Ilustração por: Fritz Baumgarten

Autora:

Jansy B S Mello

Realidade da Mente Fanática

Recebi hoje um cartaz no qual se aponta para a realidade da mente fanática, aquela que não se deixa convencer por argumentos lógicos e fatos, porque o fanático sofreria de uma profunda necessidade de acreditar.

Estamos acompanhando com perplexidade crescente as atitudes e falas dos seguidores de Trump, do Bolsonaro, do Olavo. Os dizeres do cartaz se aplicam a este tipo de crente movido por essa intuição e pelo anseio infantil da potência de um grande Pai.

No entanto, me parece que eu também sou uma fanática… Mas das que não tem messias ou mestre. Fanática porque tenho essa profunda necessidade de crer.

Achava que isso de crer era um resquício das fantasias das crianças que batem palmas para a fada sininho e procuram ovinhos escondidos por um coelho.

Ainda por cima, no passado da infância me acontecia algo curioso: eu tinha um pensamento crítico aguçado para perceber o mundo e as pessoas, mas, ao mesmo tempo, não agia a partir da crítica ao que observava. Fingia para mim mesma que estava tudo bem e a isto ainda acrescentava esta suspensão da descrença, para voar nos tapetes de Aladim ou me encolher com pó de pirlimpimpim, na garantia de que os adultos eram todos sábios e bons. Tudo iria bem no melhor dos mundos do Dr. Pangloss.

Mas esse lado fanático nunca tomou conta de mim integralmente. Na minha opinião ele é mesmo algo necessario. Quem sabe isto se origina na aposta primeira do bebê, como foi descrita por Freud (carta a Ferenczi, Projeto para uma Psicologia). Segundo ele, para sobreviver, o recém-nascido construiria (não sei qual verbo usar) um juizo de atribuição antes de alcançar o juízo de realidade. Para o bebê seria como deixar-se experimentar que a vida é boa e o ambiente é confiável e amável antes mesmo de testar se ele existe ou é verdadeiro.

Será que o problema não está no fanatismo, em si, aquele que precisa sustentar uma crença qualquer, mas no permitir-se que esta aposta na vida tome conta do resto de si mesma?

 

Debate:

Fati: Dizem estes tipos: “A lógica ensina. O exemplo arrasta.” Complicado. E este exemplo não é necessariamente paternal, pode vir da díade mãe bebê. Mas certamente é de cadeiras, posições sociais. Penso que negam a ciência, porque a ciência não está para o exemplo.

Jansy: Fati, nas nossas conversas um termo importante não comparece: identificação. A identificação em Freud, não a policial, liga-se ao exemplo – embora lide com uma cópia -inconsciente – de um modelo e não com uma modelagem como nos passos de balé. Tudo bem pra díade mãe- bebê, mas o pai existe ali desde sempre na mente ou paixão da mãe. Pai poderoso!

Fati: Sim. Observe na família destes indivíduos, como a mulher realmente é muito presente e poderosa. Quando a mãe não tem autoridade do exemplo, ela pede a intervenção do pai. O pai realmente, e não é somente da boca para fora, acata a mulher no exercer a força. Como se a força masculina estivesse a serviço da mulher na família. As famílias deles são desta forma. A mulher na família, neste sentido é como um sacerdote para o império. Intocável na pseudo fragilidade. Neste sentido. Sou a favor que a mulher tenha plenos e iguais direitos e responsabilidades como os homens. Melhoraria muito o universo masculino, tiraria muito do peso sobre o masculino. Por isto estas mulheres clássicas não querem igualdade com os homens e querem continuar como estão, são ardilosas aprenderam muito bem, dominam com força psicológica e sexual. Não é somente pelo conforto material e proteção.

Jansy: As familias deles? Dos fanáticos? Não conheço essa teoria

Fati: Quando com muita cultura estas mulheres são silenciosas e amáveis na aparência. Quando com menos cultura são rixosas (termo inclusive utilizado como controle religioso, muito presente nos evangélicos). O termo coração da revanche também se refere a elas entre certas ordens masculinas.

Jansy: Realmente… uma declaração e tanto, essa!

Fati: Jansy, sim dos descritos com comportamento “fanático” acima.

Jansy: Fati, pode ser. Desconheço isso, o que nem é uma novidade!

Fati: Nenhuma novidade. Sei como são tenho vivência em negócios, infelizmente com indivíduos deste tipo. Inclusive as mulheres valoram o dinheiro, por ser uma extensão do poder factual do homem além do lar. E aí disputam com as demais mulheres semelhantes na sociedade, colhem os “benefícios” desta relação tóxica. Clássico o comportamento.

Jansy: Parece o mundo cotidiano dos meus gatos. Eles disputam território o tempo todo. Já foi diferente e havia solidariedade de até machos ajudarem com filhotes. Não sei como um esquema mudou para outro. Posse e ciumes. Muito chato

Carlos: “Para o bebê seria como deixar-se experimentar que a vida é boa e o ambiente é confiável e amável antes mesmo de testar se ele existe ou é verdadeiro.”
Este é um ponto fascinante. Penso que o bebê , neste nível, não tem muita alternativa ou escolha, é o que é. Os juízos vão se construir a partir da interação do bebê com o meio. Mas ele não experimenta tudo necessariamente como confiável e amável, acho que dor e prazer estão presentes e formam a díade básica que é justamente a raiz do Édipo. A fome e a barriga cheia , seguida de cólica e cocô

Jansy: Carlos, Gosto em particular desse Freud ainda neurologista e sem ter construído a Psicanálise. Sei por ter visto num estágio num hospital que há crianças que rejeitam a vida porque deram azar nas primeiras relações com mãe/mundo. As interações são amplamente descritas por Freud e por Melanie Klein em particular. O juízo de atribuição do recém-nascido é de curta duração. O resto… melhor ver direto em Klein! Cf. por exemplo algum texto sobre as posições esquizoparanóide e a depressiva no bebê… Édipo em Klein também segue por etapas! Em Freud é bem posterior que para ela…

 https://en.m.wikipedia.org/…/Paranoid-schizoid_and…