Foto: Acervo pessoal Jansy Mello

Autora:

Jansy B S Mello

Maria, Nina e Eu

É uma pena que esta foto esteja tão estragada.

É uma das raras que tenho com as duas. Minha primeira chamada para as complexidades da vida em sociedade aconteceu naquele ano.

Durante uma compra no armazém do bairro, encontrei com uma colega de escola e, animada, quis fazer as apresentações.

Disse, com orgulho:

“Lúcia, esta é a minha empregada.”

Trocamos conversa e, depois que nos distanciamos, Maria me falou com gentileza:

“Não faça as apresentações deste modo. Sua mãe me convidou para trabalhar e é ela quem me paga. Você não deve achar que sou sua empregada.”

Ela percebeu que minha forma de exibi-la não era senão o modo pelo qual uma criança exclama: “Esta é a minha mãe”.

Não se ofendeu. No entanto, acrescentou: “Você me fez sentir vergonha!”

Maria me acompanhou da infância até a minha saída de casa, muitas vezes mais próxima de mim do que era possível a minha mãe, que trabalhava fora e era empregada, também ela, num “birô” no centro da cidade.

Sua filha, Nina, era copeira num casarão em Botafogo. Com as duas, pelas portas dos fundos, comecei a conhecer melhor minha cidade: as novelas da Radio Nacional, a voz do Chico Viola e Dalva de Oliveira, as conversinhas de rua, as tragédias diárias (que não eram poucas), um cotidiano que quase não tive com meus pais.

Vivia em dois mundos. Dei sorte porque nos dois havia amor e dignidade.

Autora: Jansy B S Mello