Foto por Jansy Mello do Livro: “Pale Fire” de Vladimir Nabokov, Edição Especial

Autora:
Jansy B S Mello

Quarenta Dias

Já passei dos quarenta dias numa quarentena, assim como tanta gente, mesmo sem estarmos cem por cento protegidos contra o coronavírus.
A cada novo dia me sinto grata por acordar com saúde.
Atualmente, o amanhecer não desperta em mim apenas alívio e gratidão. Vem junto uma sensação de ter cumprido bem meu dever de casa, quase um orgulho por ter superado mais uma etapa dessa partida cruel, como se isso dependesse de mim.
No entanto, esta conquista é de toda uma comunidade e, com sorte, também de um bairro ou de uma cidade. Ou melhor, não de toda a comunidade. porque há exceções, algumas revoltantes… Vamos indo, torcendo, fazendo a nossa parte…
Acreditei, nesse hesitante otimismo, que meus guardados continuariam intactos, já que ninguém neles punha a mão. Destranquei a porta do meu escritório hoje cedo, em busca de um livro e não havia apenas muito pó nos móveis e nos objetos. Os livros pareciam ter murchado como plantas que ficaram sem serem regadas.
Na quarentena eles amareleceram mais depressa, com manchas de velhice.
A passagem dos dias, sua duração, insidiosamente rompeu as barreiras das portas, vidraças e até redomas.
Descobri que esse tempo penetra e inescapável pode ter um ritmo imprevisto, dar corridinhas ou ficar parado, como se reagisse à presença e se detivesse ao ser encarado.

Jansy B S Mello