Foto: Acervo Pessoal Jansy Mello

Autora:

Jansy B S Mello

Espiral: Círculo libertado

Para Nabokov, a espiral seria um círculo libertado, sua proposta poética sobre uma intuição.

Este escritor tinha, entre tantas outras, uma problemática com a temporalidade.

No seu romance “Ada ou o Ardor” ele descreveu as “cronofobias”. Quando ele abriu o seu livro de memórias com esta frase:

“o berço balança sobre um abismo e o senso comum nos ensina que a nossa vida é apenas uma réstea de luz entre duas eternidades de trevas”

Ele logo acrescentou ali a observação de que o homem encara o passado, uma das pontas da escuridão, com muito mais tranquilidade do que a outra incógnita.

Mesmo assim, ao longo dos seus romances, a visada da vida através de um “retrovisor” trazia seus sustos. Um deles, o de encontrar uma fotografia do seu próprio berço, vazio pois ele não havia nascido ainda.

Uma surpresa que ele narrou me aconteceu algumas vezes, a de reencontrar um amigo, que não via há uns quarenta anos e de quem me recordava na juventude, de barba branca e rugas. Na memória ele tinha estacionado no tempo.

Não sei como estão as atuais teorias sobre os tempos cíclicos, em oposição ao tempo linear, com sua referência ao passado e ao futuro. Não sei ainda como se interpreta hoje a filosofia de Nietzsche sobre o eterno retorno do mesmo.

Questiono a temporalidade evolutiva que me acomodou na sensação de progressão rumo a uma complexidade crescente.

Tem-se evidências suficientes de que, ao nível do mundo físico, a evolução acontece tanto no que se refere ao indivíduo quanto à espécie.

Se o mesmo ocorre no mundo mental ou nas sociedades não é nada certo, mas eu achava que fosse.

Seria como ir passando de ano na escola e ganhando juízo passada a adolescência. Talvez uma gradação como a representada na hierarquia angelical com os querubins, serafins, anjos e arcanjos. Porque então também havia a fé nos anjos.

Será que a ideia de progresso e da evolução do espírito humano desapareceu com os querubins?

Talvez não! Por isso acho importante deixar de lado o hábito de viver no tempo linear.

De exercitar-me nos livros de ficção que falam dos mundos paralelos, já que incapaz de entender a física quântica, mas respeitando minhas intuições e as viagens na consciência especial de alguns sonhos.

O parágrafo com a frase citada do livro de Vladimir Nabokov Speak, Memory.

Autora: Jansy B S Mello