora:

Jansy B S Mello

Ilusão de haver uma Escolha

Ir ao cinema com Humberto estimulava conversas interessantes.

Foi ele quem primeiro me apontou para o que envolvia a cruel “Escolha de Sofia”, ou seja, para a realidade de não haver qualquer escolha. Ela e os dois filhos estavam à mercê do soldado nazista, todos três ferrados.

Para Humberto, Sofia devia ter deixado o soldado decidir sozinho qual dos filhos dela iria para a fila á direita ou à esquerda, ou então matar logo todos três.

Qualquer outro caminho de resgate seria ilusório.

 

O segundo filme cujo comentário ficou na minha memória foi um antigão do Polanski: “O Inquilino”. O rapaz que alugou o apartamento que havia sido de uma suicida não conseguia ser servido no bar em frente de casa. Se pedisse um maço de Gauloises, lhe entregavam Chesterfield e se encomendasse café preto, sua xícara viria com um pingado. Tanto os cigarros quanto o café que recebia eram do tipo que a inquilina anterior pedia, de rotina.

Eu não tinha notado, durante o filme, como estas substituições o empurravam desde o início a identificar-se com a moça morta, o que foi ficando cada vez mais claro nas cenas subsequentes.

Quanto à ilusão de haver uma escolha, mesmo se ela for catastrófica, em muitos sentidos esta é a única que podemos exercer no momento de colocarmos nosso voto na urna.

A outra faz parte dos pequenos jogos do cotidiano: se eu não quiser brigar o tempo todo, devo aceitar beber água num copo de papel ou a cerveja no gargalo, devo vestir uma blusa um pouquinho amarrotada e aceitar a toalha mais gasta da pilha, fingindo que não noto a pressão do ambiente para o mais tosco ou o menos bonito.

O mesmo acontece com a linguagem. Passou. a ser, muitas vezes, necessário limitar o vocabulário e nadar nos erros de concordância…

Debate:

Guilherme: No meu caso, se me permite comentar, demorei a perceber que o rolo de papel higiênico colocado ao contrário não era mania de perseguição… Sempre foi aleatório, estatisticamente falando, mas só percebia quando estava diferente do que eu queria, o que parecia ser sempre pois era quando eu percebia. Se estivesse certo (como eu achava que deveria ser) eu não percebia (não entrava na estatística). Assim para o tampo do vaso para cima ou para baixo. A faca no secador de louça, o lençol invertido, e outras cenas do cotidiano… Pressão do ambiente??? Libertação!

Jansy: Tudo bem lembrado em muitos pontos. A posição do rolo, a inversão dos lençóis e de só notarmos isso quando estão errados e tal. Mas aqui a faxineira coloca tapetes do lado avesso cem por cento das vezes. Vai relaxando e veja a cena total: xícaras com pires descasados, água no copo de requeijão, sujinho no canto das travessas, móveis descascados por golpes da vassoura, quadros tortos, sofás enviesados, persiana com aletas quebradas, marca dos dedos em interruptores, garfo de sobremesa para almoçar, falta de colheres, mesmo com suporte a água das plantas vasa ou copos deixam círculos. Acho que tem uma espécie de entropia. Não faça contabilidade. Só deixa ir acontecendo…

Guilherme: Sincronicidade ou teoria do caos , tanto faz . De qualquer forma fiquei feliz quando vi a reportagem em anexo sobre a patente do papel higiênico. Descobriram o lado certo!!! Acabou a polêmica. // Mega Curioso – patente revela o jeito certo de pendurar o papel higiênico

Fati: Reluto ao uso dos objetos, os quais não tem valor tátil e flertes comigo. Já neguei copos de cristais e copos plásticos. Só não nego a água, na ausência do copo correto, bebo com as mãos. Meu avô falava: Já notou a diferença entre o lugar do vinho e o da água? A água não borra tuas mãos. O vizinho foi feito para a taça.

Jansy: Aprendi outra lição no inicio da adolescência. Lia Somerset Maughan, que detalhava o capricho dos ingleses em pleno acampamento na Índia, com o horário do seus chás e seus ternos formais, mesmo quando não entretinham algum hóspede em casa. Eram mostras de civilidade e de resistência. Até hoje acho isso louvável, mas não o pratico rigorosamente…

Fati: Tenho rituais nas alimentações e no receber em casa. Nas tarefas de habilidades manuais e distrações também os tenho, para que tenham identidade do povo que deu origem ao trabalho. Os italianos da minha família me diziam, se for fazer faça bem feito, receba bem, assine com teu nome e faça lembrarem do sobrenome. No sentido da origem e dos povos.

Thais: Muito oportuna estas recordações e associações.

Isadora: Muito bom, e seria importante que mais pessoas lessem, peço licença para compartilhar, posso? Carinho.

Jansy: Claro!

Elaine: Super interessante ! Gostei muito de ler…

Autora: Jansy B S Mello