Imagem: Poema de Carlos Drummond de Andrade “Ausência”

Autora:

Jansy B S Mello

Ausência

Percebi que minhas saudades estão se transformando.

Não chegam feito aquele lamento do Chico na cantiga “Pedaço de Mim”, como um tormento. Embora as saudades apareçam por causa de uma, ou de muitas, ausências, elas também não são como no poema do Drummond, separadas da falta pois, nele, a “ausência é um estar em mim”.

Nesta quarentena-vingt ou mesmo noventena não faltam frases, imagens e teorias escorrendo para encobrir o buraco da falta.

Ou ainda, numa linguagem bem menos poética que a do Drummond, para me servirem para introjetar o objeto perdido, fazendo-o habitar em meu universo de fantasmas vivos.

A transformação da saudade precisou que, antes de tudo, eu me perdoasse por não ter cuidado o bastante do outro e do seu mundo. Depois, que eu abandonasse o sentido do tempo passado ou linear como quem contempla as estrelas sem pensar.

Só então ficou tudo pronto para a metamorfose, quando a saudade passou a vibrar em ondas de amor. A mudança foi essa, abraçando alegrias e ternuras por tudo que vivi  (e passou) e por todas as pessoas que amei  (e perdi) para ser tomada por uma emoção estendida que se esgota, sem se esgotar numa pura duração.

Surgiu assim um novo amor feito de partes e de abraços para ser solto no ar…

Autora: Jansy B S Mello