O que eu gosto da minha infância
é que eu gostava dela, mesmo
quando não gostava dela.

Eu amava o poste torto
na esquina,
o buraco da calçada
no azul do seu desenho.

Os cheiros, todos.
Bacalhau no armazém.
Ovos frescos, galinhas e,
às vezes, codornas também.

Água verde pela
rua e seguindo
em caminhada,
o aroma de um jardim.

Areia da praia no fundo
do maiozinho,
extensão do mar que me fazia
por a boca no mundo.

Recantos de luz, calafrios
frestas, goelas
de arrepios com o que já
fora visto tanto, tanto
mas parecia novo de repente e
mais estranho.

Eu vivia os segredos dos quintais
sombrios, frutos caídos, mosquitos
pinicando feito organdi nas costuras
dos braços, estragando
as festas.

Gosto da infância porque
então eu gostava de tudo,
na pele e nos olhos,
ouvidos prontos,
galo distante, distraído.

Meu io-iô feito dropes lambido,
segurado contra a luz era uma promessa de
maravilhas a mais.

Mesmo sem qualquer direito
o mundo todo me pertencia e cada
caminho me devolvia à inocência.

Pegar o bonde andando e ir no estribo
Dos gradis das velhas casas, gritando:
Cada passagem será registrada
à vista do passageiro...”
treinando em casa com moedas do Getúlio,
notas alinhadas, asas a fugir dos dedos.

– “O que é isto, menina
deixar crescer a unha do mindinho?”
O bonde 5 já vinha com areia do Leme,
daquela molhadinha
de fazer fila de bolos que não se desmanchavam.

O 7 do Humaitá trazia o verde das hortaliças.
Águas Férreas. Laranjeiras.
Praça do Gozório, estranho general.

Inventaram o plástico na páscoa,
só o meu, com ranço de mato
e cestas de ovos,
passeio de mão dada, palitinhos
de sorvete.

O mundo me pertencia e cada passo
a ele me devolvia na ignorância breve
do seu enorme buraco sem fundo,
como as calças riscadas
dos peixeiros sem casaca,
italianos bigodes,
espantando ladainhas de gatos
a miar por narizes santos no céu
de escamas espalhado no asfalto.

E o melhor de tudo …
e o melhor de tudo era
isso mesmo, de achar
cada instante o melhor de tudo.

Poesia por: Jansy B S Mello